sexta-feira, 17 de novembro de 2017

10 Anos de Blog: "Leoa"


Comemoro neste mês 10 anos publicando neste espaço. Mais de um terço da minha vida esteve por aqui registrado, o que para um fiapo de poeira pairando no ar, um grão de fuligem que se desprende da grande fogueira... -- que dimensão possui o ser humano diante da vida, que outra escala eu me utilizaria para medi-lo, senão esta? -- é, considerável, apesar de discutível. Aprendi a falar, logo, não me calam; aprendi a escrever, portanto, em silente solitude, por puro desprezo a você, leitor, este ser que nem existe ("non legor, non legar" foi o que li em algum lugar...), publico hoje este punhado de rimas pobres que celebram a vida, essa consciente experiência onírica, no geral; e estes meus pensamentos rascunhados, petits faits, canções, poemas e afins. A fonte nunca cessa! Vida eterna: eterna vivacidade é a arte! Vivat comaedia!

Leoa, Leoa

Leoa, o meu rugido não é pra fazer sentido
Eu sou o que sou e grito à toa
Leoa, atravesso contigo os campos de trigo,
O que eu quero é uma vida boa

Leoa, eu já sei que eu sou um rei
Portanto, eu te tomei por minha rainha
Leoa, se esconda embaixo da minha juba
Onde quer que minha sombra te cubra

Leoa, tu és, porém, não estás presa
Entre as minhas garras, eu não amo jaulas
Leoa, eu te persigo à noite, no escuro
Se pra mim és promessa de um grande futuro

Leoa, tu me encontrastes quando descia a montanha
Incendiário, trazia comigo minhas chamas
Mas leoa, eu ainda trago na minha língua
O amargor das minhas cinzas

Leoa, é na relva onde mostro que à selva
O meu domínio é exímio
Portanto, leoa, me chamo leão
Porque eu faço “sim!” mesmo se digo “não!”

Leoa, eu passo minha humanidade adiante
Posto que a minha fonte é incessante
Apesar de minha espécie estar em extinção
Eu sou mais raro ainda a cada estação

Leoa, não tenho outra coisa que não
Muita coragem pra um só coração
Leoa, eu sou puro instinto
Transformo a água benta no melhor vinho tinto

Leoa, há recantos do meu caminho
Que perfaço em prantos quando estou sozinho
E se o faço, leoa, lambendo minha ferida
E porque sei celebrar a alegria da vida

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Narciso é Preciso

Há pouco estive sondando de uma outra mesa um happy hour de jovens senhores, gentlemans, dos médios degraus da maçonaria brasiliense. Reconheci um deles, um antigo colega de trabalho... Eu, que nesta seara, estou mais para rosacruciano, o avesso de um decadént, tal qual um Prometeu -- o que está oculto trarei um dia à luz -- perscrutei com razoável desgosto tal encontro. Eles eram mau-constituídos, feios, desproporcionais -- o que seu instinto compensou em espírito. Talvez esse o motivo maior de seu ódio à vida e à humanidade. Voltando a mim mesmo, não pude escapar da reflexão de sempre ter tido o anseio de atingir a perfeição. Essa era minha obsessão quando adolescente, ainda me recordo. Descobri maravilhado nos idos de 2015 que eu atingira, num equilíbrio de disposição fisiológica, a perfeição como estado natural; longe de ser uma condição de morbidez monocórdica, de perene serenidade de humor, nesse estado perfaço o repertório de afecções que a vida me conferiu, exercito a dialética do meu espírito, aprimoro as faculdades do meu corpo, noutros termos, mantenho uma saúde elevada, grande. Nada há que esperar de uma "vida eterna" -- isso soa mesmo, para mim, como uma morte lenta. Moral da estória: desconfiar, reter forças, até subjugar, se necessário, tudo o que não for belo como eu.

domingo, 22 de outubro de 2017

Dois Pensamentos Sobre a Educação

1. Falando de asseio — Uma esponja que se presta a lavar muitas louças sujas finda por encontrar-se, depois de muito trabalho, suja ela própria, ela própria necessitará ser limpa após determinado tempo. A molécula de sabão, para atingir o ideal da limpeza, carrega consigo aos esgotos as moléculas de gordura. O mesmo princípio vale para a educação. Moral da estória, em linguagem nietzscheana: o homem do conhecimento deve saber limpar-se mesmo na água mais suja...

2. A educação como ideal — O primeiro desafio da educação — pública, no Brasil... mas também universalmente falando — é superar as hipocrisias 1) de supor que o conhecimento tem algum fruto, senão, ele próprio; noves fora os privilégios legalmente constituídos destinados aos monopólios da expedição de diplomas [portador de tal diploma possui tais e tais liberdades de atuação econômica na sociedade, etc.], não há, absolutamente, garantias de que o conhecimento formal, por si só, eleve ou modifique o patamar material da vida de alguém; 2) e de que o(s) conhecimento(s) é/são acessível/acessíveis a qualquer um; que, na diversidade de conformações intelectuais, no acaso do destino de constituições de sujeitos, haja acesso livre a uma compreensão superior de mundo. O segundo, é superar o pressuposto de que, para o desprovido de acesso àquela compreensão, seja destinada uma vida de privações das satisfações básicas da vida — a fome, a pobreza, o não-direito à cidade, à qualidade de vida, etc — ainda que essas condições sejam, ao fim e ao cabo, determinadas pela média das condições socioeconômicas de qualquer sociedade, a compreensão de que um desequilíbrio na balança da desigualdade, para ser mais simples e direto, fará ruir o edifício da sociedade é um dado vislumbrado em uma compreensão superior do mundo. Mas, como já o dissera, há uma inescapável hierarquia da inteligência... — contudo, não me creem, a menos que já o saibam.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Estragando Uma Fantasia...

Eu estrago a minha fantasia se nela visto todo mundo. Igualmente, desgasta-se, torna-se "identidade", familiaridade - aquilo que "conheço" e não mais me inspira vontade de conhecer -, vestindo-a sempre na mesma pessoa. Prudente é, pois que a alegria quer durar a eternidade, que se busque vestir uma determinada gama de pessoas, ou mesmo "coisas", objetos e experiências, de modo que ela, a fantasia, sempre se renove e se mantenha acesa a chama do desejo. Mas muitos pregam uma morte lenta das fantasias... Para estes, minha moral não possui a mínima serventia. E como poderia a felicidade dessa gente que escancara os dentes se confundir com a minha felicidade? Como poderia a minha moral ser a moral de todo mundo? Estragaria, deveras, a minha fantasia.

Privilégio do Casamento

Privilégio dos que se casam - Muitos se conformam à vida conjugal pelas inegáveis conveniências que ela dispõe. Com algum desprezo à verdade, às vezes chamam isso de amor. Contudo, há um privilégio que só é dado aos que, ao menos uma vez, se casaram: poder afirmar que fizeram na vida aquilo que fez dela melhor - divorciar-se. Partindo do princípio, que não é dado a todo o mundo, de que liberdade e autonomia são valores supremos, que proporcionam uma vida forte e feliz. Um sagrado egoísmo, se poderia dizer.

domingo, 1 de outubro de 2017

Princípios de Humanidade

I. Princípio de humanidade: não cobrar das pessoas aquilo o que elas não são capazes de fazer.

II. Tragédia de quem obedece: quando não há quem tenha voz de comando; não reconhecer legitimidade na autoridade leva à revolta ou à displicência.

III. Tragédia de quem comanda: quando não há pessoas que obedeçam; não ser reconhecido por quem deveria obedecer leva à paralisia ou a ineficiência.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Eu Era Um Lobisomen Juvenil

Existe pouca, talvez até nenhuma, coisa mais patética, ridículo atestado de impotência diante da vida, que a intolerância estética, por assim dizer, dos que afirmam o "rock", seja lá o que isso signifique, enquanto identidade. Aqueles que contemplam a diversidade e a acolhem são os responsáveis por um mundo novo, melhor.
Mas não há nada como a experiência. Eu mesmo já fui um lobisomem juvenil...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O Pai Nosso Subvertido

Noves fora o analfabetismo funcional que impede uma parcela significativa da humanidade cristã, especialmente no Brasil, de interpretar os seus significados, o texto desta que é a mais completa, perfeita oração do cristianismo, a que foi ensinada pelo pregado, revela muito de seu caráter de advogado dos pobres de espírito e explica em parte o por que padece a humanidade

"Pai nosso que estais nos céus
Santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso reino
Seja feita a vossa vontade
Assim na Terra como nos céus
O pão nosso de cada dia nos dai hoje
E perdoai as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos
A quem nos tem ofendido
E não nos deixeis cair em tentação
Mas livrai-nos do mal
Amém"
[Jesus de Nazaré, Mateus, 6:9-13]

Ora,

1)  "Pai", "padre", "patrão", "pátria": significantes com a mesma raiz linguística. A naturalização da autoridade moral (ou a moralização de uma autoridade natural, como queiram os conservadores, tanto faz) dos que vieram primeiro (pai), conquistaram a terra e os seus recursos (patrão) e estabeleceram a sua sociedade (pátria) e a sua moralidade/modo-de-pensar (padre), transporta para o reino da linguagem a coação física e material a que estão sujeitos os demais "filhos", "fiéis", "súditos", "aprendizes", etc.; 

2) O pai, ele está "nos céus" — um espaço etéreo, construído na imaginação, como quando enxergamos formas e objetos nas nuvens; domínio do universo onírico, pois, é para lá que vão aqueles que morrem: para os sonhos dos vivos — e de lá nos ordena: "Santifiquem o meu nome!, pois, eu sou tal e qual o fantasma, o "espírito santo" (em inglês "holy ghost") que habita o vosso inconsciente, assombrando a todos os que ousam estabelecer uma nova moral, uma nova partilha das riquezas da Terra, novas formas de relações sociais, etc. etc. Ao fim e ao cabo, mantenham as aparências, modifiquem a forma, mas deixem inalterada a função daquilo que criei". De sorte que também aqui, no presente, é feita a vontade do "pai" fundador de uma linhagem vitoriosa de uma determinada forma de sociedade

3) Essa simplificação oferecida pelo monoteísmo semítico, que encarna todas as potências divinas da antiguidade em um único ente, é uma evolução tecno-política do mito: um enredo tal qual o grego, por exemplo, era por demais confuso, conflituoso, enredado em tramas interdeidades que colocam o leitor em posição de espectador passivo, a espera de uma reviravolta política, explosões passionais daqueles deuses... tão humanos; de modo que há um custo psicológico mais elevado, de carga afetiva mais pesada, para que o mito seja assimilado e difundido através de povos mais rústicos, de linguagem, modos e pathos mais moderados que os gregos, estes últimos em avançado estado de organização social e, posteriormente, em decadência — fato evidenciado pela sua conversão ao cristianismo ao fim da fase clássica: um povo "doente" procurando a "cura" (uma etapa anterior àquilo que Nietzsche chama de "grande saúde": decair, procurar o que nos adoece mais; um corpo febril querendo cobrir-se com tecido grosso em um dia de calor); 

4) O pão nosso de cada dia é a ração, a migalha, que vos é ofertada pelos vossos "pais" patrões. Aqui resta evidente o absoluto caráter servil desta religião perniciosa, que cresceu entre os escravos da antiguidade, a ponto de render o Império Romano com Constantino, que percebeu, num senso de oportunidade, a função social desse novo mito que glorifica o trabalho (do latim: "tripalium", um instrumento de tortura que arranca para fora as tripas) diante da consciência dos escravos. Este talvez seja o ponto em que muito pouco mudou ao longo dos últimos dois milênios. O fato de que a mera ideia do comunismo enquanto abolição da propriedade privada/individual dos meios de produzir ofenda tanto o pudor de tantos ainda é um sinal do patamar moral em que estamos. Cabe aqui ressaltar o papel que um esquerdismo condescendente teve na apodrecida democracia brasileira (poderíamos dizer no "ideal democrático do ocidente", dado que é um fenômeno global) para o florescimento de tal abjeto fenômeno; 

5) Obedecer não é tão fácil quanto parece. Isso o sabem os filhos adolescentes, os proletários indolentes. É uma arte tão apurada quanto saber comandar. Não à toa Nietzsche coloca a obediência como um afeto nobre [contudo, partindo do pressuposto que a autoridade de quem comanda é legítima]. Nesse contexto, em que poucos podem [têm o poder de] obedecer, comandar e criar novas ordens, é recorrente o pedir clemência, buscar indulgência: "Perdoai as nossas ofensas... Eu desejei sua mulher, pai, uma virgem santa, e não pude superar a vergonha e o horror de tal feito, é preciso que um deus muito vingativo me puna, e um mesmo deus muito amoroso me perdoe, porque me compreende, de mim se compadece, sofre comigo. Eu também me revoltei contra meu senhor, meu "patrão", pois, cobicei de sua riqueza. Logo ele, que é quem permite que eu coma e viva! Eu me rebelei contra a moralidade, padre, quis o paraíso aqui e agora; eu tornei-me proscrito em minha terra, desejei conhecer paisagens e novas paragens dos povos vizinhos de língua estranha e belas dançarinas de misteriosos olhos entrevelados; por tudo isso, eu peço perdão! E perdoai também àqueles que me atacaram enquanto me dominava a furiosa paixão de meus anseios! Ou ainda os que me atacaram possuídos pelos anseios deles. Perdão, perdão, perdão!" — Para que haja perdão é preciso haver — culpa. Uma máquina de produzir culpas: é a isto o que chamam de pai os cristãos. É preciso ser muito rico de espírito, ser dotado de profunda introspecção, afiada inteligência dialética, rigorosa honestidade de caráter para não ser cristão. Inclusive, bom gosto e instintos saudáveis para sequer ser capaz de tolerar o espetáculo horroroso do espírito de rebanho... Todavia, quero evitar falar de mim;

6) O diabo, aquele que possui as mais amplas perspectivas de deus, pois, dele mantém-se distante*, consubstancia-se no conhecimento. Desde sempre, foi proibida somente, em princípio, a verdade, a sua busca, a sua rota, o seu desejo. Instigar a conhecer a verdade, o "outro lado do muro", o oculto, a "pia fraus", o comunismo, a subjetivação subversiva do sujeito consciente na produção da história [a grande contribuição do marxismo para a humanidade], o sexo diverso, por puro prazer e luxúria, etc é a arte que domina Lúcifer, o "portador da luz". O próprio nome — por mais óbvio que seja e que isso tenha sido comentado apenas indiretamente em um único livro é um espanto — "tentação" tipifica em um único artigo o crime: tentar! Aqui a importância cabal da castração do instinto sexual desde a infância para a manutenção deste modelo de subjetivação, que produz proletários, não operários. A libido sexual, primeira e última, única, segundo Osho, energia do espírito humano, é a chave para o controle de todos os demais anseios e pulsões de vida do corpo. A minúcia com que se descreve este processo por Reich, e o ruído, murmúrio ao seu redor após décadas, é outro dado que atesta a decadência da humanidade: prefere-se crer naquilo que é a doença de milênios... Como diria Zaratustra, é uma religião que prega a morte, ops!, a "vida eterna"

7) "Mas livrai-nos do mal. Amém": que significa: "que assim seja"! Há aqui alguma honestidade na linguagem, conferindo ao acaso dos acontecimentos, o caos, algum poder decisório no universo. Após um potente esforço da vontade do espírito — "seja feita a vossa vontade", "não nos deixeis cair em tentação", etc. — reconhece-se que, no fundo, tudo depende de que o universo nos seja generoso em sorte! Ah, soubessem os cristãos que este deus punitivo, com tal vacilante amor, é tão impotente e frágil... Este deus não fora feito à imagem e semelhança de uma espécie de humanidade? Mas muitas outras são possíveis!

Pobre de ti, nazareno, que morreu pregado entre ladrões, abandonado por teu pai, nada deveria ofender mais tua memória que o desvirtuamento da tua oração — e que ainda hoje ela viceja na boca de quem te crucifica!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Corrupção da Estética

1. Ante o feio, a beleza é um imperativo ético. É preciso ser belo. 

2. Para que haja o reconhecimento do belo, é necessário, portanto, que haja o feio em abundância. Logo, há toda uma indústria de produção da feiúra. E uma informalidade, por assim dizer, no mercado da beleza.

3. A estética da modernidade é a última consequência do embotamento gerado pela indústria da feiúra. O feio foi elaborado à exaustão, tomado como quintessência do belo, posto que o que é vulgar foi elevado à categoria de desejado, objetivo comum, referencial para o repertório do ser humano médio. 

4. Assim opera toda área da economia que se utilize de referenciais estéticos -- a saber: vestuário, música, cinema, teatro, mercado imobiliário, etc. -- através de uma profusão de réplicas de um acaso raro, que seria belo, vulgariza o feio. 

5. Nesse estágio, necessário é para nós, os raros, retornar à postura belicosa de enfrentamento diante do oceano de feiúras. Lutar pelo florescimento de um novo acaso raro de cores e formas e sons e profundidades: o que é mais belo é a luta! Rechaçar o "desejado" como belo! O que todos devem querer -- eu não quero! O que se cria em qualquer esquina -- eu quero criar a um patamar acima. 

Um faro para a corrupção da estética sempre me colocara à parte. Melhor assim.

domingo, 11 de junho de 2017

O Disfarce da Ofensa

"O disfarce da ofensa: chamam-no — ajuda." Assim fala o orgulhoso.

domingo, 19 de março de 2017

"Estamos Febris" ou "Que Quer Dizer Decadência?"

O que determina para onde pende a experiência onírica? A saúde do corpo. Afinal, nunca será tarde demais para lembrar: não há nada além do corpo. Uma digestão pesada, um metabolismo do álcool, leva ao pesadelo e ao horror noturno; o bem-estar, o relaxamento dos músculos após a tensão, a descarga hormonal em equilíbrio leva ao sonho, que eleva, que mostra caminhos simbólicos para a auto-superação. Pois bem: o nosso corpo, enquanto sociedade, está em febreluta-se dentro dela mesma contra os corpos que a atacam — daí se compreende tantos mal entendidos, quantos enganos... 

Não será suficiente um balde de água gelada por dia até 2018 para "estancar a sangria", para recuperar alguma sanidade, o que permitiria aos instintos alcançarem por si próprios os fluxos saudáveis — oxalá houvesse um degelo do ártico sobre nossas cabeças! Me explico: a decadência é a deterioração do instinto, quando se quer aquilo que faz mal, quando se anseia por aquilo que diminui a potência de agir. Febris procuramos nos cobrir, trêmulos, quando deveríamos encontrar, suportar, um bom banho frio! 

Estamos procurando os caminhos mais fáceis, os atalhos mais ou menos curtos para a morte, que em nós a doença pede — o fascismo tosco do Bolsonaro ou o populismo cretino do Luís Inácio (espumas das ondas que varrem as praias da nossa era, cada qual a seu tempo... mas, o oceano é muito mais profundo!), tanto faz — quando deveríamos suportar o mais dolorido e, deveras, terrorífico: destruir, nos afastar daquilo que nos faz mal, criar e construir aquilo que é ainda inconcebível...

Nós, os criadores, sabemos o quanto de dor é necessário suportar para tal; sabemos que não é dado a qualquer um suportar qualquer dor... Também aí não compreenderam (talvez assim seja melhor...) Frederico: para muitos, para a maioria, é necessário e até essencial decair — esse é o sentido e a função da democracia. Apenas assim, após a convulsão da gente pequena, a Terra se livra dos supérfluos e oferece, generosa, sua abundância aos fortes — chamemos isso do que quisermos, nós, os herdeiros do futuro, o sentido da Terra.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Jamais

"Amo aquele que não quer ter virtudes demais. Uma virtude é mais virtude do que duas, pois significa mais laços em que a fatalidade pende." ou "Mais nós em que se ata o destino", em outra tradução, não importa. Oxalá que um dia eu venha a adentrar os muros das instituições totais apenas como uma referência do que há de mais elevado e afiado e forte, herdeiro e justificador de toda a contracultura. Que minhas filhas, minhas canções, dádivas que a humanidade ainda não merece, levem meu legado à eternidade. Desconheço qualquer "vida eterna" — apenas reconheço a eterna vivacidade: estou pra sempre inscrito na minha música!

"As grandes épocas de nossa vida são aquelas em que temos a coragem de rebatizar o nosso lado mal de nosso lado melhor" (Nietzsche, "Além do Bem e Do Mal")

"Jamais"
(Juliano Berko)

No deserto em que habito
Estou habituado aos perigos
Pois, meu lado mal é meu lado melhor!

No recanto em que descanso
Canto aos céus o meu destino

Sou um “tentador” e essa definição
É uma tentativa e uma tentação...

Nunca diga:
“nunca diga nunca”
Diga: jamais!

Há tanto expulso do “paraíso”
E não me perdoam o meu sorriso!
Não farei igual — eu farei pior, pois!

Postado em frente aos portões
Encarno minhas contradições

Não digo ‘não’, senão, na ocasião
De negar o negador pra ser — afirmador...

Nunca diga:
“nunca diga nunca”

Diga:
Jamais me arrependi do dia em que nasci
E se alguém afirmar ter me ouvido falar
Qualquer coisa que talvez me contradiga
Como negar se amo até meus piores dias?!

domingo, 25 de dezembro de 2016

A Arte de Enganar

O cristianismo é uma fraude. Não me alongarei nesse ponto. O que me causa certo espanto é um tipo como C. G. Jung declarar as palavras do "nosso Senhor", e o cristianismo de modo geral, algo como "a mais completa constelação de signos que a humanidade já produziu" (em algum lugar dos "Arquétipos do Inconsciente Coletivo"). Nietzsche, mais honesto e infinitamente superior àquele, curado da doença cristã, declara que é uma simples questão de gosto, disposição pessoal, a tendência à esta ou aquela filosofia/modo de pensar, etc. etc., que a razão é um instinto — o primeiro a declará-lo — como um outro instinto qualquer, desenvolvido para a sobrevivência desta ou daquela variação da espécie. Donde se depreende que há uma inescapável hierarquia da inteligência na humanidade... Hoje sabemos: a psicologia é também uma fraude. Uma astrologia pós-científica, uma mentira bem contada. Ou, mais precisa e honestamente, uma arte de enganar. Todavia, não é dada a essa arte de interpretação de símbolos ser para "qualquer um". Para o rebanho, a grande massa de miseráveis distraídos, não é preciso psicologia: há milênios possuem o cristianismo. Como disse, há uma inescapável hierarquia da inteligência...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Paráfrase IV

De intrigas na era da hiperconexão — e também da vida...:
"Radfem e Bolsomina — vuol bastone!"

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

De Pé, Em Frente e Ao Alto

O PT cumpriu sua função na história — castrar e domesticar a classe trabalhadora: os comunistas até hoje inspiram medo, era preciso uma esquerda comprometida com a democracia burguesa, com as regras do jogo, para satisfazer uma militância de nervos cansados de tanto apanhar nos porões da ditadura. Os governos do PT foram tímidos passos rumo a uma institucionalidade impotente e tombou, ao fim e ao cabo, pelos limites da própria estratégia. Mas que a natureza produz um ser humano com a potência da Dilma, para funcionar sob pressão, quando ela vira diamante — deve ser esse o galardão dos torturados... — num acaso muito feliz e raro, isso me parece evidente.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Textãozinho

Esse pessoal que foi para as Olimpíadas, confundindo "protestar com aparecer", não entendeu que ali não é lugar de protesto; que, nestes tempos, o único "lugar" de protesto é — o facebook!

É importante ter sua opinião, mais ou menos flexível, mais ou menos infundada, sobre tudo desde que ela não seja vista, não incomode, não sirva para nada.

Será que eles não conhecem o conceito de "textão"?

Já que lugar de prostesto é no facebook, não nos estádios, complete:

_o_a
_e_e_!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Nas Olimpíadas da Morte

Quem disse me amar, ainda que cônscio dos meus defeitos e falhas de caráter;

Sabendo que, nas Olimpíadas da Morte — quem chega primeiro ao Hades — eu sei de cór toda a W3 Norte;

E, ainda assim, se cala diante de mim,

Como poderia eu perdoá-lo?

Melhor seria odiar-me, me pareceria mais honesto. Talvez, assim, eu mesmo pudesse perdoar — a mim mesmo.

Apolo Para Todos, Dionísio Para Poucos

Isto é apenas um mosaico de pixels em uma tela de led: como mobiliza em mim tantos afetos represados?

Que é essa experiência da imagem perfeita, do supra-sumo da visão? Que é, senão, uma prisão?

A quem interessa Apolo para todos, Dionísio para poucos?

Dionísio: a transcendência da experiência objetiva, a profunda imanência do ser, o mergulho em si, o indizível, o sentir e o sentido das coisas?

"Tudo será como é e sempre foi" — Mas é preciso que seja assim?

Uma Dose de Veneno

Por que o álcool é a droga legal mais potente de todas, talvez até mesmo mais potente que as ilegais?

Porque é a única que desata o nó que amarra as lágrimas contidas pelo esforço civilizatório — Dionísio vem nos dizer: conhece-te a ti mesmo, desgraçado! — e, portanto, é a droga dos impotentes, dos falhados, dos equivocados de toda espécie. Somente a partir do vinho foi possível a civilização!

Somente o álcool nos permite, desavergonhadamente, chorar copiosamente. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Tudo Será Como É e Sempre Foi

Há uma página no facebook que a esta altura todos devem conhecer: a Filosofia Moderna. Há isca mais poderosa para a captura e mobilização dos afetos alegres do que o humor?! Zaratustra diria: "Aprendei a rir de vós mesmos, homens superiores!". E de um riso quase sempre e desde sempre nos salta uma verdade... As mulheres vividas bem sabem que estas pequenas verdades devem ter tapadas suas bocas, pois, gritam como uma criancinha. Aqui vemos uma jocosa conjectura acerca da origem do pensamento do "eterno retorno":




Nunca falei dela aqui, da minha senhora? Ah! Chamo-a de..: a minha trágica identificação com Nietzsche!

É publicamente notória sua frustração afetiva em relação às mulheres, todos os arroubos anti-feministas, para dizer o mínimo, do "Além do Bem e Do Mal" estão aí para atestá-la. E sabe-se que ele arrastou um bonde por uma intelectual feminista russa apelidada de Lou Salomé. Porém, como diz minha mãe, "coração é terra em que ninguém pisa", ela partiu com Paul Reé, amigo de ambos, deixando abandonado em algum lugar da Itália um Nietzsche de saúde claudicante. Esse ventre luminoso pariria Zaratustra logo em seguida, mas isso já é outra história...

A grande sacada da figura acima — onde habita o meu senso de humor... — é a resposta da senhorita à investida do Frederico: com uma frase digna de legenda de foto de um flogão-daquela-colega-piriguete-que-todo-mundo-pegou-em-2005, e que depois, desassistida pela mãe, pelos psicanalistas, pela igreja, pelo cristianismo, por fim até mesmo pela razão, apenas pôde encontrar consolo novamente naquilo que chamam de "feminismo radical"...

O outro lance de humor? Ah, o "instante imenso" que só quem já ardeu de paixão por uma feminista radical pôde experimentar — quem quer que não o tenha vivido não entendeu, não entende e nem poderá vir a entender nada de "eterno retorno"! Ora, foi isso, a vida? Muito bem, mais uma vez! E por mais incontáveis vezes! Que importa se malograstes? Ainda não aprendeu o riso de Zaratustra?

E por fim,

"Serão novos amigos da "verdade" esses filósofos vindouros? Muito provavelmente: pois até agora todos os filósofos amaram suas verdades. Mas com certeza não serão dogmáticos. Ofenderia seu orgulho, e também seu gosto, se a sua verdade fosse tida como verdade para todos: o que sempre foi, até hoje, desejo e sentido oculto de todas as aspirações dogmáticas. "Meu juízo é meu juízo: dificilmente um outro tem direito a ele" — poderia dizer um tal filósofo do futuro. É preciso livrar-se do mau gosto de querer estar de acordo com muitos. "Bem" não é mais bem, quando aparece na boca do vizinho. E como poderia haver um "bem comum"? O termo se contradiz: o que pode ser comum sempre terá pouco valor. Em última instância, será como é e sempre foi: as grandes coisas para os grandes, os abismos para os profundos, as branduras e tremores para os sutis e, em resumo, as coisas raras para os raros."

[Nietzsche, ABM, 43.]

domingo, 31 de julho de 2016

Iñaron Na Prova do Itamaraty

Tu, que fizeste a prova do Itamaraty hoje, honrado concorrente, e que chegaste até aqui, conheças meu Iñaron e faça bom proveito!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Sangue de Barata

Ainda lembro que o Ciro deu susto no PT em 2002... 14 anos depois, cá estamos, não no mesmo impasse político de sempre — talvez no pior de todos...

Mas, no Brasil é assim: é preciso ter sangue de barata para ser levado a sério... pelas baratas.

Não pode se indignar, agir politicamente de forma assertiva, isso não convém à moral das baratas e dos ratos. "O bom e justo dopa a si mesmo, se necessário for, para se calar e aturar a ordem das coisas": assim reza a cartilha das baratas.

Eu, que não tenho pelas baratas outra coisa que não aversão, supero o asco que me inspiram para elas — esmagar!, simpatizo, sim, pelo Ciro, nem tanto pelo que ele é, vejam bem!, mas pelo que eu sou.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Feministo, Um Novo Eunuco

Há, na fauna da novíssima política em rede, uma espécie de homem degenerado, decadente, cristão-novo convertido à igreja do feminismo radical, de cuja liturgia participa tão subalterno quanto uma noviça ou freira qualquer são subalternas na hierarquia do cristianismo: o feministo. Este homem se entrega ao autoflagelo e prega a abstinência do raciocínio, do embate entre racionalidades — a racionalidade, já o descobrira Nietzsche, é apenas uma máscara para um estado do espírito — entre seus pares: "Não vamos opinar/pautar/dizer o que é o feminismo"; "Não vamos roubar o protagonismo [feminismo de novela...] das mulheres"; "Não vamos nos esquecer de nossos privilégios [a nossa "culpa"...] enquanto homens"; "Quem sabe assim nos sobrarão algumas bucetas!", diria um bocudo mais honesto dentre eles... É um reforçador de interditos, um negador.

São os novos eunucos: eram uns brutos, em gestos e em espírito, desde sempre ofendendo uma humanidade superior mais refinada, e para não perderem o direito à existência, foram castrados, docilizados, e agora pregam para seus pares — úteis, enfim, para algo, ainda que para a domesticação de bestas...

Eu, que conheço nesta espécie de homem a minha mais irrefutável antítese, pergunto, pois: Eu não posso falar sobre o feminismo? "Da mulher só se deve falar ao homem" e Zaratustra estava certo; mais certo porém, estava a senhora que o encontrou: "Vais ter com mulheres? Preparas o açoite!" — Pois, eu sei o que é o feminismo; eu sei o que é isso que se chama assim de "feminismo radical": uma racionalização do ressentimento mais venenoso: 

"Eu me sinto mal comigo mesma e com a vida, mas uma constelação de complexos de vergonha e culpa me impedem de assumir para mim mesma diante do espelho que eu sou o fruto daquilo que eu me permiti fazer e que se fizesse comigo no inesgotável acaso da experiência do mundo e, então, um copo d'água vira um furacão! Não! Algo [o "patriarcado", um Grande Outro ameaçador] além de mim deve ser responsável por que eu sofra! Alguém [os homens, esses "estupradores em potencial"] deve pagar pelo meu sofrimento!" — Nuvem de fumaça e vingança: últimos consolos para os fracos, combalidos. E há tanta confusão aí! Como um corpo quando, em reação imunológica explosiva, ataca a si mesmo, o que se chama de alergia.

E muitas destas pessoas diriam desavergonhadamente:

"Tenho alergia a homem!" — e os feministos latem: au!
"Todo homem é um estuprador em potencial!" — e os feministos latem: au!
"Não gosto de feminismo que dá biscoito pra macho!" — e os feministos latem: au!
"Homem falando de feminismo, silenciamento: tá tendo!" — e os feministos latem: au!

O feministo, este novo eunuco, não é apenas um homem tornado fraco; é, pior ainda, um homem, no fundo, ruim e por isso devemos dele tomar distância — equidistantes às feministas radicais —, nós os superiores, pois, eles subscrevem a lógica perversa do ressentimento feminino — por pura concupiscência! 

A: Todo homem é um estuprador em potencial, pois, se uma mulher e um homem estiverem sozinhos numa rua à noite, o homem tem o potencial para estuprá-la.

B: Como assim "potencial"?

A: Tem a capacidade, a potência, o falo e a força necessária para estuprá-la, se quiser!

B: Todo homem, em absoluto?

A: Claro! Todo homem!

B: Eu, particularmente, não gosto de encontrar estranhos nas minhas caminhadas noturnas, sou ciumento da luz da lua nas mais altas madrugadas das noites mais estreladas. E que interesse eu teria em atacar uma pessoa indefesa desconhecida na madrugada? Quem, a partir de uma experiência subjetiva, contempla e concorda com esta tese só pode ser um monstro... e merece mesmo a sua pregação. Mas eu não.

A: Mas, se você quisesse, você poderia violentar qualquer mulher nesse contexto!

B: Qualquer mulher, em absoluto? E se eu fosse um homem ao contrário do que sou, a saber, angular de corpo e alma; um fracote contra uma mulher que tem domínio da sua força física e inteligência cinética suficiente para dominar as artes marciais? Que "potência" eu teria?

A: Mas a mulher teria medo mesmo assim!

B: Quaisquer estranhos, que desconhecem as intenções um do outro, se temeriam nesse contexto. O que pode pressupor a prevalência da violência por parte do homem são os arranjos dos papéis de gênero estruturais na sociedade — em um outro espaço e um outro tempo, o homem poderia ser um nobre cavaleiro e a mulher uma donzela vulnerável prestes a ser resgatada... não se pode olhar a história das relações sociais com as lentes opacas dos ideais modernos.

A: Mas você não é um fracote, você é um forte!

B: Então eu teria que ser fraco, para não inspirar medo em mulherzinhas indefesas ou em homens covardes? É este o ponto em que você quer chegar, te adivinho: quer, com sua moral, que eu abdique da força! E, além do mais, ao contrário do preconceito dos fracos, a potência não prescinde da vontade. Você diz que eu tenho potência para estuprá-la, se quisesse — mas, apenas querendo eu posso poder! Não há que se falar em potência sem querer!

Enfim, o que é o feminismo? A marcha inexorável da história da civilização ocidental a partir das reestruturações das bases da economia, da reprodução material da sociedade — onde não há mais espaço para papéis de gênero ou divisão sexual do trabalho. Neste sentido, o futuro será "tentador", e mesmo essa definição é uma tentativa e uma tentação... Como dissera a velha a Zaratustra: "Disseste muitas coisas bonitas sobre as mulheres, apesar de pouco conhecê-las. Será por que para as mulheres tudo é possível?"

sábado, 18 de junho de 2016

Crespúsculo de Algo

Uma gente deveria ter sua inteligência medida pela complexidade rítmica da sua música — ocupando os europeus/ocidentais, com a vulgaridade do seu 4x4, a mais baixa posição na hierarquia dos povos.

Não seria possível arte sem alguma espécie de embriaguez — arte: aquelas fantasias apolíneas/dionisíacas que imprimem sentido à vida —; sem música, a vida seria um erro, portanto: sem alguma espécie de embriaguez dos sentidos, que acerto haveria na vida humana sobre a Terra?

Que nos embriaguemos de arte!

terça-feira, 14 de junho de 2016

Por Saúde

Por uma questão de saúde, de grande saúde: nunca abrir mão de uma vingança. Muitas pequenas vinganças são sinal de doença: uma grande vingança, sinal de saúde.