sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Um Pouco Daquilo Que Se Chama Amor

Tu não me lês, não por mau gosto, mas por uma incapacidade fisiológica: tudo o que sou sempre foi-te indigesto e, justamente, pois, incompreensível. Quanto a mim, apenas como adorno da tua experiência estética te interessava: sem isto a que tu chamaste de "amor", o mundo, incontornavelmente, te pareceria uma triste rocha pendurada no espaço - uma calúnia contra a Terra! É por isso que ele, este teu amor, sempre me pareceu um tanto desesperado, uma angústia mal encaminhada - pobre de ti se perdestes o teu objeto de afeição! Chame de amor, ou do que mais quiser apelidar, contudo aquilo sempre será: tua vingança contra a vida pela tua pobreza dela.

De minha parte, justamente por pressentir, encarnar e afirmar a prescindência de um adorno para a minha experiência estética, de uma fantasia para um carnaval - pois, a minha carne sempre teve valor, e a vida na Terra, uma dádiva... - e eu sempre tive a mim mesmo por completo, com as cores que me dotaram a natureza - que eu pude ter por ti o que um dia chamei de "amor": uma fuga de mim mesmo, uma curiosidade teimosa, uma vontade de brincar, de correr riscos, uma vontade de poder negar a mim mesmo no outro. E foi assim que ambos sucumbimos.

E, daqui em diante, quem não puder vislumbrar no primeiro instante a que grau de humanidade pertenço, tem para mim pouco valor. E quem não puder perscrutar a minha máscara e se maravilhar e querer brincar - eu nunca poderia - amar!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

No Mercado Público da Vida

Hoje, observando Aurora numa loja, admirada com brinquedos para bebês, alguns dos quais ela mesma já teve, tive uma epifania: ela, que já não é uma recém-nascida, senão, uma criança que se prepara para despedir-se da primeira infância, tomou aqueles brinquedos nas mãos com um pathos - longing, em inglês, na falta de expressão mais precisa no momento - de quem superou uma dificuldade - todo bom brinquedo deve apresentar uma dificuldade à criança, adequado a cada fase do desenvolvimento do intelecto - e olhava para ele admirada com a sua própria força e inteligência, de descobrir o que faz certo botão, "o que acontece se eu apertar aqui?", de perceber padrões: "esse brinquedo eu não conheço, mas se parece com aquele que conheço: devo apertar algo colorido aqui para ouvir um barulho divertido", a alegria de perceber cores e sons: estímulos aos sentidos, etc.; um proto-orgulho de conhecer, assim dizendo. 

Ora, não é isso o que fazemos todos, no mercado-público da vida? Às vezes nós mesmos, talvez para sempre e em cada época da vida, não tomamos nas mãos algo conhecido; não damos um passo atrás para recuperar um pouco do nosso orgulho, talvez estimular a nossa coragem a seguir em frente: "veja só, eu mesmo, fui capaz de superar tal desafio, que me apavorara, e o resultado disso - surpresa! - me alegrou! Vamos fazer de novo?! Então vamos!"?

Para o eterno-retorno: amor-fati.

Kairós

1. A hora certa de parar de beber I: quando prescindimos de álcool para chorar.

2. A hora certa de parar de beber II: quando a intoxicação não mais aflorar a percepção dos sentidos, pelo contrário, paralisando nosso espírito.

3. A hora certa de mudar de endereço: quando nossa residência não é mais o nosso lar.

4. A hora certa de mudar de ambiente de trabalho: quando nosso asco e desgosto ante a podridão e mediocridade alheia são irremediáveis, incontornáveis.

5. A hora certa de mudar de máscara: quando nos assemelhamos, nos afeiçoamos a ela. 

6. A hora da morte certa: quando findada e emoldurada em segurança a minha obra; morte "que vem quando eu quero". 

7. A hora da morte justa: quando a força dos nervos, músculos e ossos não mais sustentarem o peso do próprio corpo - ou, quando a força de um espírito não mais comandar nervos, músculos e ossos.

8. A hora certa de criar: quando a realidade que nos cerca, tal como ela se apresenta, já não é suficiente - é preciso uma obra de arte para superá-la, enfeitá-la. 

9. Quando não há canais para o fluxo dos afetos: é preciso providenciar um placebo

10. Quando não há uma terceira pessoa na conversa além de eu e mim mesmo: é necessário escrever - sintetizar a multitude de vozes dentro de um: não é isso escrever?

11. A hora certa de rir: primeiro, de si mesmo.

12. Quem me conhece profundamente deve ter fôlego; meu confidente, força para dividir o peso de um fardo; quem é meu par, minha simpatia; e quem me despreza, mau gosto.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Para Toda a Elevação da Cultura: Uma Ditadura

Devo dizer - a honestidade, a minha estupidez, me impede de proceder de modo diverso - que não discordo, fundamentalmente, de Nietzsche, primogênito que não viveu o século XX, todavia, pretendo atualizá-lo neste ponto: não é apenas alguma forma de escravidão uma precondição, como ele dissera em "Além do Bem e do Mal", para a elevação da cultura. Nós, os que temos um olhar privilegiado, daqui da adolescência do século XXI, devemos dizer: para toda a elevação da cultura é imprescindível uma ditadura

Quanto ao problema da escravidão: o que pode haver de louvável nos povos da África sequestrados para servir de instrumento barato para a acumulação primitiva na América é, justamente, a resistência e a luta. Tanto que é lembrado Zumbi, guerreiro que, por seu sentido de nobreza, não aceitava a condição da escravidão, e teve seus próprios escravos... O que o marxismo mais caricato não compreende: a escravidão não é apenas um fenômeno econômico, é, sobretudo, moral - psicológico. Da mesma forma, o que pode haver de louvável num rato assalariado que tem como perspectiva de vida, horizonte de planos de ação adquirir renda estável e contrair empréstimo bancário para comprar o seu imóvel próprio, gastar seu salário no shopping, nas coisas da moda, etc? Ora! Essa é a evolução tecno-política da escravidão! Já nem é dada aos Senhores a inconveniência de cuidar da casa e da comida do seu cativo: "Dêmos-lhes uma coisa chamada salário e eles que se virem!" 

Justamente, o primeiro assalariado a merecer honra é o grevista, por mais pueril que ele seja, e aquele que não aceita e não se sujeita à essas condições - sobre a porta desse o futuro pendurará guirlandas!
Portanto, reiterando: não apenas alguma forma de escravidão é necessária para o desenlace da teia da dialética do sentido histórico. Nós, os que temos um olhar privilegiado, daqui da adolescência do século XXI, devemos dizer: para toda a elevação da cultura é imprescindível uma ditadura

E para confirmá-lo nem é preciso sair de casa: veja-se o Brasil que dentre as décadas de 1960, 70 e 80 produziu suas mais elevadas formas de cultura em cinco séculos - teatro, cinema, literatura, poesia, música - um tanto antes, muito pouco, quase nada depois dessas três décadas - e que, hoje, celebrando trinta anos de democracia, é uma gigantesca fábrica de mediocridade, exportador de "commodities-da-cultura", i.e., lixo para embalar as noites estrangeiras - por isso mesmo não menos medíocres que as nossas. O que é a nossa cultura hoje? Nossa música? O que vem à tona: não é um refugo? Não é esse o sentido do gosto democrático: revirar o fundo do poço para que todos possam ter acesso ao que nele apodrece? 

Para não correr o risco de soar (ainda mais?) elitista, não vamos comentar sobre a profusão de funks das periferias urbanas: seria desleal - são moleques desprovidos dos meios da elevada cultura, em outras palavras, são escravos. O que mais me interessa é a pobreza estética que se identifica mais rapidamente com nossas camadas econômicas médias e altas: aquilo que se chama por convenção de "sertanejo", apesar de todo abuso da lógica, toda a violência contra a histórica da cultura caipira. É fato: parece-me que essa indústria cultural tem seus tentáculos nos nós, nos pólos da agroindústria, onde o grande capital nacional aufere e amplia seus lucros, na esteira da desindustrialização brasileira e na aposta do petismo em exportação de commodities e, dali, segue para os grandes centros urbanos a partir dos fluxos de trocas de valores inerentes ao urbano-rural, talvez ainda mais no caso brasileiro - aqui, não haveria urbano sem o rural (a industrialização de algumas sociedades suprimiu o rural dentro de seus limites, deslocando geograficamente suas necessidades de ativos agrários, por vezes ao vizinho, ora ao estrangeiro mais distante). Pois bem: existe, hoje por sobre a face da Terra, alguma experiência estética mais miserável? Algo que apequene ainda mais a vida do rebanho? Fica aqui registrado o meu desgosto.

Queremos mais? Façamos uma visita aos jardins dos nossos vizinhos: a Argentina, cuja música popular é representada por um Fito Páez (Um parênteses aqui: quem no Brasil é dessa estirpe? Precisaríamos fundir alguns de nossos melhores metais para atingir tal nobreza; um Renato Russo, talvez, se estivesse ainda vivo - que foi reconhecido desde os Paralamas do Sucesso à Caetano Veloso, portanto, pode até estar acima deles), teve seu período de produção intensa também durante o seu ciclo de ditadura. Desnecessário dizer, até os postes sabem, mas é sempre bom lembrar: na Argentina se lê muito - no Brasil não se lê. 

Deveras, deveríamos, todos os latino-americanos, elaborar um reconhecimento público de agradecimento à Washington: o que seríamos nós, pobres Estados semi-feudais, de baixa industrialização e, no caso brasileiro, sub-imperial, sem as nossas ditaduras? Onde enfiaríamos o orgulho da nossa esquerda? No trabalhismo nacionalista dos anos 1930-50? Ele não caberia lá... Somente a ditadura pôde dar sobrevida ao ideal da aventura comunista no Brasil: jogando-os de aviões, fuzilando-os no Araguaia. Até a maior estupidez ganha alguma honra tornada mártir. Não é diferente neste caso.

Queremos atravessar a rua? Inglaterra: para não sair do escopo da música, todo o grande momento do rock britânico é filho dos enfrentamentos políticos daquela sociedade: o punk como reação aos movimentos de financeirização da vida e privatização de partes do Estado na Era Thatcher; Beatles, Stones, Who... como filhos do Baby Boom após, simplesmente, a 2ª Guerra Mundial; uma geração a qual todo o Ocidente deve o ideal da Contra-Cultura.

E por que, justamente, as coisas são assim - desde a antiguidade clássica até hoje? Ora! Retomando a linha de pensamento de Nietzsche: a democracia produz algo, talvez aquilo o que ela produza de pior: muitos impotentes rancorosos, moralistas, censores da vida e da potência alheia; em suma, a igualdade anseia por um tirano que satisfaça suas frustrações. Uma vez o tirano colocado em seu posto, o cinismo de nossa Era chama de ditadura: o terreno mais fértil para a elevação da cultura, onde os fortes e os potentes são testados e, por assim dizer, provocados.

Que venha a "vox populi, vox dei"! Eu já estou enfastiado de esperar, contudo, ainda me divirto - uma diversão miserável, talvez - rindo do rebanho!

domingo, 17 de janeiro de 2016

Honestidade, a Minha Estupidez

Pois, "toda virtude tende a estupidez".

Agora à noite me atacava um sentimento terrível. Já havia me alertado Zaratustra: há sentimentos que querem assassinar o solitário. Saí de casa - e que isso sempre me signifique: sair à caça - em busca de alguma alegria e tive, não a que ansiava, mas, melhor ainda, uma inesperada: compreendi melhor um aforismo do "Além do Bem e do Mal":

"Quando se tem caráter, tem-se também sua experiência típica, que sempre retorna" [Nietzsche, Capítulo IV, "Máximas e Interlúdios", 70.]

Pois bem: saía a caça - me questionava sobre o problema do eterno retorno: seria, como defendia Deleuze, o eterno retorno do diferente; ou, como defendem outros - e é textualmente mais explícito em Nietzsche -, o eterno retorno do mesmo?

Quando eu, com aquilo que tenho demais humano, vagava por aí, dentre os meus pensamentos, descendo a avenida Araucárias, talvez até acima da velocidade preconizada pela lei para esta via na minha bicicleta - o meu motor de um único cavalo... -, lembrei-me daquele aforismo: era justamente ali, naquele momento, que eu tinha a minha experiência típica - reescrevendo a tradução, eu talvez acrescentaria: "quando se é honesto quanto ao próprio caráter...". Lembrei-me no mesmo momento de um certo evento - em absoluto, muito pouco memorável - da minha infância e que, na estrutura, se repetia: a minha disposição fisiológica compelia meus afetos para apontarem para a mesma direção de vinte anos atrás - ó, que divino sentimento que me recupera da morte!

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A: Vieste até aqui - de bicicleta?
JB: Ora, e de que outra forma eu viria? Eu comigo tenho meus próprios pensamentos que a ninguém mais cabem - seriam no todo e no fundo mesmo indizíveis; saibas apenas que meu orgulho é um tanto maior que a minha vaidade e, no fim das contas, de que outro modo eu disfarçaria-me ante este mortais - eu, que sou um deus? 

A: Quanta presunção! O que por ventura faria de ti um imortal? 

JB: Para ser honesto, uma ofensa à sua inveja: a minha obra - meus genes que se perpetuarão; minha arte que será lembrada através dos séculos como brilho áureo deste tempo de miséria da cultura!

A: Por que ainda perguntei-te?! Era melhor guardar comigo o meu asco para contigo!

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Portanto, de volta ao problema - e, acrescento, é um problema que tem seu tempo: em determinadas condições subjetivas, psicológicas e fisiológicas ambas as interpretações valem. Tanto 1) o eterno retorno do diferente - vislumbrando um tempo de condições favoráveis à experiência, à tentação daquilo que é diferente - que desafia nossa resposta afetiva mais tradicional - e, como radicais, tanto eu quanto Deleuze, talvez para lá é que nos forçamos, quase sempre; 2) quanto o eterno retorno do mesmo, quando, na análise das condições da experiência empírica, sentimos que não vale a pena colocar em risco o nosso orgulho - não procurar na rua, dentre as sujeiras do mercado público, aquilo de que a nossa economia doméstica já está abastecida. Ou, em outra fórmula, já elaborada por aqui: zelar pela abundância sem errar pelo excesso.

[Redescobri, também - a partir, novamente, de uma outra experiência típica minha - que eu gosto mesmo é de desafiar os campos dominantes de um acorde na elaboração da melodia. Quase sempre junto uma quarta ou segunda ou sexta nota à um acorde que, por si próprio, foge do campo harmônico do tom da canção de que faz parte: encontrei aí, hoje, o meu refrão.]

Tenho tudo daquilo que preciso em casa: internet, meu violão e diversos gêneros alimentícios. Todo o mais seria excesso. Não preciso satisfazer aquele sentimento que queria me matar: eu mesmo cravo fundo nele o meu punhal! Não preciso - nem devo - buscar o fetiche da mercadoria ou a reificação das relações sociais ali, onde eles se oferecem, dentre o rebanho! Hoje, encontrei o eterno retorno de mim mesmo: faço o que precisar ser feito sozinho - o que me faltar aqui, que se complete com o meu orgulho.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ABM - Aforismo 269

Talvez seja leviano de minha parte trazer para o facebook algo tão grave... contudo, sou mesmo leviano desde a nascença e quero compartilhar aqui um excerto de um aforismo da última parte do "Além do Bem e do Mal" (Capítulo IX, "O Que é Nobre?") que ajuda a compreender - uma máscara, uma carapuça que a tantos serve!? - algumas manifestações da loucura, de Nietzsche a Belchior, o rapaz latino-americano sem dinheiro no banco. Um sugestivo aforismo 269: 

[Onde houver "JB" entre colchetes sou eu mesmo falando dentre o aforismo.]

"[...] É compreensível que eles precisamente sejam alvo, por parte da mulher - que é clarividente do mundo do sofrer e também ansiosa de ajudar e salvar, infelizmente muito além de suas forças -, dessas erupções de ilimitada e devotadíssima compaixão, que a multidão, sobretudo a multidão que venera, não entende e acumula de interpretações curiosas e autocomplacentes. Essa compaixão normalmente se ilude a respeito de sua força; a mulher quer acreditar que o amor tudo pode [JB: Lembram de "Eros e Psiquê"? É esse o mito grego, ao menos na versão de Apuleio, que deixa subentendido que o amor - o amor de EROS E PSIQUÊ, uma intensa paixão - tudo supera...] - eis aí propriamente a sua fé. Oh, o conhecedor do coração percebe quão pobre, desamparado, presunçoso, estúpido, canhestro, destruidor mais que salvador é inclusive o melhor e mais profundo amor! [JB: Aqui fala Nietzsche com suas "verdades", suas frustrações... sejamos indolentes para com ele! Ele merece.] - É possível que na santa fábula e disfarce da vida de Jesus esteja oculto o mais doloroso caso de martírio do conhecimento sobre o amor: o martírio do coração mais inocente e desejoso, que nenhum amor humano havia satisfeito, que exigia amor, ser amado e nada além, com dureza, com delírio, com terríveis acessos contra os que amor lhe negavam; a história de um pobre insaciado e insaciável no amor, que teve de inventar o inferno para povoá-lo dos que não queriam amá-lo - e que, conhecendo enfim o amor dos humanos, teve de inventar um Deus que é inteiramente amor, inteiramente capacidade de amar - que se compadece do amor humano, tão mísero, tão insciente! Quem sente deste modo, quem possui tal saber a respeito do amor - procura a morte. Mas por que se entregar a reflexões assim tão dolorosas? Supondo que não se tenha de fazê-lo. -"

"Goiânia Antiga"

O que seria da humanidade sem os seres humanos de sensibilidade superior? Um incontornável desgosto, deveras - e não o que é: um devir. Não fosse a atração da pessoa por esse belo Flamboyant florido não teríamos um registro casual da Goiânia da década de 1960. Aliás, a cada foto nova dessa página, Goiânia Antiga, sou atacado por uma irremediável vontade de pular 20 anos para trás - ai, pudera!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Incipit Tragoedia

Ó, espelho meu... quanto deste prateado que furtivamente brota em meus belos, belíssimos cabelos não é pai e filho das minhas mais elevadas esperanças? Eu mesmo sendo o espírito santo encarnado.
Eu poderia ter me apaixonado por uma santa; uma nobre sem-graça; por uma vida estável e um deplorável bem estar - Mas nunca tive esse azar!

Acabei de voltar do Hades. Perdi a conta - já tantas vezes! Os Campos Elísios nunca se me apresentaram tão floridos como hoje, deveras - e o mergulho no Lete... inominável. Pudera - ai, que presente dos deuses! - esquecer-me de minha vida inteira até aqui e começar tudo de novo. Descobrir tudo de novo. Ah, aquilo que eu já sei - que nunca secasse a fonte que me renova sempre o prazer de saber! Ai, Enkidu que vem da floresta enternecido pelo conhecimento do homem - ai, Enkidu em mim! -, me siga até onde for a minha tragédia, me siga até onde for a tua força, me sirva da tua bondade - eu mesmo, que começo cada dia com uma maldade! -, enche dela a minha justiça!

Que assombroso júbilo estar na minha pele hoje... quem o suportaria senão eu mesmo?! 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Paráfrase III

M: E agora, como recompensa, aceita uma pequena verdade. Sou suficientemente velha para te dizer. Sufoca-a, tapa-lhe a boca, porque do contrário grita alto demais...

H: Venha a tua verdade, mulher!

M: Vais ter com radfems? Não te esqueças do açoite!

domingo, 10 de janeiro de 2016

CI - Aforismo 34

Meu "Crepúsculo dos Ídolos" (1888) está marcado no aforismo que transcrevo a seguir. Ainda não li o livro todo, folheei-o displicentemente há alguns meses e guardei esse aforismo pela ferocidade da crítica que ele apresenta. 

Penso ser inegável que hoje assistimos à ruína de praticamente tudo aquilo que foi associado um dia à esquerda do espectro político - os comunistas, o PT, os sindicatos, os direitos trabalhistas... No caso do Brasil, especificamente, há uma fragmentação a cada dia maior, tanto consequência como causa de uma desmobilização, uma incapacidade de organização política, etc. De minha parte, penso que aquele pessoal do Rio que mobiliza a categoria dos garis a partir de uma leitura deleuziana é a única - senão a última... - organização que mantém fôlego, para usar uma expressão famosa: que "é um devir".
Eu já escrevi algo neste mesmo sentido - no caso, sobre esse "feminismo de facebook", asqueroso, desprezível - o "Feminismo Pára-Que-Tá-Feio!"

Aqui o Nietzsche toma o caso dos anarquistas - ele recorrentemente cita os "camaradas anarquistas", desde o "Aurora" (1880) - mas o seu escopo nos serve para analisar aquele fenômeno supracitado. É interessante que ele, provavelmente, foi o primeiro pensador a colocar o cristianismo próximo dos ideais socialistas (tendo como gradações do mesmo espírito os "democratas", "socialistas" e "anarquistas") - contra a própria "vontade consciente", contra os próprios discursos destes. 

O belo do pensamento de Nietzsche é que ele é inapreensível, incontrolável, não se prende a esquemas sistemáticos... Há quem o chame precursor do nazismo - a calúnia da qual ele mais se desgostaria, deveras... ser associado à germanidade funtamentalista-cristã! Ele, contudo, se coloca como "anti-socialista" convicto e toda a sua crítica ao socialismo e seus pares - para mim, a do "espírito democrático" no "Além do Bem e do Mal" é o mais assustador insight dele e, ainda assim e por isso mesmo, genial - é um deleite! Esse aforismo é bem pontual, há ainda muitos outros que observam outras questões...

"34. Cristão e anarquista - Quando o anarquista [JB: ou a feminista, o governista/petista, etc. - ou mesmo para o outro lado da ferradura: fascista, golpista, etc.], como porta-voz dos estratos declinantes da sociedade, exige, com bela indignação, "direito", "justiça", "direitos iguais", ele apenas está sob a pressão da sua incultura, que não pode compreender por que sofre realmente - de que é pobre, de vida... Um instinto causal é poderoso dentro dele: alguém deve ser culpado por ele se encontrar mal... E a "bela indignação" mesma lhe faz bem, para todo pobre-diabo é um prazer xingar - dá uma pequena embriaguez de poder. Já o lamento, a queixa, pode dar à vida um encanto que a torne suportável: há uma sutil dose de vingança em toda queixa, censuramos nosso estado ruim, às vezes até nossa ruindade, àqueles que estão em outra condição, como sendo uma injustiça, um privilégio ilícito. "Se eu sou canaille, você também deve ser": com esta lógica se faz revolução. - Em caso nenhum a queixa vale algo: ela se origina da fraqueza. Se atribuímos nosso estado ruim a outros ou a nós mesmos - a primeira coisa faz o socialista, a segunda o cristão, por exemplo - é algo que não faz diferença. O que há em comum, digamos também o que há de indigno nisso, é o fato de que alguém deve ser culpado por se sofrer - em suma, de que o sofredor prescreve o mel da vingança para seu sofrimento. Os objetos dessa necessidade de vingança, como uma necessidade de prazer, são causas de ocasião: em toda parte o sofredor acha ocasiões para mitigar sua pequena vingança - se for cristão, repito, encontra-as em si mesmo... O cristão e o anarquista - os dois são decadénts. Mas, também quando o cristão condena, denigre e enlameia o mundo, ele o faz pelo mesmo instinto a partir do qual o trabalhador socialista condena, denigre e enlameia a sociedade: mesmo o "Juízo Final" é ainda o doce consolo da vingança - a revolução que o trabalhador socialista também aguarda, apenas imaginada para mais adiante... E o próprio "além" - para que um além, se não fosse um meio de denegrir o aquém?..."

Decifrando-te ou "Um Pouco da Arte da Guerra"

A: Vejo nos seus olhos: por que te causo desgosto? Por que razão, sem nem olhar para a minha direção, mira tuas flechas para mim? Teria a minha vaidade ferido a sua

B: Ora, meu caro, por acaso gastaria minhas flechas contigo? O que te apavora é a possibilidade de pisoteio pelas minhas botas. Deixe-me te contar um segredo - e espero que seja indulgente para com a minha honestidade: a qualidade daquele que me ataca não deixa de revelar algo acerca da minha própria qualidade. Não te atacaria, pois, aquele a quem ataco gostaria de ver tenso, à minha altura - aí eu teria um bom combate! -, e até onde suportaria uma sangria. Mas tu, me parece, não aguentas, não resistirias à minha força - derrubaria-te de um só golpe! E, se me desgosto de ti, é porque me irritei com teu jogo... 

A: Pra ser honesto, dói meu pescoço, cansa minha vista ter que olhar pra você... tão alto e tão longe!

B: Pois é daqui que te vejo e a visão do teu jogo me enoja: crês que poderias ter chegado lá. Mas ficaste com medo de que, quando lá chegasse, não tivesses ninguém para testemunhar tua "glória". Ficou logo atormentado pelo receio de ficar só - parou, então, no meio do caminho para desfilar suas plumas coloridas. Bem impressionado ficara o rebanho, deveras! Mas, sinto te dizer, ele logo se distraí com outras coisas, pois, as retinas do rebanho não enxergam tantas cores... 

A: Lá? Que tu sabes sobre chegar lá?

B: De minha parte, quando lá cheguei pela primeira vez, olhei para trás e me emburreci: "Porque vós não conseguis chegar até aqui?! Falta-vos coragem? Estou bem próximo do abismo, deveras, e, nas vezes em que nele me precipitei, tive que ter força para me sustentar na sua beira e retomar à terra firme - portanto, recomendo-lhes logo livrar-se de todo o peso supérfluo, supondo que queiram vir até aqui... - quando quis me lançar em sua direção, tive que usar minhas asas. Ah, vejo logo que não conseguem voar... Seria preciso antes desatrofiar as vossas, ou, mais ainda, criarem asas para vós próprios, meus caros!" De lá fui e voltei várias vezes, aguardando ansioso por alguma companhia - eu e mim estamos muito compenetrados numa conversa - precisamos de um amigo! Venham até mim, amigos, - eu vos espero! - mas que não venham rastejando!

A: E asas, não tenho?

B: Ainda precisaria passar pelo casulo, deveras. Mas, longe de mim - inseto asqueroso! É este o teu jogo que enoja: quer parecer que poderia, um dia, voar - disfarçando tu mesmo ser um inseto - quer parecer que voaria tão alto quanto gostaria a tua vaidade. Com efeito, como poderia eu - uma ave de rapina - te atacar? Já te honro um tanto decifrando-te.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Decifra-me

1. A interpretação - de textos e contextos - é uma arte e, como toda arte, é preciso ter nascido para ela.

2. Função psico-fisiológica dos mitos: superar impasses simbólicos para libertar fluxos afetivos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Minha Grande Saúde

Quando estive apiay, embebi de teclados (cordas sintéticas) os arranjos, elaborei melodias sob dissonâncias menores e desacelerei a velocidade das minhas canções - fossem elas de qualquer espécie de música romântica, tanto "amor romântico" como qualquer outro "ideal romântico". Assim queria a minha depressão curar-se a si mesma. Quando estive iñaron, a minha fúria à flor da pele me compelia a uma estética abrasiva: distorções em tudo - vozes e guitarras, substituindo o baixo pelo som sintético do lead sawtooth, ainda mais abrasivo que o próprio baixo sob efeito de distorção. Assim exigia a minha extrema irritabilidade - um golpe para afastar os afetados e restabelecer-se o equilíbrio dos meus próprios afetos. Quando estive na minha mais elevada altura: um céu não exatamente desanuviado... estava acima das nuvens! - atmosfera rarefeita, ar seco... tudo como anseia a minha grande saúde. Ali, minhas canções eram rápidas e fortes, contudo, leves. O júbilo experimentado com a existência era refletido na minha alegria em desenhar linhas de baixo que determinavam o chão por sobre o qual a minha guitarra e minha voz dançavam. Distorções, sim, nas guitarras (sempre mais de uma) e na voz - assim queria a minha força ser reconhecida. Que nome dariam os Ka'apor para tal estado de espírito? Ou os gregos? Que nome daria eu mesmo para aquilo que criei para além de bem e mal, para além de mim? Oxalá que eu sempre volte para : a minha montanha! Aqui o ar é mais puro! Minhas vias aéreas mais livres, meu pulmão tem mais fôlego; a vida é sempre mais alegre!

"Conhece-te a ti mesmo - torna-te quem tu és"

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Adeus, 2015!

Se 2015 fosse uma pessoa de quem eu pudesse me despedir, consciencioso de um incontornável - adeus..:

Por ti, nutrirei eterna gratidão, minha querida. Poucas pessoas que passaram pela minha vida me fariam olhar para trás com tanta ternura. E, deveras, se houvesse um espelho retrovisor na locomotiva que nos leva ao futuro, eu não poderia evitar de nele mirar o olhar, com um coração tão pleno de anseio como faço agora. Tu, que vieste sob o signo de Marte, o deus da guerra; vieste para reiterar: o que não me mata - me fortalece; tu, que vieste me desprezando - como só os grandes amantes sabem desprezar - intumesce meu espírito com mel de floradas silvestres, suavemente cortante como só a vida pode fazer. Como diria Zaratustra, o que sabe do amor aquele que não sabe desprezar o objeto amado? O grande amor tem seus caprichos, assim, ele guarda o seu valor.

Por vezes, teu silêncio dilacerara meus ouvidos - eu gritava abrigando-o do frio e me protegendo, me afastando, acautelando, de um terrível, horrorífico, auto-desprezo. Pois bem: aprendi a ouvir a beleza da sua melodia com os olhos - a mais bela canção que pude vislumbrar até aqui. Não à toa a mais bela melodia reconhecida pela humanidade foi elaborada por Beethoven já surdo: precisamos perder os sentidos para superá-los. Uma parábola.

Em janeiro, a saliva quente do teu mar lambia minhas pernas na Paraíba. Zaratustra era a rocha em que eu me assentava - não fosse isso, não seria eu tragado para as suas profundezas, sem volta? Tive fôlego, aprendi a fitar o abismo - ele fugiu de medo quando o fiz olhar-se a si no espelho... 

Voltei para a Paraíba novamente, desta vez sem a Aurora, e, na volta, lia "Da Morte Livre" no momento exato em que entrávamos numa turbulência... meu arrepio deu testemunho: ainda não era a hora certa de morrer.

Em fevereiro, cortei o açúcar do café: foi o estratagema encontrado para expurgar-me o amargo de mim mesmo. Daí em diante, ao longo do ano, forcei uma interessantíssima mudança no meu metabolismo: aboli o açúcar; troquei gradativamente o chocolate por frutas; o mel passou a fazer parte da minha dieta diária. O chocolate, quando não muito refinado, de alta qualidade, me enfastia no primeiro toque da língua. Fora isso, um silêncio terrível: era a minha hora mais silenciosa falando no meu ouvido. E um terrível remorso me puxando para baixo... Recolhimento era mais que recomendado - era necessário.

Já em março, o céu desanuviado abria cintilante para mim: sob o seu azul eu vislumbrara a beleza da tragédia - como ela nasceu? Essa resposta, mais do que no livro, tive que encontrar, novamente, em mim mesmo.

Abril: a ilusão da tua belíssima aparência me cativara; uma musa, uma sereia estirada na beira do Paranoá, soprou com sua força apolínea uma canção para o meu peito. Que alegria! A primeira do ano, deveras. A mudança do tempo, como era de se esperar, me presenteou com uma leve sinusite, que durou menos de uma semana - nada que se compare com a minha claudicante saúde em 2013 e 2014.

Em maio, vieste para cobrir a noite com um luminoso cobertor de estrelas - os dias não tão frios quanto o usual: já aí se anunciava um ano mais quente que o comum. Assumi a função de Coordenador Pedagógico - para a qual havia sido "escolhido" no início do ano, na mais absoluta falta de interesse do resto do grupo de participar do caos administrativo, pedagógico e financeiro que constitui a instituição de ensino de que faço parte. Minha vaidade, meu orgulho, minha coragem, minha força, meu espírito: foram todos colocados em teste a partir de então - nada mais humano. Humano demais! Fui lançado numa fornalha, forjado contra uma estrela de diamante - resistiria? Até então, eu não sabia.

Como as aves brincam no céu azul-claro de junho - como numa dança alegre -, também eu o fizera: descobri alegremente, com desenvoltura inesperada, que eu também sabia dançar com os meus problemas, meus trabalhos, meus deveres! Que sabedoria alegre! Mas, nem por isso, me permitia descuido - contudo, para o meu gosto, certas coisas deveriam parecer difíceis de serem feitas - apesar de serem fáceis; outras, exatamente o contrário.

Confesso que neste exato momento sou incapaz de me recordar do meu aniversário. Julho foi cansativo - era o fim dos trabalhos que naquele momento me sobrecarregavam. Também aí, como em várias dimensões da vida, passamos pelas 3 transformações: eu era um camelo. De repente, vi a mim mesmo num deserto; saltou de mim um rugido: me tornara um leão - ali, quanto à dimensão do meu ofício. Uma nova aurora viria a raiar a partir de então: e entre, eu e meu grupo de afinidade, começou a germinar uma semente de um projeto; e intervenções pontuais que viriam a ser planejadas e executadas nos meses seguintes, atestando a nossa competência, a nossa habilidade. No recesso, no entanto, em poucos dias dou as lapidadas finais nas letras e arranjos e gravo o álbum deste ano, o poderoso, furioso, "Iñaron" - que presta um testemunho poético muito mais sutil das experiências deste ano até aqui.

Fora do trabalho, tudo permanecia árido, mais árido que o clima venturiventiano em agosto: eu estava mesmo num deserto. Apenas agora, por fins de dezembro, posso dizer ter encontrado alguma umidade - um oásis, talvez. Neste deserto, apenas eu e minha sombra... ai, "as histórias que posso contar!"

Em determinados desertos as noites são gélidas, a despeito do calor do dia. Era assim também comigo: setembro, apesar de insuportavelmente quente, dentro de mim era gelado. Também neste mês dormi uma noite fora de casa: mas o frio não me abandonava... Decidi, num lance egoísta, fazer uma viagem para um lugar mais quente: juntei meus dias de folga que sobravam e, na primeira quinzena de outubro, passei quatro noites no paraíso - Pipa, Rio Grande do Norte. As impressões deste momento estão por aqui.

Por pura sorte, uma semana antes de viajar consegui encontrar um novo lugar para morar e saí do Guará - para nunca mais voltar...? Que apenas na memória eu guarde algo daquele tempo tenebroso - e vim tomar posse do meu palácio - um palácio itinerante, deveras! - em Águas Claras.

Aí então reconheci, me dei conta de que a felicidade é, hoje e desde sempre, uma coisa egoísta: toda a moralidade que prega que "a alegria deve ser compartilhada", no fundo, me parece ser um sussurro desesperado de quem, fundamentalmente, não crê na sua felicidade - pois essa gente precisa "crer" em algo, sempre - e arrasta para ela algumas tristes testemunhas, que se veem forçadas a reconhecer firma de tal alegria - uma cartorialização dos afetos. Como disse o Andarilho, "a melhor coisa me seria repugnante, se alguém tivesse que partilhá-la comigo".

Com o coração mais quente - já havia voltado a chover em Brasília... - retornei do Paraíso para, mais um vez dentre tantas, descer ao Hades... Já era novembro. Lá, tive que fechar os olhos novamente para beijar a minha Medusa. Bom que fechei os olhos: pude sentir o seu gosto de pedra na boca (os sentidos devem ser ignorados e postos em anteparo contra outros, sempre meio desconfiados - "coração atado, espírito livre" é a fórmula). Esta foi a segunda noite fora de casa do ano. Não suportaria fazer isso de novo, contudo, valeu a experiência - de que outra forma eu poderia firmar-me como sou? Afirmar o que eu quero? Confesso: minha cama - a minha concha. Não vou adornar pescoços lânguidos; não vou lançar-me aos porcos! E se à minha volta há um visco asqueroso: que melhor forma haveria de manter-vos à distância, afetados desprezíveis?!
 
A Medusa fugiu, cheia de ódio, quando lancei contra ela um espelhinho inocente... Mal sabe ela que vivo eu numa casa espelhada - cada parede daqui dá testemunho sobre quem lhe fita! Ela não suportaria adentrar a minha casa, deveras; também, pois, já não é bem-vinda. "Quem aqui entra me dá um honra, quem não entra me dá prazer", está ali na minha porta.

Finalmente, chegamos em dezembro, e não posso evitar de olhar para trás novamente movido por amor, minha querida. Há exatamente um ano eu terminara o "Além de Mim", ainda muito impactado pelo "Ecce Homo", e lancei para mim uma meta: mergulhar na obra de Nietzsche no ano seguinte, de modo que eu pudesse, nadando neste mar, fortalecer as musculaturas do meu espírito - sabendo dos desafios contra os quais eu seria lançado pelo meu remorso, frustração e todos os outros atavismos do espírito do rebanho... E, vejam só: já não posso dizer de qualquer outro ano de minha vida o que eu diria de 2015: tudo o que vivi aqui redime meu passado e justifica meu futuro; tudo o que fiz este ano - devo estar soando repetitivo a esta altura... - o fiz por amor à vida, amor ao meu destino, de onde brota um deliberado orgulho. E, "tudo o que se faz por amor, está para além do bem e do mal".

Já vai alta a madrugada... não precisa dizer palavra! Adeus, meu amor! Como disse em outra oportunidade, sobre teu túmulo lancei sementes de flores e frutos - eu te honrei, da forma como pude. Nos veremos novamente - pintados nos quadros das paredes da memória... guarda contigo teu último beijo que eu guardo comigo meu afago. Será melhor assim!

Seja bem-vindo, estranho 2016! Traga o que trouxer: eu o honro - com minhas cinzas, minhas chamas, meu carvão, meu calor; com tudo o que sou, ardendo por amor.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Paráfrase II

Participo desses grupos de Whatsapp e dessas confraternizações com os olhos bem abertos: essas pessoas não perdoam que eu não inveje suas pequenas virtudes.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Solstício de Verão

Adentro aos portais do verão, a estação da luz; atravesso o solstício que se acena nos próximos giros dos ponteiros do relógio, pela 26ª vez nesta vida. Amanhã será o dia mais longo do ano. Depomos contra a vida, ofendemos o sentido da Terra, apreendendo maldade nesta metáfora. Contudo, quê posso fazer a essa altura da noite - arrancar-me o coração do peito? Num descuido, eu o faria, talvez - como já fizera uma ou outra vez. Amarrá-lo com fios de aço, apertar suas artérias e veias de modo que sangre o menos possível - também já o fiz muitas vezes, faço-o com ainda mais força agora, deveras. Depois de hoje, amanhã será o dia mais longo do ano... E já tive tantos outros - e ainda mais cedo este ano...
 
Há pessoas que por uma ventura da existência, um acaso fisiológico, um metabolismo do espírito, vivem muito em muito pouco tempo; têm experiências diversas, enchendo todos os bolsos do dia, reiteradamente. Assemelham-se me a musaranhos, ou qualquer outro mamífero primitivo, que têm de viver correndo atrás de alimento o dia inteiro, todos os dias, e se colocam sempre em risco por uma fatia de vida, uma migalha, e mais outra; agora, daqui a pouco; aqui e ali, "na casa de quem? a que horas?"; etc. E, vivendo muito irrefletidamente, aprendem muito pouco, pois, têm pouco tempo para si mesmas. O que, em todo o caso, não é nem bom nem mau, necessariamente. Simplesmente é assim.
 
Eu, que sou um predador, tenho porte - tamanho e força - a natureza, em tempos longínquos, já foi mais generosa para o meu tipo: hoje, preciso dispor de intercaladas longas estações - de caça e de hibernação. Aquilo que eu tomo para mim, destroço, dilacero; dela faço minha carne, meus ossos, minha tez - digiro longamente, absorvendo tudo o quanto me for necessário. Eu, um urso polar - tão branco e frio quanto o gelo; tão glacial que, desconfio, queimo quem me tocar inadvertidamente -, desperto no verão para caçar o meu alimento. Eu, que há dois verões decidi que ainda valia a pena continuar vivo, adentro essa madrugada não sem salivar sedento pelo meu banquete; não miro as estrelas - que, contra todo o senso comum, giram orquestradamente no espaço ao meu redor - sem sangue nos olhos. Lascivo? Virulento? Talvez, provavelmente, melhor que seja assim.

Sepulto 2015 numa cova profunda, por sobre a qual lanço desde já sementes de flores e frutos deveras perfumados e nutritivos, no coração - aquela terra em que ninguém pisa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

"Coração Atado, Espírito Livre"

Há pouco ouvi uma música impecável do ponto de vista da produção; um funk(-rock?) carregado de teclados e sons sintéticos, algo que lembrava os anos 1980; uma variação rítmica impressionante para apenas quatro minutos, contra a qual a nenhum ser humano é dado evitar a sedução da sua cinestesia, colocando-se em movimento; já a havia ouvido antes num evento no CEF 14, mas não conhecia o seu nome: "Uptown Funk", de um músico judeu, britânico radicado em New York, Mark Ronson. A monocórdica linha do baixo e algo do seu estilo rítmico me lembrou "The Call Up", do Clash. Fui conferir the lyrics...

Como pude me permitir fazer uma referência supostamente tão elogiosa a tal canção, sendo que, do ponto de vista do conteúdo simbólico das letras, ela representa, talvez, o mais absoluto lixo produzido pela espécie humana? Pois, era eu imitando o raciocínio do rebanho. Mark Ronson: um playboy ocidental, judeu conservador - provavelmente a variação mais asquerosa da espécie humana por sobre a face dessa cansada Terra, que produz a assim chamada música pop - esse alimento para o espírito do rebanho... Nietzsche ficaria horrorizado: a crítica que ele faz ao espírito democrático - algo que hoje, envergonhados que nos tornamos, chamaríamos de "crítica da cultura de massa" - é assustadoramente certeira. O "povo" não consegue ir muito longe, atrapalhado que fica ao apoiar com os quatro membros no chão... não aprenderam a ficar de pé e correr - que pena!

A boa música - a música que é, ao mesmo tempo, atestado, testemunho e instrumento de elevação do espírito - deverá, sempre, ser a música que não entra nos ouvidos do rebanho. Eles teriam que tê-los destroçados, aprendendo a ouvi-la com os olhos...

Poucas vezes vi na vida uma mulher tão bonita. Absolutamente tudo nela era impecável; a natureza cuidou de superar a minha imaginação em todos os mínimos detalhes - com efeito, a cada novo olhar lançado, das mais diferentes perspectivas, maravilha-me com uma nova beleza descoberta. Todavia, quando fui aproximar-me do conteúdo social que conferia humanidade àquela sublime experiência estética... indescritível fora a minha frustração. 

Quem nunca passou por experiência semelhante? Comentando-a, o rebanho me diria: "Bastava ignorá-la nos aspectos mais asquerosos, fingir algum interesse nos seus vícios e pobrezas de espírito - pois, o nosso interesse é bem outro..."; "Não era preciso ter nenhuma espécie - ainda que fantasiosa - de comunhão de ideais, nossa atração por ela seria física, por ela bateria mais forte o nosso coração...". Assim me diria o cínico rebanho.

Também o faria quanto à música: "Basta-nos sentir a batida - feel the beat! -, ouvir a música com o coração..."; "Não podemos levar tudo tão à sério... é só música." - assim escorreriam das suas bocas, em meio a bile viscosa, as palavras do rebanho. Pois, os escravos, o rebanho, dissociados que são, são capazes de dissociar a vida; quebrantar a realidade e engolir cacos de vidro sem sangrar suas entranhas - eles os moem, deveras. Tomam das pessoas e das coisas apenas aquilo que lhes bastam - não sem um elevado grau de violência: pois eles se vingam de tudo aquilo que os obriga a dissociar; no fundo, os faz lembrar que eles mesmos, não fosse por sua dissociação psicológica, não suportariam a existência absolutamente desprezível a que estão condenados.

E não é uma canção perfeita um ideal tal qual a mulher perfeita?

Nós - os que, ao mirar a imperfeição, sabemos vislumbrar o conteúdo que a preencha (e este conteúdo é um vir-a-ser!); nós, os que somos por inteiro, não meras máquinas sob a égide de uma vontade externa, pois, não somos escravos, não comemos vidro, pelo contrário, devoramos integralmente um espelho - não queremos - não esperamos! - das mulheres, da música, da vida, enfim, algo que enfastie nossos sentidos, que faça salivar os cães selvagens da carruagem das nossas paixões, e faça com que o nosso coração se arraste para longe do nosso cérebro - trajetória ao fim da qual terminaremos esfolados, tanto nosso coração quanto nós mesmos, o espírito. Qualquer evento ou coisa que atente contra este princípio acende as tochas da nossa desconfiança - assim o quer o nosso espírito, que preconiza a liberdade ante a segurança. E é por isso mesmo que medimos milimetricamente o quanto soltar as nossas rédeas - afinal, quer aventura maior para o nosso orgulho, há desafio maior para a apreciação estética da vida na Terra do que remendar os cacos e criar beleza de um coração imperfeito?

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"Coração atado, espírito livre - Quando se amarra e se mantém preso o próprio coração, pode-se dar ao espírito muitas liberdades: já o disse uma vez. Mas não me acreditam, a menos que já o saibam."

"Uma vez tomada a decisão, fechar os ouvidos mesmo ao melhor argumento contrário: sinal do caráter forte. Portanto, uma ocasional vontade de estupidez."

"As grandes épocas da nossa vida são aquelas em que temos a coragem de rebatizar nosso lado mau de nosso lado melhor."

[Aforismos 87, 107 e 116, "Além do Bem e do Mal", capítulo 4º, "Máximas e Interlúdios", Nietzsche.]

domingo, 13 de dezembro de 2015

Para Um Discurso Convexo

 Comentário a respeito disso:

Não era justamente isso o que clamavam alguns que se dizem socialistas - o povo na rua, uma militância alegre - impossível não recordar também daquele adjetivo jocoso: "festiva" -, entusiasmada? Não é esse, precisamente, o povo brasileiro? Há alguma outra máscara que consiga cobrir a maior parte da horrenda face do Brasil: discurso vazio, sem muito compromisso com a verdade, e carnaval? 

No fundo, em que se difere, sei lá, de qualquer coisa que os grupelhos estudantis fazem? Bater tambor, com direito a frase de efeito e tudo o mais - "pisa ligeiro, pisa ligeiro...", ou aquele outro igualmente desprezível, "quem não pula é machista" -, não era a isso que acenávamos, já ali em 2010 (pra não ir muito longe)? 

Estão todos produzindo um discurso côncavo, cujo foco desde já se localiza dentro de si mesmo, só atinge os seus. Nada mais eficiente para o status quo da verdadeira política, a economia.

O rebanho, vejam só!, apenas se diferencia pelas cores. E haja matiz para cobrir um debate que já não existe, reduzido à cinzas!

No fim das contas, um único aspecto - alguém aí já lembrou - leva a política para essas manifestações: a presença ostensiva do aparelho repressor. Ali vemos a verdadeira política: quando a polícia entra em ação.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

1+1=1,2, no máximo 1,5

Um casal nem sempre - ou, melhor dizendo, quase nunca - representa uma soma de duas potências humanas. Nem tanto pela forma do casamento em si - se bem que, a uma distância certa, adequada a cada caso, qualquer relacionamento humano é saudável (penso na minha mãe... como nos faz bem 2 mil quilômetros de distância!) -, senão e sobretudo por uma questão de hábito e estilo de vida hegemônicos entre os indivíduos. Hábitos de vida ou de consumo - que diferença há aí, senão de uma linguagem hipócrita? A "lei" da conservação de energia - e o que na existência inteira exige mais energia que o aprimoramento do espírito? Se eu pudesse deixar um testemunho à humanidade seria: aprenda a ler, humanidade! - leva à adoção de hábitos letárgicos, ao consumo de tudo aquilo dotado de virtu dormitiva: o consumo da opinião fabricada - e há uma infinidade delas nas prateleiras da ideologia! -, de modos de vida pré-concebidos - "endivide-se: é o único caminho para a felicidade! Que importam a autonomia, a liberdade, a consciência, a força, a honra ou o orgulho de um intelecto vaidoso? Seja igual a todos, assim será mais fácil passar por entre as portilhas estreitas da vida!": assim falam os lobos para seduzir um rebanho de cordeiros. Que engordem para o meu banquete! Pensar no seu sangue e carne salgados já me leva a salivar. E que tenho eu com os lobos? Eles são meus cães!

Portanto: junte-se duas pessoas que - elas mesmas sendo a metade, ou ainda (bem!) menos, do que poderiam ser - e, tornando-se este o padrão, temos uma marcha, uma procissão de perder de vista, um espetáculo de mediocridade grassando por sobre a face da Terra. "Quando vi um santo cruzando com uma gansa a Terra me pareceu um sanatório", assim falou Zaratustra.

E bem deve residir aí, no anseio de gente-pela-metade por suas "caras-metades", uma preguiça e uma covardia jocosa, deveras.
Um indivíduo fatorial - 1! -? Um indivíduo elevado à ele mesmo - 1¹ -? Uma "roda que gira sobre si"? Apenas posso encontrar uma equivalência para tais questões no espelho. Todavia, uma imagem, uma projeção da luz, sobretudo, daquilo que ainda não existe.

Quis encontrar alguns pares para boas conversas... melhor sorte na próxima! 

"Fala o desapontado - "Eu esperava por um eco, e ouvi apenas elogio. -" [Aforismo 99, "Além do Bem e do Mal", Nietzsche]

O Momento do Salto

20 páginas de "Além do Bem e Do Mal" e eu já posso garantir não ser o mesmo ser humano de antes... A virtu anti-dormitiva do livro me provoca o instinto de conhecer; a tentação travessa de mergulhar no livro me faz folheá-lo displicentemente, até encontrar o capítulo quarto - "Máximas e Interlúdios" - uma gruta de onde brotam a mais límpida água e as mais aromáticas flores de toda a natureza; um recanto perfeito pelo descanso, contemplação e júbilo diante da vida inteira...

Com frequência encontro eu mesmo, nas minhas caminhadas noturnas por infames bosques da vida, flores que fariam a humanidade superior inteira enternecer, decerto. Afinal, "também o concubinato foi corrompido - pelo casamento." [ABM, aforismo 123.] E, não por menos, contra elas pesa uma mesquinharia moral que as crucifica. Os hodiernos - que querem fazer parecer a si mesmos ante os outros, antes a nós, os superiores, importantes por sua renúncia diante da vida; querem parecer fortes por castrar sua coragem e, ainda assim, fazem pose de valentes (há toda espécie de recurso retórico para tal: "Eu respeito a escolha das pessoas, mas não posso concordar com tal coisa [o "homossexualismo", por exemplo]", "Tudo é racismo. Daqui a pouco vai ser crime ser branco", "Ser bom é fácil, o difícil é ser justo", e toda uma infinidade de "etc.s'") - com sua pele fina que disfarça mal o aspecto asqueroso das suas entranhas, querem angariar apoios entre os seus pares - e eles servem para outra coisa que não aglutinar o rebanho, gado desprovido de conteúdo, ovelhas de si mesmos? "Os apartados do rebanho devem sofrer", assim reza o orgulho do gado.

E aqui cabe a observação: não nos tornemos semelhantes aos monstros que combatemos [ABM, aforismo 146] - para tal, em determinado momento, devemos desviar o olhar do abismo... não seria este, precisamente, o momento do salto?

A doutrina da defesa do livre-arbítrio - uma paz entre os instintos, uma equação de valor positivo dos afetos - não era mesmo uma máscara para a ignorância de si mesmo? "Conhece-te a ti mesmo" quer dizer "deixe de ser interessante para ti mesmo"? 

Aqui vai um microscópico testemunho de filiação ao partido dos que afirmam ser esta a inesgotável obra nietzscheana; o mais elevado atestado de estilo e gosto que a humanidade testemunhou até aqui.

domingo, 6 de dezembro de 2015

In Vino Veritas

Minha melhor companhia? Eu mesmo.

Minha maior amante? Minha sombra.

Meu melhor amigo? Gaúcho com 10% de grau alcoólico.

Meu maior orgulho? Minhas superações.

Minha maior vaidade? Ser quem eu sou.

Minha maior honra? Meu ofício. 

Minha obra viva? Minha filha.

Minha obra póstuma? Minha arte.

Minha maior felicidade? Estar vivo para conhecer. 

Minha maior tristeza? Ver de perto aquilo que é pequeno.

Meu templo? O silêncio.

Meu palácio? Minha solidão.

De Tanto Descer ao Hades Por Um Caminho Sombrio...

Ontem à noite findei a leitura do "Humano, Demasiado Humano II" - que me acompanhara desde setembro em algumas descidas ao Hades e outras visões intranquilas -, uma compilação de "Opiniões e Sentenças Diversas" (em outras traduções: "Miscelânea de Opiniões e Sentenças"), publicado em 1879; e "O Andarilho e Sua Sombra", publicado em 1880. Em 1886, Nietzsche, na reedição de suas obras anteriores, quando escreve novos prefácios - que são parte importante da leitura de tais obras desde então e para sempre -, adjunta os dois conjuntos de aforismos, que antes foram publicados como apêndices ao "Humano, Demasiado Humano", em uma única peça. 

O livro divide-se apenas entre as duas partes; dentro de cada uma o fluxo de temas diversos é a regra, apesar de ser possível identificar conjuntos de aforismos que tratam dos mesmos assuntos. Em "O.&S.D." há uma explícita continuação das ideias do livro anterior, "HDH". 

Algumas passagens que me foram memoráveis: os comentários acerca da música de Beethoven - aquele incrível exercício poético de vislumbrar um Beethoven ressuscitado, assombrado ao ouvir sua obra executada pelos mestres póstumos ("Os vivos têm razão. Tenham razão e me deixem voltar para baixo."); outros punhados de ideias e metáforas que acenavam ao Zaratustra e que viriam a ser utilizadas na sua constituição; dois aforismos referentes ao "Hades" - esse lugar sombrio da nossa própria psique - o "deixando no Hades" - particularmente assustador para mim naquele momento - tivesse eu mesmo lido-o dois ou três dias antes, não teria tentado levar à superfície um cadáver putrefeito que por lá encontrei, no fundo de mim mesmo... E disso não faço um arrependimento, uma penitência, pelo contrário, é apenas a constatação de um engano, algo que sujava a água do meu poço, e que logo foi remediado: bem o fiz e igualmente ao, levando-o à superfície, reconhecer sob a luz da consciência o aspecto asqueroso e terrível daquela figura, deixando-o descansar e apodrecer na margem do meu mar, fora das minhas águas - para onde o lancei com um só golpe - aqui fala o meu orgulho! -; e a "descida ao Hades" - aqui Nietzsche e eu compartilhamos do júbilo da existência que só pode vir a ser em nós mesmos com a visão do mais terrível que há na vida... para tal, é preciso ser forte e saber superar a visão de horror e a experiência da mais terrível e lancinante dor. Ah! Os vivos, os hodiernos... como parecem pálidos, ávidos de vida! Enquanto que, para mim, esse alemão morto há 115 anos parece tão inescapavelmente vivaz, uma inoculação contra a qual não há nada que a neutralize, uma injeção de vontade de afirmar a mim mesmo

Matei alguns carneiros - e mais - meu próprio sangue verti para poder superar essa fase. Chegamos então ao crepuscular "O Andarilho e Sua Sombra" (preciso disfarçar que foi daí que assimilei a forma para escrever o meu próprio diálogo com minha sombra? Todavia, é um expediente belíssimo e muito presente já nos textos da antiguidade clássica - de Platão ("A República") a Esquilo ("Prometeu Acorrentado"): todos os pelos do meu corpo se eriçaram com o diálogo da abertura entre o andarilho e a sombra... quem não experimentaria essa resposta fisiológica? Quem não tem espírito, deveras.

Daí me recordo agora das críticas à doutrina da abolição da propriedade - que Nietzsche identifica ser uma equívoca proposta política fruto da má interpretação da natureza humana (uma visão binária, dual, que identifica a oposição frontal entre "bem" e "mal", contra a qual a obra inteira de Nietzsche dá testemunho contrário). Para ele, não é necessário ou preciso que se acabe com a propriedade da terra produtiva, mas que não se permitam liberdades econômicas para produzir facilmente grandes fortunas (exemplo que ele mesmo dá: atividades financeiras) ou para não produzir absolutamente nada e viver na miséria absoluta - que gera revolta e violência - aqui fala uma razoável voz radicalmente social-democrata (e não me refiro à experiência histórica da social-democracia: a covardia encampada na política). Em que mundo vivemos hoje senão naquele exatamente o oposto desse? Impérios financeiros dominam basicamente todas as demais atividades econômicas por sobre toda a face da Terra, e uma crescente parte da humanidade experimenta na vida a pobreza mais absoluta... contra toda a magnífica técnica desenvolvida pela humanidade no seu caminho para a luz do conhecimento, a nossa pobreza de espírito depõe contra o nosso devir histórico.

Ah, os marxistas ortodoxos que, ouvindo a voz de Nietzsche, escutam a reação... estes canalhas que nem mesmo a areia do deserto deveria dar ouvidos!

Por fim, aquela belíssima mensagem de depuração da afecção em si mesmo, a busca da "boa vontade" na vida; o alegrar-se com tudo - tendo como pano de fundo a alegria com o conhecimento, proporcionado pelas mais diversas experiências. É a senha de ouro que liberta o homem das suas cadeias para, novamente, percorrer - mais ainda: desbravar - os mais luminosos caminhos que podem haver para a vida na Terra - percorrendo-o junto a sua sombra, a única testemunha possível da felicidade perene que daí advém.

Um sentido de gratidão não me escapa agora, que me lanço na trilogia final da obra Nietzscheana: "Além do Bem e do Mal" + "Genealogia da Moral" + "Crespúsculo dos Ídolos". Ao fim deste ano - que foi o mais pesado da minha vida inteira até aqui - não posso deixar de agradecer à vida por me permitir escalar essa montanha - e haja fôlego e paciência! - e, por fim, ter nas minhas retinas a mais luminosa e tranquila visão do existir. Recobrei a alegria comigo mesmo e com a vida. Atravesso o portal deste dezembro mais forte e seguro do que quando entrei no portal do janeiro passado - e quem sabe para onde o próximo janeiro poderá me levar?! Forte e tranquilo para lá quero seguir; cheio de amor, desde sempre, amor à vida e amor ao meu destino.



"A sombra: De tudo que disseste, nada me agradou mais do que uma promessa: vocês querem ser novamente bons vizinhos das coisas mais próximas. Isso será bom também para nós, pobres sombras. Pois, admite-o, até agora vocês tiveram prazer em nos caluniar. 

O andarilho: Caluniar? Mas por que vocês nunca se defenderam? Tinham nossos ouvidos bem próximos, afinal. 

A sombra: Achamos que estávamos demasiado próximas para poder falar de nós mesmas. 

O andarilho: Delicadas, muito delicadas! Ah, vocês, sombras, são "pessoas melhores" do que nós, já percebo.

A sombra: No entanto, vocês nos chamam de "importunas" - a nós, que ao menos uma coisa sabemos fazer: calar e esperar - um inglês não faz isso melhor. É verdade, com muita frequência nos vêem seguindo os homens, mas não como suas servas. Quando o homem evita a luz, nós evitamos o homem: pelo menos até aí vai a nossa liberdade. 

O andarilho: Ah, a luz se esquiva bem mais frequentemente do homem, e então vocês também o deixam.

A sombra: Com frequência me foi doloroso te deixar: para mim, que sou ávida de saber, há muita coisa que permanece obscura no homem, pois não posso estar sempre com ele. Ao preço do conhecimento cabal do homem, de bom grado seria eu tua escrava. 

O andarilho: Mas sabes tu, sei eu por acaso, se com isso não passarias repentinamente de escrava a senhora? Ou continuarias escrava, mas, desprezando teu senhor, levarias uma vida de nojo e humilhação? Fiquemos os dois satisfeitos com a liberdade que te coube - a ti e a mim! Pois a visão de um cativo me estragaria as maiores alegrias; a melhor coisa me seria repugnante, se alguém tivesse que partilhá-la comigo - não quero escravos ao meu redor. Por isso também não gosto do cão, o indolente parasita que agita a cauda, que apenas como servo dos homens se tornou "canino", e que eles costumam louvar como sendo fiel ao senhor, dizendo que o acompanha como sua...

A sombra: "Como sua sombra", é o que dizem. Talvez eu hoje te acompanhe já por tempo demais? Foi o dia mais longo, mas estamos quase no fim dele, tem paciência um pouco mais. A relva está úmida, estou tirintando.

O andarilho: Oh, já é tempo de nos separarmos? E eu tinha que te magoar ainda; vi que ficaste mais sombria.

A sombra: Eu enrubesci, na cor que me é possível. Ocorreu-me que muitas vezes fiquei a teus pés como um cão, e que tu, então - 

O andarilho: Eu não poderia rapidamente fazer algo para te agradar? Não tens nenhum desejo?

A sombra: Nenhum, exceto, talvez, o que o "cão" filosófico desejou do grande Alexandre: sai um pouco da frente do sol, está muito frio para mim. 

O andarilho: Que devo fazer? 

A sombra: Anda sob esses pinheiros e olha para as montanhas em torno; o sol se põe. 

O andarilho: Onde estás? Onde estás?"

[Nietzsche, "O Andarilho e Sua Sombra", diálogo final, 1880]

domingo, 22 de novembro de 2015

Castrados

Uma ex-aluna compartilhou no facebook uma postagem de uma página que faz proselitismo da castidade nos namoros adolescentes ("Namoro com propósito" é o nome da página) em que havia uma citação atribuída a Caio Fernando Abreu.

A citação é a seguinte: 

"Insistir naquilo que já não existe é como calçar um sapato que não te cabe mais: machuca, causa bolhas, chega à carne viva e sangra. Então é melhor ficar descalça… deixar livre o coração." [Caio Fernando Abreu]

Achei tão curioso uma página "cristã", que faz essa propaganda de castração das pulsões dos adolescentes, se utilizar de uma mensagem profundamente anti-cristã... tal qual o próprio Cristo crucificado: "Meu deus, por que me abandonaste?", que deveria ser lida: "Meu ídolo, por que você não existe mais? Nós o matamos? Ou você nunca existiu de verdade? Por que minha ilusão não se sustenta mais?"

Aí está uma coisa que me tem chamado a atenção recentemente: como o senso comum cristão ignora solenemente essa passagem da crucificação, tomando Jesus por um fraco qualquer, que tremeu quando lhe atravessaram os pregos. Quando, pelo contrário, nessa interpretação deveras travessa, é precisamente este o grande momento do mítico Cristo.

A mensagem da citação supostamente de Caio F. Abreu e do Cristo crucificado é, fundamentalmente, a mesma: descalce o sapato apertado, desça da cruz na qual te pregaram; aquilo no que insistíamos já não existe mais (ou nos apercebemos nunca ter existido...); não há, em absoluto, nenhuma razão no sofrimento; apesar de, sobretudo, a "dor profunda enobrecer". Lembrando novamente Nietzsche, para quem Jesus fora "o mais nobre dos judeus".

Ora, não é justamente nisso em que está assentado o edifício histórico do cristianismo: inverter a lógica por trás de tudo o que pregava aquele que morreu pregado? Nas entrelinhas, nos dizem há dois mil anos: "Pequemos um pouquinho de vez quando! De qualquer forma, o domingo de missa, o culto evangélico, ou qualquer bobagem como penitência nos irá redimir e limpar nossa consciência!"

De minha parte, nunca frequentei essas naves escuras, essas máquinas de lavar consciência, esses "túmulos e monumentos fúnebres de deus" a que chamam de Igreja; sempre me pareceu um espetáculo horroroso de profunda hipocrisia. Pobre daquele ingênuo que morreu pregado! Tivesse ouvido Zaratustra e ficado no deserto, teria aprendido a rir e abjurado da sua doutrina.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Última Hora do Dia

Por que será que, para onde quer que eu olhe, enxergo honestidade apenas na última hora do dia - aquela imediatamente antes da meia-noite? Por que reconheço mais humanidade nos gritos, suspiros e gargalhadas trôpegas pelos becos do que nos sóbrios gracejos, lamúrias e frustrações mal disfarçadas do horário comercial? 

Por que será que tratamos a honestidade como tratamos a música; o sexo; a atividade de aprimoramento físico; a leitura como aprimoramento espiritual; a diversão que eleva, mas não distrai; a alegria que justifica, mas não legitima a dor: como aquilo que merece apenas o que sobrar do nosso tempo de não-labor? Ó, com quanto cansaço não impregnamos tudo aquilo que redime a existência! Ainda assim - tal qual a arte no aforismo 170 do "Andarilho e Sua Sombra" - esses elementos da vida não nos abandonam à nossa própria miséria: o que é um traço denotando sua nobreza. 

Na falta de metais mais nobres, tampas de cerveja tornam-se as insígnias da nossa liberdade - "in vino veritas": há alguma verdade aí; uma verdade ébria, deveras. 

Talvez no dia em que não mais necessitemos perceber a escassez para mensurar o valor daquilo que é bom, então, tudo isso que hoje escondemos do olhar terrível do ídolo labor, que exige sempre, como ofertas e sacrifícios, a produtividade, aparecerá para a luz do sol de um formoso meio-dia, ocupando o lugar de destaque na nossa rotina, habitando uma sombra generosa da árvore da vida. Para tanto, tudo aquilo que é excesso e supérfluo na nossa própria natureza deverá amadurecer, ser fruído e, quando necessário, apodrecer para lançar à terra aquilo que por ele é escondido, que gera o novo: a semente.
Que esse dia luminoso dure apenas uma fração do relógio despótico - que seja! Que é o relógio para medir o tempo daquilo que importa na vida?! - mas que o seu júbilo, que é o mais elevado, possa redimir também a inteira existência presente.

sábado, 14 de novembro de 2015

"Das Coisas Primeiras e Últimas"

Quando o ocidente recolher seus tentáculos econômicos que sugam os recursos do mundo; quando recolhidas também forem as suas garras que movem uma política externa criadora de guerras e pequenos terrores incessantes por toda a face da Terra; quando o presidente Hollande deixar de sujar (ainda mais) o nome do socialismo com seus movimentos políticos; ainda assim estou certo de que não viria aqui prestar reverência às cores símbolo de um Estado Nacional imperialista - como o é a França. Compreendo os contornos deste gesto de empatia - colocar as cores na foto de perfil - como sendo um impasse para a ação política consciente. Ainda assim louvável - poderia ser pior. Mas proponho algumas reflexões:

Monumentos de instituições no mundo todo iluminados de azul, branco e vermelho, como fosse um arranjo orquestrado... Não posso; é muito descarado, não me permito seduzir pela ideia da solidariedade casual aí. Ofende a minha inteligência.

Desde quando os americanos derrubaram aquelas suas torres em 2001 temos vivido reiterados espetáculos de mobilização afetiva da humanidade inteira - desde aquela transmissão ao vivo de 2001 até hoje, com essas cores da bandeira da França. Para tanto, é deveras prático que os meios de informação do ocidente sejam monopólios econômicos gananciosos...

É tudo muito bonito demais. É muito emocionante, demasiado humano - como pode parecer errado? Eu que devo estar sendo muito paranoico.

Nós temos aqui embaixo do nosso nariz a mais monumental tragédia sócioambiental da história dessa terra triste a que chamaram de Brasil - onde foi parar o direito à informação?! Que seria de nós sem a internet...

Algumas pessoas morreram de forma violenta: que lástima. Qual a origem - que se sustente factualmente - do evento que resultou nessas mortes? Quem vai me dar garantias de que foram meia dúzia de lunáticos movidos por preconceito religioso? A imprensa? Essa mesma que, no caso do Brasil, omite vergonhosamente as informações de outras tão urgentes questões?! Quem vai me garantir que não foram agentes do serviço secreto francês que, maquiados, assemelharam-se a caricaturas do fanatismo religioso islâmico, dando fundamentos para a declaração de Guerra oficialmente emitida pela França contra o Estado Islâmico/ISIS? O QUE É O ESTADO ISLÂMICO/ISIS? De onde veio? Como brota uma organização militar paraestatal no meio do oriente médio - virtualmente ocupado pelos americanos desde 2003 - assim, do nada, e aterroriza o seu próprio povo e o europeu?

A Rússia vem bombardeando há alguns dias alvos do ISIS na Síria. Para mim, esse atentado na França é um fantástico pretexto para a OTAN disputar a carcaça do ISIS com a Rússia - e ao povo Sírio desejo a sorte de que não se afogue na saliva de tantos predadores!

Reiterando: O que é preciso ser feito para que pessoas no mundo todo deixem de morrer de forma violenta - não natural? Por que razão algumas mortes mobilizam mais do que outras? Essas são as primeiras e últimas questões que me mobilizam até aqui.