sábado, 18 de junho de 2016

Crespúsculo de Algo

Uma gente deveria ter sua inteligência medida pela complexidade rítmica da sua música — ocupando os europeus/ocidentais, com a vulgaridade do seu 4x4, a mais baixa posição na hierarquia dos povos.

Não seria possível arte sem alguma espécie de embriaguez — arte: aquelas fantasias apolíneas/dionisíacas que imprimem sentido à vida —; sem música, a vida seria um erro, portanto: sem alguma espécie de embriaguez dos sentidos, que acerto haveria na vida humana sobre a Terra?

Que nos embriaguemos de arte!

terça-feira, 14 de junho de 2016

Por Saúde

Por uma questão de saúde, de grande saúde: nunca abrir mão de uma vingança. Muitas pequenas vinganças são sinal de doença: uma grande vingança, sinal de saúde.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Da Natureza do Cristo

Muito pouco se compreende sobre o cristianismo, menos ainda sobre o Cristo — esse "idiota", "santo anarquista", "o mais nobre dos judeus", "hebreu que morreu jovem demais" [Nietzsche]. Ele é rememorado há 1700 anos, aproximadamente, como exemplo do destino daqueles que se lançam às causas radicais, de tresvaloração dos valores: a cruz. Os canalhas se escondem com suas moedas de prata; os covardes choram à sua sombra; os que encarnam seu espírito dizem: "Que me importa a ira de um deus que não sou eu? Ou mesmo a cruz da estúpida justiça humana?! Eu sou o caminho, a verdade e a vida! Que me venham claudicantes louvar a boa-nova, que me importa?! Que me sigam — quem for capaz!" — e assim se fez, talvez, o mais elevado símbolo do ateísmo que já houve por sobre a terra, o caminho da segunda inocência, a refutação de todo universal "Grande-Outro".

Onde os cristãos — o Império Romano e a Igreja — esconderam Dionísio — cortina de fumaça ante a constelação de arquétipos da mitologia dos gregos: no pobre Jesus Cristo. "Meu Deus, por que me abandonaste?" quer dizer: nunca se atreva à travessia do Cristo, pois, dela se afasta o divino — o que é a mentira contada pelo cristianismo desde sempre, apesar de nunca virar verdade.

Questão que se nos impõe: como ir além, como superar a morte na cruz? Ele se envergonhava do seu ódio aos hipócritas; da sua inveja dos poderosos, da sua maldade... e, por isso, ofereceu ao açoite à sua outra face, entregou-se à via-crucis aos olhos dos "bons e dos justos" e inventou um diabo expiatório num deserto muito real... tivesse ele chegado a idade de Zaratustra e saberia que era necessário cultivar a coragem para não vos envergonhardes do ódio e da inveja, pois, "a boa guerra santifica toda a causa!".

Como acessar o Dionísio? A partir do sangue do Cristo. Como superar a vergonha do seu ódio e da sua inveja? Comendo da carne do Cristo. Não à toa os Sátiros eram metade humanos, metade bodes — cantando os ditirambos em ode à Dionísio. 

"Fui compreendido? Dionísio contra o crucificado." Será preciso morrer e nascer de novo? Quantas vezes mais? Será necessário... o eterno retorno da cruz?

"I ascend to heaven again, Oh, how lucky I am!
I descend with the sense of the Earth, Oh, I rebirth!"

terça-feira, 10 de maio de 2016

Escarro

Como suportar a visão daquilo que causa asco? Um pouco de veneno para começar o dia, uma arte que distraia... "onde não for possível amar deve-se passar ao largo", e Zaratustra estava certo!
Como vós, asquerosos, poderíeis suportar a visão da perfeição, da boa constituição? Meu escarro: vos dou este presente! Meu escarro: assim, vós tendes algo de mim para se enojar! Meu escarro: cuidai-vos de não empacarem na minha frente, contra o vento! O vento que enverga a mais alta árvore: o vento que faz cantar o farfalhar das folhas; como suportá-lo, senão com raízes profundas, que descem em direção ao abismo da escuridão; como, senão, sem o mal?

Palácios Do Espírito

Meu orgulho não habita em imóveis financiados a perder de vista — toda economia financeira é uma prisão; todo financiamento uma jaula; todo crédito uma algema — nos empreendimentos da moda — toda moda é mau gosto —; nem mesmo em uma kit(sch)nete alugada — o aluguel é mais que uma praticidade: é uma afronta aos compromissos de uma economia burguesa, um despeito à propriedade, um desprezo pelos meus pares de classe — mau gosto encarnado é o concurseiro/servidor público! —, senão e sobretudo nos palácios mais elevados do espírito. A minha casa, bem já falei sobre isso aqui... —

terça-feira, 19 de abril de 2016

Frustrados do Bolsonaro

Em questões de psique e intelecto — de "espírito", em termos nietzscheanos — essa molecada que curte o Bolsonaro — um bobo-da-corte-militar, desprezível e desprezado, tido como uma excrescência desde sempre; agora apresentando uma circunspecta reverberação em bolsões de ressentidos das mais novas gerações — tem a profundidade de um — cuspe [não espero, não quero perdão pelo trocadilho!]. 

Atacam a diversidade sexual e o feminismo para afirmarem, ao menos perante si mesmos e seus pares, a sua (ó, tão frágil!) virilidade. 

Não é despropositado que o próprio deputado tenha dedicado seu voto ao mais notório torturador da ditadura — lembrando o teor inimaginável de violência sexual de toda a tortura, de modo a destruir por absoluto a personalidade do torturado pela sua base, a "libido", a vontade de vida.

Vou me furtar de sujar meu texto com os relatos podres das torturas de teor sexual, muito embora recomende a leitura a todos para ampliar o vosso conhecimento sobre o tema. Quem quiser que abra o capítulo 10 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, "Violência sexual, violência de gênero e violência contra crianças e adolescentes".

Voltando à corja do deputado inominável: são impotentes, não podem satisfazer suas vontades porque têm vergonha delas (não aceitam suas próprias tendências homossexuais; ou ainda sua monstruosidade incontornável, que, com seu aroma podre e aspecto de flor carnívora, espanta qualquer colorido ser alado que possa seduzir para a vida com seu voo sensual... ah, virtudes apolíneas femininas!) e, contudo, torturam sua vergonha até ela, desfigurada, fingir ser, se passar por orgulho para ser exibida ante o mundo...

Ao menos Nietzsche era honesto na sua (contraditória, como tudo nele o é) misoginia — está lá no "Além do Bem e do Mal": ele sabia que eram apenas as suas verdades —, talvez, o exemplo, caso comum de ressentimento por um terrível amor não correspondido.

E até que algumas das suas provocações são deveras divertidas [pelo menos para mim...], principalmente tendo em mente aquela espécie asquerosa de mulher machista, que chama a si mesma de "feminista radical" (já o disse uma vez: chama raiz às pontas dos galhos):

"Como voa para longe o tédio quando um homem nos faz o assédio!".
[1ª das 7 máximas de uma mulher, "Além do Bem e Do Mal"]

Ou, com alguma liberdade, em outros termos:

"Como voa para longe o "frustrado" quando bato palmas para o Bolsonaro!"

quarta-feira, 30 de março de 2016

Comentário Sobre o Impedimento da Presidente (Mar/16)

Esse lance de canalhice tão despudorado do PMDB não me parece que irá passar impunemente nem à esquerda, das marchas do dia 31; nem à direita, das marchas amarelas com patinhos de borracha (que me perdoem a simplificação... ao fim e ao cabo, me parecem demasiado semelhantes ambos os pólos dessa falsa polarização de, fundamentalmente, ressentidos). Estão ofendendo a inteligência. Nem a maior manifestação da estupidez política poderia se sentir confortável nesse momento... ou ainda estou sendo ingênuo? 

Pode ser uma janela que a história abre para sepultar esse cadáver, o PMDB. Não tão simples quanto parece, pois, objetivamente, o PMDB é o maior partido do Brasil, com o maior número de filiados - a figura do "despolitizado", "desinteressado", que age em prol do "interesse do povo brasileiro", que não é nem de direita nem de esquerda, que é "apartidário" (o PMDB é o partido, em stricto sensu, de toda massa de apartidários) é a máscara do PMDB - observemos seus líderes: são ligados às oligarquias agrárias, mas não apenas; são os grandes operadores históricos, isso sim, das máquinas burocráticas do Estado brasileiro (desnecessário afirmar a conexão genealógica, o parentesco mesmo entre estes últimos dois grupos); em termos simples: é a manifestação da burocracia corrupta e absolutamente desprovida de lógica encarnada na gestão dos serviços públicos e empresas estatais do Brasil, todo ele. Eduardo Cunha, um desprezível rato que há décadas parasitando a burocracia do Rio, chegou, mafioso de esquina que é e sempre foi, à presidência da Câmara dos Deputados, é o melhor exemplo que temos no momento. 

Desconfio que todo nosso edifício burocrático, todo nosso sistema legal cartorial, regimes jurídicos (privilégios de classe e de determinadas categorias) e et coetera., ruiriam junto com a ruína do PMDB; com a ruína da lógica do PMDBismo - modelo de financiamento político, presidencialismo de coalisão, etc. Uma pista que aponta para o apoio da OAB ao impedimento da Presidente - sem mesmo a definição ainda de um crime de responsabilidade... 

Do lado do PT - que, tivesse honra (e já nos deu infindáveis provas que não a tem), renunciaria e pediria eleições antecipadas ao TSE; tivesse orgulho do tiro-pela-culatra que é a Dilma, faria um arranjo de governo petista puro-sangue com os seus escudeiros (eles existem?) até o último trâmite do impeachment - há quem queira ainda - e haja fé! - manter as alianças, suportar as "correlações de forças" até o limite do irreal; há quem queira um PT ainda mais canalha e servil para que, encenando mudanças, tudo permaneça como está. Pois, temem (temer: é este o verbo que, para tragédia da nação, anda mobilizando...) que o arranjo sob sua tutela se dobre ainda mais "à direita". Como disse, é pura questão de fé: nada tem menos lastro na realidade, uma vez que o governo já enviou quarta-feira ao congresso proposta indecente de destruição do serviço público, rechaçado até pela CUT (Projeto de Lei Complementar (PLP) 257/2016); apesar de ser a mais antiga mentira contada pelo petismo à classe trabalhadora, e de correr mesmo o risco de se tornar verdade - não pelo fato de o PT ter algo de "esquerda"; sobretudo porque não durará no governo tempo o suficiente para destruir o que ainda há de direitos trabalhistas. Quarta-feira: que falta de timing! Que falta de honra, que falta de orgulho! 

[O PT - e uso "PT" quase sempre de modo abrangente - padece do preconceito ou age de má-fé: para eles, o problema do serviço público são os "direitos demais" dos trabalhadores. Ora, que venham ser professores no meu lugar!]

No fim das contas, tudo será como é e sempre foi: o PT fará o que puder para manter sob a sua tutela a destruição das condições econômicas da classe trabalhadora do Brasil, a adulação do capital financeiro e do latifúndio. 

As questões do impedimento ou não da Dilma, para mim, já não importam tanto... Que venha o governo golpista pós-Dilma. Tudo ficará ainda mais divertido!

segunda-feira, 21 de março de 2016

Um Recanto do Bosque

Naquele mesmo inferninho sujo de sempre, eles se despem com a lentidão que o hábito traz e, enquanto ele toca-a suavemente, deslizando as costas da mão no seu rosto; seu olhar por todo seu corpo, ele diz:

- Como a natureza pode ter sido tão generosa com um ser humano..! 

Ela responde, envaidecida: 

- Obrigada, gato!

Ele pensa consigo: 

"Você é mesmo muito linda e meus anseios, desejos e sonhos quase caberiam todos no seu corpo, despendesse eu um tanto de esforço mas eu estava falando de mim!"
Inferninho sujo? Que estou eu dizendo?! Estava falando de um recanto do bosque!

terça-feira, 15 de março de 2016

"Amor": Máscara Mortuária

Em determinadas épocas de nossas vidas, em determinados contextos, tudo aquilo a que chamamos de amor adquire o aspecto de uma máscara mortuária: uma arte feita com o mais nobre material dentre os quais não faltam muitas cores - mas, que, na verdade, esconde um cadáver. Seria preciso crer na vida eterna - mais ainda, querer conservar aquilo que, feito com paixão de artista, por dentro apodrece embebido em essências - para querer amor de tal espécie por perto. Melhor seria vê-lo num museu! A fênix, que prefere morrer para nascer de novo a viver eternamente, perece dentre a sua mirra. Assim é meu amor: uma fênix - meu amor por mim.

Há tantos enganos correntes acerca da antiguidade, com efeito, acerca da humanidade superior... Os grandes imperadores, os mais nobres dentre eles, um Alexandre da Macedônia, por exemplo, eles perguntariam: "Monogamia, o que é isso?" e se apavorariam e se enojariam da descrição desse contrato entre o rebanho de ressentidos, dessa celebração mútua da escravidão ser elevada à condição de ideal - coisa que, por sorte do acaso, por enquanto ainda não está em franco desuso. "Ciúme, o que seria?", questionariam a si mesmos e se prostrariam e rangeriam os dentes contra aquela visão asquerosa que ofende o seu bom gosto, pois, para eles - para nós - o que poderíamos chamar de "ciúme" é um teatro, um ritual simbólico para denotar o nosso poder, a nossa propriedade e é sempre um charme, ou seja, uma potência de afetos alegres, nunca uma cobrança, uma ameaça violenta encharcada em afetos tristes.

É provável que a existência dos haréns de cortesãs dos imperadores não fossem devido à sua lascívia descontrolada - pelo contrário! Minha tese é a de que seu gosto era tão apurado, tão refinado, que nas noites mais exigentes seu apetite não se abriria mesmo no mais completo dos banquetes; seu olfato não se agradaria mesmo no mais repleto jardim; e mesmo as suas cortesãs talvez carregassem alguma má-consciência quando a corte que lhe faziam não era bem sucedida. Como bem dissera alguém por aí: a parte hipossuficiente de uma relação erótica é a do seduzido. Com efeito, um ser que se basta a si mesmo, hipersuficiente de si e para si - como se agradar com qualquer ludibriar dos sentidos, como se permitir arrastar por cães selvagens..?

"E quanto as imperatrizes, como suportavam a ideia de habitar o mesmo palácio que as cortesãs?" - Assim se embasbaca o rebanho. A mulher superior é aquela que plena de si, pois que plena dos afetos da humanidade superior, tem conteúdo e referencial próprio quanto a ser e estar no mundo, é também uma artista e uma filósofa e, mais ainda, domina as artes do bem viver - da inocente persuasão de uma Psiquê (o que difere e diverge frontalmente da sedução de uma Afrodite ou de uma Medusa), não sabe o que é ciúme ou o ódio, não compreende o que por aqui, por hoje, se chama de amor, pois, aquela entrega entre dois espíritos apaixonados, aquele compromisso com a elevação de si mesmo e do outro, aquela obediente servidão de boa vontade... - essa é a virtude da nobreza: o bem servir -, como dar outro nome a tudo isso que não amor? Desnecessário recordar Zaratustra: a virtude do escravo é que é a revolta... Deveras, ainda não vim a ter com uma única mulher superior na vida. Devo estar impregnado com o cheiro do rebanho, logo, não as condeno por se esquivarem de mim - supondo que elas realmente existam...

Recentemente tivemos um crime passional que decerto imprimiu um alto relevo na comunidade da Universidade de Brasília, minha alma mater... um impotente qualquer - qualquer? Não, dá pior espécie: cheio de orgulho - que ceifou a vida de uma jovem por, no fim das contas e em uma única palavra: ressentimento. Pouca coisa pode ser mais exemplar, por extremado, daquilo que eu venho comentando sobre o rebanho de ressentidos, a sua irremediável impotência diante da vida, que cria monstros, neste caso, quanto aos relacionamentos de intimidade afetiva-erótica. Não à toa somos provavelmente uma das gerações mais afetivamente frustradas que já pisou por sobre a Terra.

Uma última palavra: há dentre os hodiernos quem não goste do termo "crime passional", pois, simplórios, julgam que o "passional" está atrelado a amor - são moralistas da linguagem, nada mais. Não devem ter passado perto de Espinosa. Logo eles, ou elas, esperneando "pára-que-tá-feio!" ou "apenas-melhore!" ou "todo-homem-é-um-estuprador-em-potencial!", enfim, que tanto se mobilizam por paixões tristes!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Impotentes de Esquerda

Há um aforismo no "Além do Bem e do Mal" interessantíssimo para analisar - por analogia - aquilo que, com algum desgosto, ainda chamamos de esquerda do espectro político hoje: 

 "Não o seu amor ao próximo, mas a impotência do seu amor ao próximo é que impede os cristãos de hoje de nos - queimar" [104] 

Os cristãos - o poder de características cristãs enraizado na estrutura das sociedades -, por séculos atacados pelas ondas seculares, com o advento da modernidade - em que a obrigação da cristandade tornou-se uma ofensa indefensável - não mudaram de "opinião" acerca de si mesmos, mas, deveras, têm certa vergonha dessa opinião e não mais agem com tanta truculência e estupidez para defendê-la. 

O que é a esquerda hoje? São meia-dúzia de estúpidos que, não fosse a vergonha da tragédia que experimentaram no século XX; não fosse o rídiculo fim da União Soviética - cujas empresas públicas foram vendidas a preço de banana para grupos corporativos ocidentais, em parceria com o capital russo, dos burocratas -, ainda nos fuzilariam - a nós, os espíritos livres, questionadores, que não pensam igual e que, ainda mais, se recusam a pensar igual - em praça pública, cheios de um estúpido orgulho. 

Ah, quantas questões Nietzsche antecipara há 130 anos! Como diz o próprio tradutor no posfácio, é um livro inesgotável.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Um Pouco Daquilo Que Se Chama Amor

Tu não me lês, não por mau gosto, mas por uma incapacidade fisiológica: tudo o que sou sempre foi-te indigesto e, justamente, pois, incompreensível. Quanto a mim, apenas como adorno da tua experiência estética te interessava: sem isto a que tu chamaste de "amor", o mundo, incontornavelmente, te pareceria uma triste rocha pendurada no espaço - uma calúnia contra a Terra! É por isso que ele, este teu amor, sempre me pareceu um tanto desesperado, uma angústia mal encaminhada - pobre de ti se perdestes o teu objeto de afeição! Chame de amor, ou do que mais quiser apelidar, contudo aquilo sempre será: tua vingança contra a vida pela tua pobreza dela.

De minha parte, justamente por pressentir, encarnar e afirmar a prescindência de um adorno para a minha experiência estética, de uma fantasia para um carnaval - pois, a minha carne sempre teve valor, e a vida na Terra, uma dádiva... - e eu sempre tive a mim mesmo por completo, com as cores que me dotaram a natureza - que eu pude ter por ti o que um dia chamei de "amor": uma fuga de mim mesmo, uma curiosidade teimosa, uma vontade de brincar, de correr riscos, uma vontade de poder negar a mim mesmo no outro. E foi assim que ambos sucumbimos.

E, daqui em diante, quem não puder vislumbrar no primeiro instante a que grau de humanidade pertenço, tem para mim pouco valor. E quem não puder perscrutar a minha máscara e se maravilhar e querer brincar - eu nunca poderia - amar!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

No Mercado Público da Vida

Hoje, observando Aurora numa loja, admirada com brinquedos para bebês, alguns dos quais ela mesma já teve, tive uma epifania: ela, que já não é uma recém-nascida, senão, uma criança que se prepara para despedir-se da primeira infância, tomou aqueles brinquedos nas mãos com um pathos - longing, em inglês, na falta de expressão mais precisa no momento - de quem superou uma dificuldade - todo bom brinquedo deve apresentar uma dificuldade à criança, adequado a cada fase do desenvolvimento do intelecto - e olhava para ele admirada com a sua própria força e inteligência, de descobrir o que faz certo botão, "o que acontece se eu apertar aqui?", de perceber padrões: "esse brinquedo eu não conheço, mas se parece com aquele que conheço: devo apertar algo colorido aqui para ouvir um barulho divertido", a alegria de perceber cores e sons: estímulos aos sentidos, etc.; um proto-orgulho de conhecer, assim dizendo. 

Ora, não é isso o que fazemos todos, no mercado-público da vida? Às vezes nós mesmos, talvez para sempre e em cada época da vida, não tomamos nas mãos algo conhecido; não damos um passo atrás para recuperar um pouco do nosso orgulho, talvez estimular a nossa coragem a seguir em frente: "veja só, eu mesmo, fui capaz de superar tal desafio, que me apavorara, e o resultado disso - surpresa! - me alegrou! Vamos fazer de novo?! Então vamos!"?

Para o eterno-retorno: amor-fati.

Kairós

1. A hora certa de parar de beber I: quando prescindimos de álcool para chorar.

2. A hora certa de parar de beber II: quando a intoxicação não mais aflorar a percepção dos sentidos, pelo contrário, paralisando nosso espírito.

3. A hora certa de mudar de endereço: quando nossa residência não é mais o nosso lar.

4. A hora certa de mudar de ambiente de trabalho: quando nosso asco e desgosto ante a podridão e mediocridade alheia são irremediáveis, incontornáveis.

5. A hora certa de mudar de máscara: quando nos assemelhamos, nos afeiçoamos a ela. 

6. A hora da morte certa: quando findada e emoldurada em segurança a minha obra; morte "que vem quando eu quero". 

7. A hora da morte justa: quando a força dos nervos, músculos e ossos não mais sustentarem o peso do próprio corpo - ou, quando a força de um espírito não mais comandar nervos, músculos e ossos.

8. A hora certa de criar: quando a realidade que nos cerca, tal como ela se apresenta, já não é suficiente - é preciso uma obra de arte para superá-la, enfeitá-la. 

9. Quando não há canais para o fluxo dos afetos: é preciso providenciar um placebo

10. Quando não há uma terceira pessoa na conversa além de eu e mim mesmo: é necessário escrever - sintetizar a multitude de vozes dentro de um: não é isso escrever?

11. A hora certa de rir: primeiro, de si mesmo.

12. Quem me conhece profundamente deve ter fôlego; meu confidente, força para dividir o peso de um fardo; quem é meu par, minha simpatia; e quem me despreza, mau gosto.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Para Toda a Elevação da Cultura: Uma Ditadura

Devo dizer - a honestidade, a minha estupidez, me impede de proceder de modo diverso - que não discordo, fundamentalmente, de Nietzsche, primogênito que não viveu o século XX, todavia, pretendo atualizá-lo neste ponto: não é apenas alguma forma de escravidão uma precondição, como ele dissera em "Além do Bem e do Mal", para a elevação da cultura. Nós, os que temos um olhar privilegiado, daqui da adolescência do século XXI, devemos dizer: para toda a elevação da cultura é imprescindível uma ditadura

Quanto ao problema da escravidão: o que pode haver de louvável nos povos da África sequestrados para servir de instrumento barato para a acumulação primitiva na América é, justamente, a resistência e a luta. Tanto que é lembrado Zumbi, guerreiro que, por seu sentido de nobreza, não aceitava a condição da escravidão, e teve seus próprios escravos... O que o marxismo mais caricato não compreende: a escravidão não é apenas um fenômeno econômico, é, sobretudo, moral - psicológico. Da mesma forma, o que pode haver de louvável num rato assalariado que tem como perspectiva de vida, horizonte de planos de ação adquirir renda estável e contrair empréstimo bancário para comprar o seu imóvel próprio, gastar seu salário no shopping, nas coisas da moda, etc? Ora! Essa é a evolução tecno-política da escravidão! Já nem é dada aos Senhores a inconveniência de cuidar da casa e da comida do seu cativo: "Dêmos-lhes uma coisa chamada salário e eles que se virem!" 

Justamente, o primeiro assalariado a merecer honra é o grevista, por mais pueril que ele seja, e aquele que não aceita e não se sujeita à essas condições - sobre a porta desse o futuro pendurará guirlandas!
Portanto, reiterando: não apenas alguma forma de escravidão é necessária para o desenlace da teia da dialética do sentido histórico. Nós, os que temos um olhar privilegiado, daqui da adolescência do século XXI, devemos dizer: para toda a elevação da cultura é imprescindível uma ditadura

E para confirmá-lo nem é preciso sair de casa: veja-se o Brasil que dentre as décadas de 1960, 70 e 80 produziu suas mais elevadas formas de cultura em cinco séculos - teatro, cinema, literatura, poesia, música - um tanto antes, muito pouco, quase nada depois dessas três décadas - e que, hoje, celebrando trinta anos de democracia, é uma gigantesca fábrica de mediocridade, exportador de "commodities-da-cultura", i.e., lixo para embalar as noites estrangeiras - por isso mesmo não menos medíocres que as nossas. O que é a nossa cultura hoje? Nossa música? O que vem à tona: não é um refugo? Não é esse o sentido do gosto democrático: revirar o fundo do poço para que todos possam ter acesso ao que nele apodrece? 

Para não correr o risco de soar (ainda mais?) elitista, não vamos comentar sobre a profusão de funks das periferias urbanas: seria desleal - são moleques desprovidos dos meios da elevada cultura, em outras palavras, são escravos. O que mais me interessa é a pobreza estética que se identifica mais rapidamente com nossas camadas econômicas médias e altas: aquilo que se chama por convenção de "sertanejo", apesar de todo abuso da lógica, toda a violência contra a histórica da cultura caipira. É fato: parece-me que essa indústria cultural tem seus tentáculos nos nós, nos pólos da agroindústria, onde o grande capital nacional aufere e amplia seus lucros, na esteira da desindustrialização brasileira e na aposta do petismo em exportação de commodities e, dali, segue para os grandes centros urbanos a partir dos fluxos de trocas de valores inerentes ao urbano-rural, talvez ainda mais no caso brasileiro - aqui, não haveria urbano sem o rural (a industrialização de algumas sociedades suprimiu o rural dentro de seus limites, deslocando geograficamente suas necessidades de ativos agrários, por vezes ao vizinho, ora ao estrangeiro mais distante). Pois bem: existe, hoje por sobre a face da Terra, alguma experiência estética mais miserável? Algo que apequene ainda mais a vida do rebanho? Fica aqui registrado o meu desgosto.

Queremos mais? Façamos uma visita aos jardins dos nossos vizinhos: a Argentina, cuja música popular é representada por um Fito Páez (Um parênteses aqui: quem no Brasil é dessa estirpe? Precisaríamos fundir alguns de nossos melhores metais para atingir tal nobreza; um Renato Russo, talvez, se estivesse ainda vivo - que foi reconhecido desde os Paralamas do Sucesso à Caetano Veloso, portanto, pode até estar acima deles), teve seu período de produção intensa também durante o seu ciclo de ditadura. Desnecessário dizer, até os postes sabem, mas é sempre bom lembrar: na Argentina se lê muito - no Brasil não se lê. 

Deveras, deveríamos, todos os latino-americanos, elaborar um reconhecimento público de agradecimento à Washington: o que seríamos nós, pobres Estados semi-feudais, de baixa industrialização e, no caso brasileiro, sub-imperial, sem as nossas ditaduras? Onde enfiaríamos o orgulho da nossa esquerda? No trabalhismo nacionalista dos anos 1930-50? Ele não caberia lá... Somente a ditadura pôde dar sobrevida ao ideal da aventura comunista no Brasil: jogando-os de aviões, fuzilando-os no Araguaia. Até a maior estupidez ganha alguma honra tornada mártir. Não é diferente neste caso.

Queremos atravessar a rua? Inglaterra: para não sair do escopo da música, todo o grande momento do rock britânico é filho dos enfrentamentos políticos daquela sociedade: o punk como reação aos movimentos de financeirização da vida e privatização de partes do Estado na Era Thatcher; Beatles, Stones, Who... como filhos do Baby Boom após, simplesmente, a 2ª Guerra Mundial; uma geração a qual todo o Ocidente deve o ideal da Contra-Cultura.

E por que, justamente, as coisas são assim - desde a antiguidade clássica até hoje? Ora! Retomando a linha de pensamento de Nietzsche: a democracia produz algo, talvez aquilo o que ela produza de pior: muitos impotentes rancorosos, moralistas, censores da vida e da potência alheia; em suma, a igualdade anseia por um tirano que satisfaça suas frustrações. Uma vez o tirano colocado em seu posto, o cinismo de nossa Era chama de ditadura: o terreno mais fértil para a elevação da cultura, onde os fortes e os potentes são testados e, por assim dizer, provocados.

Que venha a "vox populi, vox dei"! Eu já estou enfastiado de esperar, contudo, ainda me divirto - uma diversão miserável, talvez - rindo do rebanho!

domingo, 17 de janeiro de 2016

Honestidade, a Minha Estupidez

Pois, "toda virtude tende a estupidez".

Agora à noite me atacava um sentimento terrível. Já havia me alertado Zaratustra: há sentimentos que querem assassinar o solitário. Saí de casa - e que isso sempre me signifique: sair à caça - em busca de alguma alegria e tive, não a que ansiava, mas, melhor ainda, uma inesperada: compreendi melhor um aforismo do "Além do Bem e do Mal":

"Quando se tem caráter, tem-se também sua experiência típica, que sempre retorna" [Nietzsche, Capítulo IV, "Máximas e Interlúdios", 70.]

Pois bem: saía a caça - me questionava sobre o problema do eterno retorno: seria, como defendia Deleuze, o eterno retorno do diferente; ou, como defendem outros - e é textualmente mais explícito em Nietzsche -, o eterno retorno do mesmo?

Quando eu, com aquilo que tenho demais humano, vagava por aí, dentre os meus pensamentos, descendo a avenida Araucárias, talvez até acima da velocidade preconizada pela lei para esta via na minha bicicleta - o meu motor de um único cavalo... -, lembrei-me daquele aforismo: era justamente ali, naquele momento, que eu tinha a minha experiência típica - reescrevendo a tradução, eu talvez acrescentaria: "quando se é honesto quanto ao próprio caráter...". Lembrei-me no mesmo momento de um certo evento - em absoluto, muito pouco memorável - da minha infância e que, na estrutura, se repetia: a minha disposição fisiológica compelia meus afetos para apontarem para a mesma direção de vinte anos atrás - ó, que divino sentimento que me recupera da morte!

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A: Vieste até aqui - de bicicleta?
JB: Ora, e de que outra forma eu viria? Eu comigo tenho meus próprios pensamentos que a ninguém mais cabem - seriam no todo e no fundo mesmo indizíveis; saibas apenas que meu orgulho é um tanto maior que a minha vaidade e, no fim das contas, de que outro modo eu disfarçaria-me ante este mortais - eu, que sou um deus? 

A: Quanta presunção! O que por ventura faria de ti um imortal? 

JB: Para ser honesto, uma ofensa à sua inveja: a minha obra - meus genes que se perpetuarão; minha arte que será lembrada através dos séculos como brilho áureo deste tempo de miséria da cultura!

A: Por que ainda perguntei-te?! Era melhor guardar comigo o meu asco para contigo!

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Portanto, de volta ao problema - e, acrescento, é um problema que tem seu tempo: em determinadas condições subjetivas, psicológicas e fisiológicas ambas as interpretações valem. Tanto 1) o eterno retorno do diferente - vislumbrando um tempo de condições favoráveis à experiência, à tentação daquilo que é diferente - que desafia nossa resposta afetiva mais tradicional - e, como radicais, tanto eu quanto Deleuze, talvez para lá é que nos forçamos, quase sempre; 2) quanto o eterno retorno do mesmo, quando, na análise das condições da experiência empírica, sentimos que não vale a pena colocar em risco o nosso orgulho - não procurar na rua, dentre as sujeiras do mercado público, aquilo de que a nossa economia doméstica já está abastecida. Ou, em outra fórmula, já elaborada por aqui: zelar pela abundância sem errar pelo excesso.

[Redescobri, também - a partir, novamente, de uma outra experiência típica minha - que eu gosto mesmo é de desafiar os campos dominantes de um acorde na elaboração da melodia. Quase sempre junto uma quarta ou segunda ou sexta nota à um acorde que, por si próprio, foge do campo harmônico do tom da canção de que faz parte: encontrei aí, hoje, o meu refrão.]

Tenho tudo daquilo que preciso em casa: internet, meu violão e diversos gêneros alimentícios. Todo o mais seria excesso. Não preciso satisfazer aquele sentimento que queria me matar: eu mesmo cravo fundo nele o meu punhal! Não preciso - nem devo - buscar o fetiche da mercadoria ou a reificação das relações sociais ali, onde eles se oferecem, dentre o rebanho! Hoje, encontrei o eterno retorno de mim mesmo: faço o que precisar ser feito sozinho - o que me faltar aqui, que se complete com o meu orgulho.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ABM - Aforismo 269

Talvez seja leviano de minha parte trazer para o facebook algo tão grave... contudo, sou mesmo leviano desde a nascença e quero compartilhar aqui um excerto de um aforismo da última parte do "Além do Bem e do Mal" (Capítulo IX, "O Que é Nobre?") que ajuda a compreender - uma máscara, uma carapuça que a tantos serve!? - algumas manifestações da loucura, de Nietzsche a Belchior, o rapaz latino-americano sem dinheiro no banco. Um sugestivo aforismo 269: 

[Onde houver "JB" entre colchetes sou eu mesmo falando dentre o aforismo.]

"[...] É compreensível que eles precisamente sejam alvo, por parte da mulher - que é clarividente do mundo do sofrer e também ansiosa de ajudar e salvar, infelizmente muito além de suas forças -, dessas erupções de ilimitada e devotadíssima compaixão, que a multidão, sobretudo a multidão que venera, não entende e acumula de interpretações curiosas e autocomplacentes. Essa compaixão normalmente se ilude a respeito de sua força; a mulher quer acreditar que o amor tudo pode [JB: Lembram de "Eros e Psiquê"? É esse o mito grego, ao menos na versão de Apuleio, que deixa subentendido que o amor - o amor de EROS E PSIQUÊ, uma intensa paixão - tudo supera...] - eis aí propriamente a sua fé. Oh, o conhecedor do coração percebe quão pobre, desamparado, presunçoso, estúpido, canhestro, destruidor mais que salvador é inclusive o melhor e mais profundo amor! [JB: Aqui fala Nietzsche com suas "verdades", suas frustrações... sejamos indolentes para com ele! Ele merece.] - É possível que na santa fábula e disfarce da vida de Jesus esteja oculto o mais doloroso caso de martírio do conhecimento sobre o amor: o martírio do coração mais inocente e desejoso, que nenhum amor humano havia satisfeito, que exigia amor, ser amado e nada além, com dureza, com delírio, com terríveis acessos contra os que amor lhe negavam; a história de um pobre insaciado e insaciável no amor, que teve de inventar o inferno para povoá-lo dos que não queriam amá-lo - e que, conhecendo enfim o amor dos humanos, teve de inventar um Deus que é inteiramente amor, inteiramente capacidade de amar - que se compadece do amor humano, tão mísero, tão insciente! Quem sente deste modo, quem possui tal saber a respeito do amor - procura a morte. Mas por que se entregar a reflexões assim tão dolorosas? Supondo que não se tenha de fazê-lo. -"

"Goiânia Antiga"

O que seria da humanidade sem os seres humanos de sensibilidade superior? Um incontornável desgosto, deveras - e não o que é: um devir. Não fosse a atração da pessoa por esse belo Flamboyant florido não teríamos um registro casual da Goiânia da década de 1960. Aliás, a cada foto nova dessa página, Goiânia Antiga, sou atacado por uma irremediável vontade de pular 20 anos para trás - ai, pudera!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Incipit Tragoedia

Ó, espelho meu... quanto deste prateado que furtivamente brota em meus belos, belíssimos cabelos não é pai e filho das minhas mais elevadas esperanças? Eu mesmo sendo o espírito santo encarnado.
Eu poderia ter me apaixonado por uma santa; uma nobre sem-graça; por uma vida estável e um deplorável bem estar - Mas nunca tive esse azar!

Acabei de voltar do Hades. Perdi a conta - já tantas vezes! Os Campos Elísios nunca se me apresentaram tão floridos como hoje, deveras - e o mergulho no Lete... inominável. Pudera - ai, que presente dos deuses! - esquecer-me de minha vida inteira até aqui e começar tudo de novo. Descobrir tudo de novo. Ah, aquilo que eu já sei - que nunca secasse a fonte que me renova sempre o prazer de saber! Ai, Enkidu que vem da floresta enternecido pelo conhecimento do homem - ai, Enkidu em mim! -, me siga até onde for a minha tragédia, me siga até onde for a tua força, me sirva da tua bondade - eu mesmo, que começo cada dia com uma maldade! -, enche dela a minha justiça!

Que assombroso júbilo estar na minha pele hoje... quem o suportaria senão eu mesmo?! 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Paráfrase III

M: E agora, como recompensa, aceita uma pequena verdade. Sou suficientemente velha para te dizer. Sufoca-a, tapa-lhe a boca, porque do contrário grita alto demais...

H: Venha a tua verdade, mulher!

M: Vais ter com radfems? Não te esqueças do açoite!

domingo, 10 de janeiro de 2016

CI - Aforismo 34

Meu "Crepúsculo dos Ídolos" (1888) está marcado no aforismo que transcrevo a seguir. Ainda não li o livro todo, folheei-o displicentemente há alguns meses e guardei esse aforismo pela ferocidade da crítica que ele apresenta. 

Penso ser inegável que hoje assistimos à ruína de praticamente tudo aquilo que foi associado um dia à esquerda do espectro político - os comunistas, o PT, os sindicatos, os direitos trabalhistas... No caso do Brasil, especificamente, há uma fragmentação a cada dia maior, tanto consequência como causa de uma desmobilização, uma incapacidade de organização política, etc. De minha parte, penso que aquele pessoal do Rio que mobiliza a categoria dos garis a partir de uma leitura deleuziana é a única - senão a última... - organização que mantém fôlego, para usar uma expressão famosa: que "é um devir".
Eu já escrevi algo neste mesmo sentido - no caso, sobre esse "feminismo de facebook", asqueroso, desprezível - o "Feminismo Pára-Que-Tá-Feio!"

Aqui o Nietzsche toma o caso dos anarquistas - ele recorrentemente cita os "camaradas anarquistas", desde o "Aurora" (1880) - mas o seu escopo nos serve para analisar aquele fenômeno supracitado. É interessante que ele, provavelmente, foi o primeiro pensador a colocar o cristianismo próximo dos ideais socialistas (tendo como gradações do mesmo espírito os "democratas", "socialistas" e "anarquistas") - contra a própria "vontade consciente", contra os próprios discursos destes. 

O belo do pensamento de Nietzsche é que ele é inapreensível, incontrolável, não se prende a esquemas sistemáticos... Há quem o chame precursor do nazismo - a calúnia da qual ele mais se desgostaria, deveras... ser associado à germanidade funtamentalista-cristã! Ele, contudo, se coloca como "anti-socialista" convicto e toda a sua crítica ao socialismo e seus pares - para mim, a do "espírito democrático" no "Além do Bem e do Mal" é o mais assustador insight dele e, ainda assim e por isso mesmo, genial - é um deleite! Esse aforismo é bem pontual, há ainda muitos outros que observam outras questões...

"34. Cristão e anarquista - Quando o anarquista [JB: ou a feminista, o governista/petista, etc. - ou mesmo para o outro lado da ferradura: fascista, golpista, etc.], como porta-voz dos estratos declinantes da sociedade, exige, com bela indignação, "direito", "justiça", "direitos iguais", ele apenas está sob a pressão da sua incultura, que não pode compreender por que sofre realmente - de que é pobre, de vida... Um instinto causal é poderoso dentro dele: alguém deve ser culpado por ele se encontrar mal... E a "bela indignação" mesma lhe faz bem, para todo pobre-diabo é um prazer xingar - dá uma pequena embriaguez de poder. Já o lamento, a queixa, pode dar à vida um encanto que a torne suportável: há uma sutil dose de vingança em toda queixa, censuramos nosso estado ruim, às vezes até nossa ruindade, àqueles que estão em outra condição, como sendo uma injustiça, um privilégio ilícito. "Se eu sou canaille, você também deve ser": com esta lógica se faz revolução. - Em caso nenhum a queixa vale algo: ela se origina da fraqueza. Se atribuímos nosso estado ruim a outros ou a nós mesmos - a primeira coisa faz o socialista, a segunda o cristão, por exemplo - é algo que não faz diferença. O que há em comum, digamos também o que há de indigno nisso, é o fato de que alguém deve ser culpado por se sofrer - em suma, de que o sofredor prescreve o mel da vingança para seu sofrimento. Os objetos dessa necessidade de vingança, como uma necessidade de prazer, são causas de ocasião: em toda parte o sofredor acha ocasiões para mitigar sua pequena vingança - se for cristão, repito, encontra-as em si mesmo... O cristão e o anarquista - os dois são decadénts. Mas, também quando o cristão condena, denigre e enlameia o mundo, ele o faz pelo mesmo instinto a partir do qual o trabalhador socialista condena, denigre e enlameia a sociedade: mesmo o "Juízo Final" é ainda o doce consolo da vingança - a revolução que o trabalhador socialista também aguarda, apenas imaginada para mais adiante... E o próprio "além" - para que um além, se não fosse um meio de denegrir o aquém?..."

Decifrando-te ou "Um Pouco da Arte da Guerra"

A: Vejo nos seus olhos: por que te causo desgosto? Por que razão, sem nem olhar para a minha direção, mira tuas flechas para mim? Teria a minha vaidade ferido a sua

B: Ora, meu caro, por acaso gastaria minhas flechas contigo? O que te apavora é a possibilidade de pisoteio pelas minhas botas. Deixe-me te contar um segredo - e espero que seja indulgente para com a minha honestidade: a qualidade daquele que me ataca não deixa de revelar algo acerca da minha própria qualidade. Não te atacaria, pois, aquele a quem ataco gostaria de ver tenso, à minha altura - aí eu teria um bom combate! -, e até onde suportaria uma sangria. Mas tu, me parece, não aguentas, não resistirias à minha força - derrubaria-te de um só golpe! E, se me desgosto de ti, é porque me irritei com teu jogo... 

A: Pra ser honesto, dói meu pescoço, cansa minha vista ter que olhar pra você... tão alto e tão longe!

B: Pois é daqui que te vejo e a visão do teu jogo me enoja: crês que poderias ter chegado lá. Mas ficaste com medo de que, quando lá chegasse, não tivesses ninguém para testemunhar tua "glória". Ficou logo atormentado pelo receio de ficar só - parou, então, no meio do caminho para desfilar suas plumas coloridas. Bem impressionado ficara o rebanho, deveras! Mas, sinto te dizer, ele logo se distraí com outras coisas, pois, as retinas do rebanho não enxergam tantas cores... 

A: Lá? Que tu sabes sobre chegar lá?

B: De minha parte, quando lá cheguei pela primeira vez, olhei para trás e me emburreci: "Porque vós não conseguis chegar até aqui?! Falta-vos coragem? Estou bem próximo do abismo, deveras, e, nas vezes em que nele me precipitei, tive que ter força para me sustentar na sua beira e retomar à terra firme - portanto, recomendo-lhes logo livrar-se de todo o peso supérfluo, supondo que queiram vir até aqui... - quando quis me lançar em sua direção, tive que usar minhas asas. Ah, vejo logo que não conseguem voar... Seria preciso antes desatrofiar as vossas, ou, mais ainda, criarem asas para vós próprios, meus caros!" De lá fui e voltei várias vezes, aguardando ansioso por alguma companhia - eu e mim estamos muito compenetrados numa conversa - precisamos de um amigo! Venham até mim, amigos, - eu vos espero! - mas que não venham rastejando!

A: E asas, não tenho?

B: Ainda precisaria passar pelo casulo, deveras. Mas, longe de mim - inseto asqueroso! É este o teu jogo que enoja: quer parecer que poderia, um dia, voar - disfarçando tu mesmo ser um inseto - quer parecer que voaria tão alto quanto gostaria a tua vaidade. Com efeito, como poderia eu - uma ave de rapina - te atacar? Já te honro um tanto decifrando-te.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Decifra-me

1. A interpretação - de textos e contextos - é uma arte e, como toda arte, é preciso ter nascido para ela.

2. Função psico-fisiológica dos mitos: superar impasses simbólicos para libertar fluxos afetivos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Minha Grande Saúde

Quando estive apiay, embebi de teclados (cordas sintéticas) os arranjos, elaborei melodias sob dissonâncias menores e desacelerei a velocidade das minhas canções - fossem elas de qualquer espécie de música romântica, tanto "amor romântico" como qualquer outro "ideal romântico". Assim queria a minha depressão curar-se a si mesma. Quando estive iñaron, a minha fúria à flor da pele me compelia a uma estética abrasiva: distorções em tudo - vozes e guitarras, substituindo o baixo pelo som sintético do lead sawtooth, ainda mais abrasivo que o próprio baixo sob efeito de distorção. Assim exigia a minha extrema irritabilidade - um golpe para afastar os afetados e restabelecer-se o equilíbrio dos meus próprios afetos. Quando estive na minha mais elevada altura: um céu não exatamente desanuviado... estava acima das nuvens! - atmosfera rarefeita, ar seco... tudo como anseia a minha grande saúde. Ali, minhas canções eram rápidas e fortes, contudo, leves. O júbilo experimentado com a existência era refletido na minha alegria em desenhar linhas de baixo que determinavam o chão por sobre o qual a minha guitarra e minha voz dançavam. Distorções, sim, nas guitarras (sempre mais de uma) e na voz - assim queria a minha força ser reconhecida. Que nome dariam os Ka'apor para tal estado de espírito? Ou os gregos? Que nome daria eu mesmo para aquilo que criei para além de bem e mal, para além de mim? Oxalá que eu sempre volte para : a minha montanha! Aqui o ar é mais puro! Minhas vias aéreas mais livres, meu pulmão tem mais fôlego; a vida é sempre mais alegre!

"Conhece-te a ti mesmo - torna-te quem tu és"

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Adeus, 2015!

Se 2015 fosse uma pessoa de quem eu pudesse me despedir, consciencioso de um incontornável - adeus..:

Por ti, nutrirei eterna gratidão, minha querida. Poucas pessoas que passaram pela minha vida me fariam olhar para trás com tanta ternura. E, deveras, se houvesse um espelho retrovisor na locomotiva que nos leva ao futuro, eu não poderia evitar de nele mirar o olhar, com um coração tão pleno de anseio como faço agora. Tu, que vieste sob o signo de Marte, o deus da guerra; vieste para reiterar: o que não me mata - me fortalece; tu, que vieste me desprezando - como só os grandes amantes sabem desprezar - intumesce meu espírito com mel de floradas silvestres, suavemente cortante como só a vida pode fazer. Como diria Zaratustra, o que sabe do amor aquele que não sabe desprezar o objeto amado? O grande amor tem seus caprichos, assim, ele guarda o seu valor.

Por vezes, teu silêncio dilacerara meus ouvidos - eu gritava abrigando-o do frio e me protegendo, me afastando, acautelando, de um terrível, horrorífico, auto-desprezo. Pois bem: aprendi a ouvir a beleza da sua melodia com os olhos - a mais bela canção que pude vislumbrar até aqui. Não à toa a mais bela melodia reconhecida pela humanidade foi elaborada por Beethoven já surdo: precisamos perder os sentidos para superá-los. Uma parábola.

Em janeiro, a saliva quente do teu mar lambia minhas pernas na Paraíba. Zaratustra era a rocha em que eu me assentava - não fosse isso, não seria eu tragado para as suas profundezas, sem volta? Tive fôlego, aprendi a fitar o abismo - ele fugiu de medo quando o fiz olhar-se a si no espelho... 

Voltei para a Paraíba novamente, desta vez sem a Aurora, e, na volta, lia "Da Morte Livre" no momento exato em que entrávamos numa turbulência... meu arrepio deu testemunho: ainda não era a hora certa de morrer.

Em fevereiro, cortei o açúcar do café: foi o estratagema encontrado para expurgar-me o amargo de mim mesmo. Daí em diante, ao longo do ano, forcei uma interessantíssima mudança no meu metabolismo: aboli o açúcar; troquei gradativamente o chocolate por frutas; o mel passou a fazer parte da minha dieta diária. O chocolate, quando não muito refinado, de alta qualidade, me enfastia no primeiro toque da língua. Fora isso, um silêncio terrível: era a minha hora mais silenciosa falando no meu ouvido. E um terrível remorso me puxando para baixo... Recolhimento era mais que recomendado - era necessário.

Já em março, o céu desanuviado abria cintilante para mim: sob o seu azul eu vislumbrara a beleza da tragédia - como ela nasceu? Essa resposta, mais do que no livro, tive que encontrar, novamente, em mim mesmo.

Abril: a ilusão da tua belíssima aparência me cativara; uma musa, uma sereia estirada na beira do Paranoá, soprou com sua força apolínea uma canção para o meu peito. Que alegria! A primeira do ano, deveras. A mudança do tempo, como era de se esperar, me presenteou com uma leve sinusite, que durou menos de uma semana - nada que se compare com a minha claudicante saúde em 2013 e 2014.

Em maio, vieste para cobrir a noite com um luminoso cobertor de estrelas - os dias não tão frios quanto o usual: já aí se anunciava um ano mais quente que o comum. Assumi a função de Coordenador Pedagógico - para a qual havia sido "escolhido" no início do ano, na mais absoluta falta de interesse do resto do grupo de participar do caos administrativo, pedagógico e financeiro que constitui a instituição de ensino de que faço parte. Minha vaidade, meu orgulho, minha coragem, minha força, meu espírito: foram todos colocados em teste a partir de então - nada mais humano. Humano demais! Fui lançado numa fornalha, forjado contra uma estrela de diamante - resistiria? Até então, eu não sabia.

Como as aves brincam no céu azul-claro de junho - como numa dança alegre -, também eu o fizera: descobri alegremente, com desenvoltura inesperada, que eu também sabia dançar com os meus problemas, meus trabalhos, meus deveres! Que sabedoria alegre! Mas, nem por isso, me permitia descuido - contudo, para o meu gosto, certas coisas deveriam parecer difíceis de serem feitas - apesar de serem fáceis; outras, exatamente o contrário.

Confesso que neste exato momento sou incapaz de me recordar do meu aniversário. Julho foi cansativo - era o fim dos trabalhos que naquele momento me sobrecarregavam. Também aí, como em várias dimensões da vida, passamos pelas 3 transformações: eu era um camelo. De repente, vi a mim mesmo num deserto; saltou de mim um rugido: me tornara um leão - ali, quanto à dimensão do meu ofício. Uma nova aurora viria a raiar a partir de então: e entre, eu e meu grupo de afinidade, começou a germinar uma semente de um projeto; e intervenções pontuais que viriam a ser planejadas e executadas nos meses seguintes, atestando a nossa competência, a nossa habilidade. No recesso, no entanto, em poucos dias dou as lapidadas finais nas letras e arranjos e gravo o álbum deste ano, o poderoso, furioso, "Iñaron" - que presta um testemunho poético muito mais sutil das experiências deste ano até aqui.

Fora do trabalho, tudo permanecia árido, mais árido que o clima venturiventiano em agosto: eu estava mesmo num deserto. Apenas agora, por fins de dezembro, posso dizer ter encontrado alguma umidade - um oásis, talvez. Neste deserto, apenas eu e minha sombra... ai, "as histórias que posso contar!"

Em determinados desertos as noites são gélidas, a despeito do calor do dia. Era assim também comigo: setembro, apesar de insuportavelmente quente, dentro de mim era gelado. Também neste mês dormi uma noite fora de casa: mas o frio não me abandonava... Decidi, num lance egoísta, fazer uma viagem para um lugar mais quente: juntei meus dias de folga que sobravam e, na primeira quinzena de outubro, passei quatro noites no paraíso - Pipa, Rio Grande do Norte. As impressões deste momento estão por aqui.

Por pura sorte, uma semana antes de viajar consegui encontrar um novo lugar para morar e saí do Guará - para nunca mais voltar...? Que apenas na memória eu guarde algo daquele tempo tenebroso - e vim tomar posse do meu palácio - um palácio itinerante, deveras! - em Águas Claras.

Aí então reconheci, me dei conta de que a felicidade é, hoje e desde sempre, uma coisa egoísta: toda a moralidade que prega que "a alegria deve ser compartilhada", no fundo, me parece ser um sussurro desesperado de quem, fundamentalmente, não crê na sua felicidade - pois essa gente precisa "crer" em algo, sempre - e arrasta para ela algumas tristes testemunhas, que se veem forçadas a reconhecer firma de tal alegria - uma cartorialização dos afetos. Como disse o Andarilho, "a melhor coisa me seria repugnante, se alguém tivesse que partilhá-la comigo".

Com o coração mais quente - já havia voltado a chover em Brasília... - retornei do Paraíso para, mais um vez dentre tantas, descer ao Hades... Já era novembro. Lá, tive que fechar os olhos novamente para beijar a minha Medusa. Bom que fechei os olhos: pude sentir o seu gosto de pedra na boca (os sentidos devem ser ignorados e postos em anteparo contra outros, sempre meio desconfiados - "coração atado, espírito livre" é a fórmula). Esta foi a segunda noite fora de casa do ano. Não suportaria fazer isso de novo, contudo, valeu a experiência - de que outra forma eu poderia firmar-me como sou? Afirmar o que eu quero? Confesso: minha cama - a minha concha. Não vou adornar pescoços lânguidos; não vou lançar-me aos porcos! E se à minha volta há um visco asqueroso: que melhor forma haveria de manter-vos à distância, afetados desprezíveis?!
 
A Medusa fugiu, cheia de ódio, quando lancei contra ela um espelhinho inocente... Mal sabe ela que vivo eu numa casa espelhada - cada parede daqui dá testemunho sobre quem lhe fita! Ela não suportaria adentrar a minha casa, deveras; também, pois, já não é bem-vinda. "Quem aqui entra me dá um honra, quem não entra me dá prazer", está ali na minha porta.

Finalmente, chegamos em dezembro, e não posso evitar de olhar para trás novamente movido por amor, minha querida. Há exatamente um ano eu terminara o "Além de Mim", ainda muito impactado pelo "Ecce Homo", e lancei para mim uma meta: mergulhar na obra de Nietzsche no ano seguinte, de modo que eu pudesse, nadando neste mar, fortalecer as musculaturas do meu espírito - sabendo dos desafios contra os quais eu seria lançado pelo meu remorso, frustração e todos os outros atavismos do espírito do rebanho... E, vejam só: já não posso dizer de qualquer outro ano de minha vida o que eu diria de 2015: tudo o que vivi aqui redime meu passado e justifica meu futuro; tudo o que fiz este ano - devo estar soando repetitivo a esta altura... - o fiz por amor à vida, amor ao meu destino, de onde brota um deliberado orgulho. E, "tudo o que se faz por amor, está para além do bem e do mal".

Já vai alta a madrugada... não precisa dizer palavra! Adeus, meu amor! Como disse em outra oportunidade, sobre teu túmulo lancei sementes de flores e frutos - eu te honrei, da forma como pude. Nos veremos novamente - pintados nos quadros das paredes da memória... guarda contigo teu último beijo que eu guardo comigo meu afago. Será melhor assim!

Seja bem-vindo, estranho 2016! Traga o que trouxer: eu o honro - com minhas cinzas, minhas chamas, meu carvão, meu calor; com tudo o que sou, ardendo por amor.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Paráfrase II

Participo desses grupos de Whatsapp e dessas confraternizações com os olhos bem abertos: essas pessoas não perdoam que eu não inveje suas pequenas virtudes.