domingo, 18 de outubro de 2015

Estética e Ideologia: Uma Digressão Sobre Mim Mesmo

Ontem à noite assisti ao "O Guia Pervertido da Ideologia", filme de Žižek com direção de Sophie Fiennes.

Ao longo de todo o documentário ele tece comentários sobre a forma, a estética como uma mensagem em si mesma - "pré ideológica" -, apesar do discurso que lhe traduz em ideologia. Citou a 9º sinfonia de Beethoven, que foi e é usada por todo mundo: dos nazistas aos democratas cristãos; dos comunistas aos democratas, em diversos contextos, como "pacote" de sua ideologia.

Outra ideia que me chamou atenção foi à referência ao "Grande Outro", uma instituição que atua sobre a psique de forma autoritária, impositiva, para a qual nós devemos prestar contas, nos justificar, nos confessar, que nos redime ou nos condena, etc. Todavia, ele, como psicanalista, coloca que essa instituição, objetivamente, não existe - somos nós, com nossas necessidades psicológicas, nossas fraquezas, dúvidas, dificuldades em afirmar nossas vontades que a criamos.

Para o Žižek, a grande mensagem do próprio Cristo crucificado foi essa: "Meu Deus, por que me abandonaste?", dentre outras referências ao Livro de Jó e às falas de Jesus. O que o leva, Žižek, a afirmar que apenas através do Cristo é possível criar-se um legítimo ateu - isto é: alguém que afirma a inexistência de uma instituição maior do que nós mesmos, que impere sobre nossas vontades e escolhas. Em contraposição aos "ateus crentes", que negam o mito religioso, mas elegem outros elementos para ocupar o espaço do "Grande Outro": a evolução, a ciência, etc. - ou seja, uma visão 'desistoricizada' da crítica à religião, que não percebe que o mito existiu apenas para cumprir essa função psicológica, etc. O que se aproxima da ideia Nietzscheana de que "Deus está morto e fomos nós que o matamos!", de um deus enquanto um "imperador dos desejos", ser inaceitável na modernidade, etc. Não é novidade pra ninguém que o edifício milenar erigido pela Igreja Católica - e reformado pelos protestantes - guarda a mínima relação com a figura mítica de Jesus Cristo, propriamente. Inclusive, eu, que nunca tive uma educação religiosa formal, só pude ter alguma simpatia pela figura de Jesus, o Cristo, a partir das considerações duais de Nietzsche ("o mais nobre dos Judeus", em algum lugar do "Humano, Demasiado Humano", 1877). Mas não é sobre isso que quero falar aqui.

Há uma belíssima passagem do "Gaia Ciência" (1882): "Que são essas igrejas senão túmulos e monumentos fúnebres de deus?" Isso vai dialogar com a minha digressão a partir daqui.

Como vocês já devem saber, eu sou um artista muito antes de ser professor - e talvez até por isso eu exerça essa que é uma profissão cênica, fundamentalmente. Ao longo de 2013, minhas experiências pessoais foram projetadas para além de mim numa porção de músicas que juntei no álbum abaixo. É um conjunto de 10 canções carregadas de teclados sombrios; de canto sussurrado; um ou outro momento de gritos e de guitarras distorcidas; de cores escuras escolhidas para a arte do álbum; e - vejam só! - uma referência à canção "Infância na Cidade de Goiás" na foto da Igreja Matriz da cidade, que a gente havia tirado em uma das últimas viagens para lá.

Pois bem: este é o "invólucro" estético da minha mensagem, que não vem ao caso aqui. Como compositor amador - quero dizer: objetivamente, alguém que não domina conscientemente a psicoacústica, não possui estudo formal de composição, etc. -, essas escolhas estéticas são feitas inconscientemente. Eu estava consciente de que passava por uma depressão profunda, mas esses elementos não ficavam claros na hora de compor. O que quero dizer é: eu estava imerso na minha ideologia - tateando as paredes de um quarto escuro.

Refletindo sobre as colocações do Zizek, eu tive um insight luminoso, que me aterrorizou madrugada a dentro: nesse álbum eu estava realizando um funeral do meu "Grande Outro". Todos os elementos estéticos apontam para isso: a escuridão, a sobriedade, os teclados monocórdicos, as dissonâncias, os gritos de horror pela morte de um ente tão querido - a primeira faixa eu intitulei "Boa Morte"! Eu estava lamentando a percepção do meu inconsciente de que ele é, fundamentalmente "órfão e ateu" (li isso em alguma postagem do Bruno Cava, acho que sobre o curso do Anti-Édipo).

Há um outro aforismo interessantíssimo do "Opiniões e Sentenças Diversas" (1878) em que Nietzsche - que percebia a ideologia da forma estética, isso se vê em cada aforismo seu de crítica artística - comenta do uso póstumo da obra de Beethoven:
"A execução realmente "histórica" falaria de modo espectral para espectros. - Honramos os grandes artistas do passado não mediante o estéril receio que deixa cada palavra, cada nota exatamente como foram colocadas, mas por ativos esforços em ajudá-los a repetidamente voltar à vida. - É certo que, se imaginarmos Beethoven retornando subitamente e presenciando uma de suas obras na mais moderna forma de animação e refinamento nervoso, que contribui para a fama de nossos mestres de execução, ele provavelmente ficaria mudo por um bom tempo, hesitando se deveria erguer a mão para amaldiçoar ou para bendizer, mas talvez falasse, por fim: "Bem, isto não sou eu nem deixa de ser eu, é uma terceira coisa - também me parece algo certo, embora não o certo. Mas atentem vocês para o que fazer, já que vocês é que têm de ouvi-lo - e quem está vivo tem razão, como diz nosso Schiller. Então tenham razão e me deixem voltar para baixo". (Aforismo 126, "Arte do Passado e Alma do Presente")

Com o "Aeternum Phoenix", eu lancei um pacote ideológico em que lamentava a morte dos meus ditadores internos: o que só pode ser louvável se tomarmos um caminho de celebração por essa morte. Foi o que fiz no próprio álbum de 2013, no vigésimo minuto de "Phoenix Flight": "Cantei as canções que quis, lancei-me assim aos céus/Nas alturas fui feliz rasgando todo véu"; e em 2014 com o "Além de Mim", a minha mais elevada forma de júbilo na percepção dessa liberdade de espírito. No começo desse ano fiz o Iñaron, que tem um sentimento um tanto diverso do anterior; é muito recente, não me sinto em condições ainda de refletir sobre ele, mas é, sem dúvida, um ponto de desenvolvimento geral da minha estética.

Como o
Žižek deixa claro no início do filme, libertar-se da ideologia dói, fere. Quem se apavorar diante dessa dor apegar-se-á à ideologia violentamente até o último espasmo dos nervos! De onde vem a força terrível para assassinar o monstro mentiroso que sustenta nossa ideologia e superar-se a si mesmo, afirmando a própria vontade? Como artista solitário e orgulhoso que sou, devo guardar meus segredos para a posteridade. Mas deixo uma dica: leiam o Zaratustra!

PS.:
A quem interessar possa - a trilogia dos álbuns de 2013/14/15:

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Zelar Pela Abundância Sem Errar Pelo Excesso

Demorei quatro noites para digerir a refeição pesada em que me foram servidos meus afetos tristes, meus desejos incontidos, minhas frustrações; a mim mesmo, enfim.
Lembrei-me de um aforismo de "Aurora": tudo que é bom surge com má-consciência, pois é novo, ataca a tradição e por ela é atacado com ferocidade.
Pois bem: pendurei por sobre minha cabeça a minha própria lei; viver conforme a minha própria vontade, depurando-a.
Foram quatro noites em que minha autoestima duelava com minha autocrítica nas alturas - onde estão sempre, em camadas da atmosfera em que o oxigênio torna-se rarefeito. É bem difícil pensar muito na falta de ar: bem o sabem os que estão se afogando; dependurados na encosta de uma altíssima montanha; em uma aeronave despressurizadas; é preciso a sorte de ter a ideia certa o mais próximo possível de sua consciência e a força necessária para agarra-la.
Ambas, minha autoestima e minha autocrítica, possuem bastante fôlego.
Hoje tenho uma tarde leve; pois já carreguei umas tantas bem pesadas nas costas. Vou embora desse paraíso de volta pra minha nova casa, em cuja porta vou pendurar a insígnia dessa nova fase de minha vida: zelar pela abundância sem errar pelo excesso; ser muito e a cada dia mais; e ter somente aquilo que eu preciso, o que não é muito.

domingo, 11 de outubro de 2015

Para Uma Cura da Vontade


Vi uma imagem ainda há pouco que me causou um estranhamento profundo... De repente, me aterrorizava a questão: como pude elaborar durante tantos anos um tão terrível contorcionismo da vontade; envenenar e enturvar todas as fontes de onde brotam as minhas paixões? Talvez demore ainda muitos anos pra recuperar da atrofia a musculatura do meu desejo. 
Essa consciência meio ruim é mesmo um sinal de que preciso medir - mensurar, pra ser mais preciso - de novo todos os afetos que experimento. Dialogar com uma multidão em silêncio, romper o mais desolado deserto. Mergulhar profundamente em mim mesmo, ainda mais. 
Ainda hoje fui à praia do amor, onde o mar me oferece alguma resistência. Na falta de aparelhos de ginástica, quebrar ondas é um bom exercício de equilíbrio, de tônus abdominal, de fôlego. Ainda quero tentar exercitar minhas asas de chumbo, fazê-las me levar alto num vôo seguro. Todavia, não tenho tido oportunidades: minha vaidade tem se tornado a cada dia mais caprichosa; nem anseia mais se mostrar tanto! Os hodiernos me constrangem; meu orgulho, meu asseio, me impedem de dar um passo à frente. Sugestão? Dormir muito! 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Apetite

Que visão intranquila do paraíso! Que cena tragicômica: o demente vôo deste pássaro com asas plúmbeas! Permanecesse no solo qual pavão, que exibe tranquilamente suas virtudes sem precisar mostrar-se naquilo que não sabe fazer! Porém, aquilo que tenho demais humano, a minha vaidade, me compele a alçar vôos. Me ataca o orgulho: viver tendo asas e não as usar. Como todo exercício, a prática determina o domínio da fortuna, o horizonte de possibilidades de sucesso e fracasso. Melhor sorte na próxima!

Pois bem: farejamo-nos, permitimos que o nosso aroma fosse degustado, porém, não nos deleitamos no nosso banquete. Talvez a sua imperturbada aparência me fosse por demais suave: eu, quem gosto de comida apimentada; ou ainda parecido doce, num momento da vida em que meu paladar, mais do que ter se acostumado, pede pelo amargo. Talvez o meu furioso apetite lhe tenha sido percebido como ofensivo: não me permitiria saborear com a devida medida o seu enternecido sabor. O que devo dizer, não sem profundo pesar, ser uma dolorosa calúnia contra os meus sentidos. Talvez o cheiro de sangue parecesse-lhe por demais asqueroso, terrível, talvez fosse até vegetariana... - eu, que carrego navalhas pra cortar minha própria carne e ofertá-lá crua, temperada com ervas ressequidas. Como abrir o apetite de quem tem aversão ao cheiro de sangue?

Aquelas pessoas com quem convivo em Brasília - que me perdoem a honestidade - me causam nojo. O seu gosto de isopor, de comida congelada, conservada para muito além do prazo que a natureza daria a qualquer alimento saudável, me enoja. Os concurseiros, vergados ao falacioso único caminho possível, analfabetos para qualquer coisa além dos editais; pior: os concursados, como cadáveres conservados em formol, desfilando como múmias ansiando por vida eterna: como me nutrir de gente dessa espécie? Não sou um inseto: eles que reviram o lixo e de qualquer resto podre fazem seu alimento!

Não quero ser confundido com outra coisa que não um leão, uma serpente ou uma ave de rapina: uma soberana confiança de si, um profundo desprezo por aquilo que não lhe serve de alimento, uma espreita e um bote certeiro, um ritual que enobrece a sua refeição.

Foi isso a vida? Ótimo, mais outras várias vezes!

domingo, 4 de outubro de 2015

Questões Latentes Para Uma Hipergeografia

Nietzsche faz digressão convergente no "Humano, Demasiado Humano": para ele, enquanto persistir a força do mito religioso persistirá o mito que fundamenta o Estado enquanto forma de organização de determinado recorte do espaço; que legitima a castração, perseguição e neutralização daquilo que diverge do interesse da "sociedade" - um pacto entre "sócios" (eu não assinei nenhum contrato. E vocês?), etc, etc.

Não à toa ele dedica o livro aos "espíritos livres" e em homenagem a Voltaire, encampando a batalha ao lado dos iluministas.

Dialogando com a citação do Krishnamurti, o que é um "governo" - o Estado, melhor dizendo - senão uma hiper-empresa? Um corpo que superpõe outros corpos e organismos. Ou, porque uma empresa ou família ou qualquer espécie de organização social brasileira é diferente de uma chinesa?

Mais ainda: que espécie de organização do espaço determina um organismo transnacional - que opera com seus órgãos por sobre Estados-nacionais, nos seus interstícios? Como as corporações - e a ideologia corporativa - pode reproduzir-se nos mais diversos contextos geográficos?

Chamemos esse expediente de "imperialismo" por inquietude e falta de imaginação; por embasbacados que estamos dada a complexidade de tal arranjo de poder nos espaços. Todavia, é isso o que queremos fazer com os nossos corpos - adaptarmo-nos ao projeto político das corporações? Responder à pressão com nossos afetos negativos, regalando-nos na nossa impotência?


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Lascivo

Uma palavra a favor do mais mecânico amor-próprio: quanta alegria há em saber dar prazer a si mesmo! Quantas transas eu não trocaria hoje - de uma mais madura perspectiva - por uma paciente e caprichosa masturbação. Quanto sexo feito com sono, cansaço, embriaguez, vergonha, vaidade e tantos outros desenganos... quanto sexo mal-feito, desonrando o sentido da terra! Melhor seria não tê-lo feito! A honra, que nos é comum e perene, nos impedia de regalar-nos ante os outros com tais experiências desmedidas da luxúria. A honestidade para conosco nos embebia em má-consciência... Melhor seria ter ficado em casa aquele dia!

Bem sei como sentem-se os casados, ou os que estão juntos há longo termo, ou os que têm demasiada intimidade e já enfastiaram seu paladar do sacarino (e ludibrioso) "conhecerem-se um ao outro": são como cães num canil. Uns vulgares, em eterno cio; outros, desditosos, já castraram-se a si mesmos. Uns satisfazem-se com a ração que lhes é oferecida sempre, têm horizonte restrito e contentam-se com pouco, falta-lhes imaginação, talvez; outros tremem o corpo inteiro quando lhes farejam estranhos e, assim que podem, correm desesperados de volta para o seu refúgio, e depois ainda latem desdenhando do seu próprio desejo pelo desconhecido; outro ainda transborda de anseio, está salivando o tempo todo, sempre à procura de algo novo que satisfaça a sua furiosa luxúria, quer seja por um instante: noutro momento ela voltará ainda mais intensa. 

Um ladrão ardiloso que lançava peças de carnes nobres para distraí-lo a este último se aproveitava do momento fortuito para invadir aquela casa e furtar as joias ali guardadas, que por tanto tempo foram tidas como tesouro de família. Até que um dia não restara mais nada para roubar: foi se embora o ladrão e o cão, de hipertrofiado desejo devido à dieta a que fora posto, foge de casa em busca de novos sabores e texturas. Como apenas os cães, esses melhores amigos dos homens, sabem fazer, salta para fora do canil em que sua vontade e força eram meros instrumentos da vontade alheia e vai latir, uivar e revirar latas para satisfazer a sua própria, em um vir-a-ser cão selvagem.

Este é um grande signo da liberdade, que antecipa muitos outros.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Impotentes

Um pouco mais sobre aquele feminismo decadente, o feminismo ~pára-que-tá-feio~:

1. "Ele não quis desconstruir seus privilégios" - Significa: ele não quis ser meu escravo. 
2. "Ele está me silenciando" - Significa: ele expõe uma perspectiva divergente sobre o assunto. 
3. "Ele ignora minhas vivências" - Quer dizer: ele não fetichiza um suposto "dado empírico" para analisar uma teoria, uma ideia que justifique determinada perspectiva em determinado contexto. 
4. "Se ele tem problemas com a mãe, já é suspeito!" - Estão há alguns milênios atrás de Nietzsche, Freud, Foucault, Deleuze, Guattari e o Anti-Édipo... Ou então, no regime do patriarcado, não são as mulheres que educam as crianças e perpetuam a sua ideologia? O machismo - boo! - é, então, inato nos homens e daí segue-se uma ridícula misandria. Essa gente objetivamente atrai relacionamentos abusivos para confirmarem suas teses.

Este feminismo - um machismo envergonhado de si mesmo - é a desventura intelectual mais triste de nossos tempos! 
Está pareado com um certo movimento racial e de "defesa dos animais", quer seja o que isso signifique, todos guardando muita semelhança com os movimentos de afirmação do cristianismo primitivo. Evocam a culpa, a inação, a ireflexão, uma obediência a uma autoridade sacerdotal - no caso, as "mulheres" e suas "vivências". Na falta de outro melhor, digo-o eu mesmo: de nada adiantam "vivências" se não possuem "inteligências"!

São os insistentes grãos de poeira que grudam nas nossas botas, mas impotentes em parar a nossa marcha!

Nietzsche, Um Comunista

Ou - respeitando a memória de Nietzsche que rechaçaria qualquer rótulo (com toda a razão e não é essa a minha intenção) - porque sou um nietzscheano de esquerda

Em toda a sua obra, do "Humano, Demasiado Humano" (1878) a "O Anticristo" (1889), Nietzsche explicita diversas vezes o seu anti-socialismo. Ele capta nas sutilezas dos discursos e práticas socialistas 1) a apologia a um poder totalitário, centralizador; 2) afetos negativos - vingança, inveja, etc. - que denotavam impotência, o mal dos escravos; 3) e, de modo geral, equiparava os socialistas aos burgueses no âmbito da moral - disputavam ambos o mesmo campo de valores (sobre este aspecto, no início do "Aurora" [1881] há uma breve referência aos camaradas anarquistas). Os burgueses seriam os escravos que se rebelaram primeiro, seguidos no calcanhar pelo proletariado.

A despeito de diversos aforismos que se debruçam sobre estas questões, principalmente no livro de 1878, em toda a sua obra não há uma crítica, nem uma única palavra sequer acerca das ideias de Marx, o teórico que passa ao século seguinte como fundador do assim chamado socialismo científico - um silêncio ensurdecedor.

Aquele que sabe ler as pessoas percebe que, muitas vezes, quanto aquilo em que elas calam, elas mais falam. A proposta de tresvaloração dos valores de Nietzsche não me parece muito distante, objetivamente, da proposta de superação das dicotomias da sociedade burguesa - capital (burguesia) x trabalho (proletariado) - em Marx. Apesar de colocadas de formas diferentes, os horizontes delineados pelas duas perspectivas reservam-se similaridades. Nietzsche vem pelo debate ideal, isto é, moral; enquanto Marx pelo debate material, ou seja, econômico.

O problema do marxismo é que ele se assemelha a uma religião, com cisma do oriente e tudo o mais. Contra todo o senso comum que se apregoou ao longo do século passado nos círculos comunistas, o ideal marxiano - com a liberdade que me permito para interpretá-lo e criticar todo um século de lutas - é de superar aquela dicotomia a partir do proletariado, em um processo histórico - a "Revolução Comunista" - que depura essa classe, quando então, será abolido o trabalho, que é o núcleo do processo de gênese do capital - forma de relação entre as coisas e pessoas com objetivo de lucro, simplificadamente. Deste modo, não haveria mais proletariado enquanto classe - esta só existe em oposição à burguesia. A Revolução Comunista superaria as contradições entre burguesia e proletariado. Mais ainda e em outras palavras: sob o comunismo não existiria o proletariado. O ideal da "Ditadura do Proletariado" é uma interpretação que vem a ser encampada sem o menor pudor a partir de Lênin e a fundação do marxismo-leninismo, que ainda é levado a sério por algumas tarântulas perdidas por entre as estantes de bibliotecas empoeiradas...

Voltando à Nietzsche, para ele há ao longo da história a luta entre duas moralidades: a nobre e a escrava. De forma resumida, ele elogia todos os ideais nobres - força, beleza, inteligência, altivez, gratidão, etc. - enquanto desdenha dos ideais escravos - igualdade (identificada com igualitarismo, a supressão das singularidades), humildade (identificada com a mediocridade, a supressão do esforço de superação), etc. Na trilogia "Além do Bem e do Mal" (1886), "Genealogia da Moral" (1886) e "Crepúsculo dos Ídolos" (1887) ele certamente se aprofunda nestes temas, mas não posso comentá-los, pois, ainda não os li.

Em todo o caso, no "Ecce Homo" (1888) há várias passagens que sugerem que Nietzsche não era um conservador - justificador do status quo - ou mesmo um romântico - restaurador da ordem antiga -, mas que o seu elogio se dava à uma ideia de nobreza de caráter. A passagem sobre o "jovem príncipe" do I Reich a quem ele não daria o privilégio de lustrar suas botas é a que melhor ilustra esta interpretação. Há uma bela descrição do filósofo Epiteto - nascido escravo - no "Aurora" que, com determinada reverência, corrobora novamente com aquela visão. Todo leitor nietzscheano honesto sabe disso.

De modo que, para mim, quando Nietzsche nos falava do seu anti-socialismo não é preciso muito esforço para lembrar que o socialismo foi jogado na lama por muitos de seus partidários, o que nos acostumamos chamar de social-democracia. É só lembrar que temos no Brasil o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB, fundado a partir de uma dissidência da antiga UDN) que eu me declaro anti-socialista sem muito esforço. É reconhecer que as experiências comunistas do século XX - sem julgar moralmente a história, que é soberana - encontraram rapidamente os seus limites circunscritos dentro de si mesmas, e que não devem se repetir. Afinal, seria ou tragédia ou farsa. Para a construção do futuro em comum deverão ser forjados novos instrumentos a partir das práticas dentro das questões latentes da humanidade hoje e em cada recanto do mundo.

Sobre a despeitosa e absolutamente infundada associação entre Nietzsche e o nazismo, deixo um silêncio tumular sob o qual devem revirarem-se os restos mortais de sua irmã, aquela cidadã de bem, boa cristã, quem difamou o filósofo, editando canalhices postumamente e posando ao lado do Führer.

Até aqui - com as leituras do "Nascimento da Tragédia" (1872), "H, D H", "Aurora", "A Gaia Ciência" (1882), "Assim Falou Zaratustra" (1883-5), "Ecce Homo" (1888) e "O Anticristo" (1889) - podemos dizer com segurança - e alguma liberdade poética - que o esforço que Nietzsche fez, em vida, para que suas contribuições fossem reconhecidas levou-o à loucura. Um século ainda é muito pouco para fazer-lhe as devidas honras. Para quem não tem a digestão lenta, capaz de degradar longas cadeias de moléculas de nutrientes, não se recomenda sua leitura. Quem não tem a casca grossa, que não passe perto de sua retórica dilacerante!

Ambas as perspectivas, a do comunismo marxiano e a nietzscheana, são perspectivas para/de ação: a revolução e a tresvaloração. Que todo o esforço de inação, de refrear a reflexão, a crítica, a imaginação e a produção do novo sejam atropeladas pelo trem da história, pela potência da nossa vontade que se amplia! Nietzsche foi caminhando por entre montanhas e praias desertas; Marx por entre fábricas e vilas operárias... não importa mais: a globalização globalitarista ampliou forçosamente nossa superfície de contato. Não nos adianta mais reclamar sozinhos, sectários; de nada adianta ~o povo de humanas ir fazer miçanga~, os intelectuais escalarem suas Torres de Marfim, os corporativistas aparelharem seus sindicatos e reuniões de negociação à portas fechadas... estamos todos conectados numa rede de fluxos de valores - a evolução tecnopolítica do capital financeiro - contra a qual apenas a luta em comum pode fazer frente; para tanto, faz-se necessário um novo mapa desse espaço terrível - uma hipergeografia em que nos reconheçamos enquanto tal. Reconhecer-se em comum: o eterno retorno da diferença.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Hipergeografias: Alargadores do Mundo

1. Hoje, o que o mundo poderia ter a me dizer que não me faria ansiar por fazê-lo calar? Já nem me esforço por disfarçar o meu desprezo: o meu olhar de telescópio, todavia, é das poucas coisas que pode ampliar as pessoas pequenas, dada a acuidade da minha visão; também o que pode ver as estrelas e constelações em imagem mais aproximada de como elas são. A minha mão investigadora é o que pode elevar essas pessoas, ainda que uma brisa generosa possa carregá-las para longe de mim - grãos de poeira que são!
Como não me rir, com determinada circunspecção exercitada pelo espírito, do voluptuoso saltitar dessa gente; de seus gracejos e vaidades? Querem me alcançar e pensam que com isso, em algum momento e de alguma forma, podem me reduzir ao tamanho delas! Me rio! Contribuo para trazer alguma alegria ao mundo, o que enobrece.
2. Há muito tem sido dito, não sem um espanto de quem descobriu uma ruga no espelho, que a tecnologia diminuiu o mundo. Como pode isso? Se é que algo nesse sentido pode ser dito é que a tecnologia nos ajuda a enxergar o mundo do tamanho que ele é e, talvez, sempre fora! Mas esse mundo, pequeno e desprezível, deve ser superado. Não há espanto que basta para essa empreitada. Que as tecnologias - os novos olhos, mãos, ouvidos e bocas para dizer, ver, ouvir e criar o novo - nos permitam perceber os recantos ainda inexplorados, os possíveis rearranjos das coisas no espaço - e do espaço nas coisas, um outro tempo -, um horizonte de possibilidades que alarga o mundo, enfim.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

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É incrível como eu erro, vírgulas!

É banal, eu sei.

Tento sempre estar atento. É questão muito mais de atenção do que técnica, a meu ver.

Todos podem conferir aqui n'O Verso lá no Verso.


OBS.: Rascunho de postagem de 2010 recuperada hoje.

O Primeiro Filho

Durante milênios o poder de uma casta patriarcal era passado do pai ao filho primogênito e com ele as propriedades, demais benefícios econômicos, prestígio social, etc. Até muito recentemente, esse protocolo estava previsto no nosso sistema jurídico, fundamentado em práticas sociais tão antigas quanto legitimadas. Com o declínio das famílias patriarcais, que foram minguando ao longo das últimas décadas acompanhando o ritmo das transformações econômicas da população com a industrialização, o primeiro filho perde aqueles privilégios.

Hoje, entre as famílias hodiernas, os primeiros filhos e filhas - as mulheres, talvez, pelo hábito da forçosa submissão à família/marido, ainda mais - experimentam quase sempre afetos negativos do peso do mundo carregado pelos pais.
Os pais quase sempre querem castigar o filho por ele fazê-los carregar tanto peso e sempre lhe jogam na cara, com ódio, que o mundo é pesado! Quando o seu segundo filho vem logo, não se diferencia em muito o tratamento... Ambos os irmãos experimentam a vergonha de fazer o mundo pesar por sobre as costas dos pais - talvez o mais velho sinta-a mais. E em toda a sua experiência no mundo economizarão sempre a sua vontade, pra não correrem o risco de serem percebidos pela sociedade como mais peso - que recairia nas costas dos pais e, por fim, em mais raiva contra eles mesmos. Pois, a vergonha é o afeto mais venenoso.
Quando é o caso do segundo filho tardar, o primeiro experimenta a culpa dos pais pelo peso do mundo. Afinal, pela sua lógica, carregar parte do peso, contribuindo para cuidar do irmão ou irmã, diminui a sua vergonha ante os pais. E em tudo o que fizer irá sempre empenhar a sua servitude, aguardando o reconhecimento dos pais - o que, supostamente, lhe daria a liberdade da vontade... A servidão nesse caso é o hábito mais venenoso.

Já aqui temos um pai tal qual Atlas: não é o mundo, mas o universo inteiro que pesa por sobre suas costas e ele sabe que é esse o preço que se paga por aplicar na vida a sua vontade. Portanto, o afeto que o mobiliza é o orgulho. Nos seus filhos, que serão frutos de um profundo amor-próprio, quererá sempre a pureza da vontade: não irá querer castrar nenhuma pulsão, por mais inconveniente que seja, sob a ótica do trabalhador-40-horas-por-semana, dormir com a casa em desordem - brinquedos espalhados, louça por lavar, etc. Sempre que puder transmitirá aos filhos o seu orgulho e os fará brincar com o peso do mundo sobre as costas, pois, assim, crescerá nos filhos a força - a força da vontade em efetivar-se a si mesma, a potência! Neste sentido, propiciará que o gérmen da autonomia brote e gere seus próprios frutos e flores. Não espera nada de seus filhos - nem que eles compartilhem do peso sobre suas costas, nem que eles se envergonhem dele, por vaidade venenosa... -, pois, quer apenas dar-lhes seu amor... O amor nunca quer nada em troca. Abençoados sejam os filhos de tais forças!

 

Mas e se fomos bombardeados de afetos tristes desde sempre, o que fazer? Nada que uma dieta equilibrada e exercícios físicos não possam ajudar, como suporte de um projeto de vida, com objetivo sempre de ampliar a nossa potência de vontade. Lembrando que, tal como o álcool deve ser evitado com frequência, existem pessoas tóxicas, que a prudência nos recomenda manter distância. Se as circunstâncias não nos permitem a absoluta extirpação de determinadas pessoas do nosso convívio, estabeleçamos uma relação o mais independente possível, sem descargas de ainda mais afetos tristes. Talvez até por isso foram criados o dia das mães e o dia dos pais!

Os Afetos e A Dieta

"O que eu como à prato pleno bem pode ser o seu veneno" [Raul Seixas, "Eu Sou Egoísta"]

Não há nada no âmbito dos nossos afetos que não possa ser debelado, gerido ou estimulado a partir da nossa dieta. 
Uma dieta de proteínas nos torna inequivocamente fortes. Em excesso, todavia, podemos desenvolver problemas renais, ou seja, nos tornamos impossibilitados de filtrar o nosso próprio sangue
Uma dieta de gorduras nos torna resilientes. Em excesso, nos torna passivos, obesos, impotentes.
Uma dieta de açúcares nos torna sensíveis. Em excesso, nos torna afetados, atrapalhando a nossa percepção e potência de ação.

É preciso o equilíbrio de tudo. E não basta um equilíbrio qualquer, tem que ser o equilíbrio adequado a cada corpo. 

Aquele sintetiza suas proteínas facilmente a partir de várias fontes e os açúcares e gorduras quase lhe passam ao largo devido ao seu metabolismo. Logo, comer carne lhe parecerá desnecessário, ou até mesmo violento. Para tal, o vegetarianismo talvez seja um bom fundamento ético auto-afirmativo. 

Este transforma rapidamente açúcares em gorduras e todas elas tornam-se, pelo seu metabolismo, em inconveniente tecido adiposo; enquanto apenas a partir das carnes consegue sintetizar suas proteínas. Para tal, recomenda-se cautela na ingestão daqueles primeiros nutrientes e a sua compensação pelo último.

E quanto a mim: a única imoralidade em comer carne é não ter sido eu mesmo quem caçou, matou, moeu, e cortou; dependendo para tanto de uma fria, mecanizada economia dos covardes.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ode à Islândia

A humanidade não pode caber numa ilha de gelo... Logo, dali ela pode transbordar!

Alguns povos fizeram uma curva ali atrás, tomando o caminho do desmantelamento da ditadura financeira, colocando a economia em função das necessidades da população, como o fez o povo Islandês - que colocou na cadeia, não os excluídos, como nós fazemos no Brasil; mas os banqueiros que quebraram o país uns anos atrás.

Podemos chegar em um nível de civilização semelhante: basta-nos apenas dar um pequeno passo por vez, mas sem parar de caminhar!

Há 13 anos ouvimos o petismo bradar "nunca antes na história desse país blá-blá-blá...": eles pararam de caminhar. Resolveram sentar no meio da estrada, se aliando com o que há de mais atrasado na nossa sociedade, empacando a marcha da história...

Certas ações não ganham tanta publicidade porque a mídia do mundo é paga pelos bancos, claro. Mas quase sempre, porque é incontível aquilo que é honesto, conseguem furar o bloqueio e pular o muro da desinformação que nos cerca.

Como o povo da Islândia, basta-nos, não apenas reagir contra o que nos afeta nos tornando impotentes, mas agir para criar bons afetos, exercitando e ampliando a nossa potência!

Hoje me junto à humanidade em devir, com essa imagem emoldurada na consciência, que abre as portas de sua casa para receber os povos escolhidos pela guerra e miséria econômica; essa gente que hoje entra em combustão para aquecer os motores do doentio mundo ocidental, mas que não é preciso que seja assim.

Hoje sentamos à beira da praia juntos, eu e o futuro inteiro, chorando de esperança.

domingo, 30 de agosto de 2015

Posfácio - "O Anticristo"

"O Anti-Cristo" é o último livro de Nietzsche lúcido. A loucura de Nietzsche não deveria ser tomada como um depreciador de sua obra (talvez até o contrário...), pois, ali estão algumas das suas mais importantes contribuições ao pensamento, ideias, achados sobre a nossa "civilização":

1. Como o cristianismo - este edifício milenar de práticas sociais inversamente proporcionais aos ensinamentos daquele rebelde, criminoso político que morreu na cruz, o assim chamado Jesus... - é a última consequência do judaísmo, não o seu contrário, como se supunha em tese. Todas as manchetes do jornalismo ocidental sobre a questão da Palestina corroboram com essa visão. E muitíssimos outros aspectos do presente também, como o apego dos evangélicos ao antigo testamento (um livro judeu) e as suas passagens moralistas, só pra tomar um outro exemplo.

2. As semelhanças entre a rebeldia da figura de Jesus (e do cristianismo primitivo, de modo geral) com a dos socialistas do século XIX, de modo geral - o discurso de moral dualista (bem x mal), a pregação da revanche (ainda que apenas nos céus!) e suas inúmeras implicações nas práticas sociais; em uma expressão nietzscheana: a excitação dos escravos; a exaltação de tudo aquilo que é fraco, que não tem força pra sustentar a si mesmo, a própria vontade... (Nem por isso o antisocialismo de nietzsche deveria afastar a sua leitura dos intelectos inquietos, de esquerda... Exatamente o contrário, pois, todas as críticas de Nietzsche aos socialistas são válidas, nobres, e atestadas pela história do século passado)

3. A análise, em símbolos, da conquista dos povos bárbaros; do caminho de destruição das culturas pagãs dos povos tribais da europa trilhado pelo cristianismo na sua peregrinação de Jerusalém à Roma, um ensaio do assassínio, exploração e escravização das culturas não-cristãs de todo o mundo ao longo dos últimos cinco séculos.

O arranjo presente das coisas no mundo - e do mundo nas coisas - é a última consequência do cristianismo, ou da cultura ocidental, ou do capitalismo, como quer que chamemos este verme que nos rói por dentro.

Pagamos um preço muito alto para vivermos nesse presente horrível, meras peças na engrenagem de uma economia financeira, embuste de produção de valor em que quem vale mais é quem mais possui.

Todavia, não há preço alto o suficiente a pagar para sermos honestos, genuínos, singulares, reverberando a dissonância que vibra no mais profundo de nós mesmos.

"Em meus filhos quero superar o ser filho de meus pais e em todo o futuro este presente!" (Nietzsche em "Assim Falou Zaratustra")

"Antes dever do que pagar com uma moeda cunhada com uma imagem que não é a nossa!" (Nietzsche em "A Gaia Ciência")

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pouco Espinoza, Muito Espinho

1. A: Você gosta de Los Hermanos?

B: Hum... não é minha praia, não posso dizer que gosto... [Desde já rindo um riso de autoironia pela inadequação do discurso - quase afetação, contudo, espontâneo] Não me mobiliza afetos alegres! 

A: kkkkk! 

2. Eu que nunca li diretamente Espinoza, apreendi muito de seu sistema filosófico colateralmente - Nietzsche e leituras menores em blogs e afins. E que nunca gostei mesmo de Los Hermanos. A não ser quando figurava Mariana Ximenes no seu videoclipe de "Ana Júlia" - apreciação que, todavia, nada tinha a ver com a sua música, evidentemente.

sábado, 22 de agosto de 2015

Aforismos 114 e 119 - Aurora

"O estado de alma dos homens enfermos , a quem o sofrimento tortura por muito tempo e horrivelmente, e que, apesar disto, não lhe obscurece a razão, não deixa de ter valor para o conhecimento, abstração feita dos benefícios intelectuais que toda profunda solidão, toda libertação repentina e lícita dos deveres e dos hábitos trazem consigo. O gravemente enfermo, encerrado de certo modo em seu sofrimento, lança um olhar glacial fora de si, sobre as coisas: todos estes pequenos encantamentos embusteiros que movem geralmente as coisas, quando o olhar do homem saudável se detém nelas, desaparecem para ele: ele mesmo se vê inclinado ante si mesmo sem brilho e sem cores. No caso em que tenha vivido até então em uma espécie de visão perigosa, esse supremo desencanto pela dor será o meio de se libertar dela, talvez o único meio.
[...]
Mas sentimo-nos confortados ao ver as luzes temperadas da vida e ao sair daquela luz terrivelmente crua, sob a qual sofríamos, víamos as coisas, olhávamos através das coisas.
Não nos encolerizamos se a magia da saúde torna a começar seu jogo; contemplamos este espetáculo como se estivéssemos transformados, benévolos e fatigados ainda. Neste estado não se pode ouvir música sem chorar." 

(Nietzsche, "Aurora", excerto do aforismo 114).

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Personalidade do Texto

Ainda ontem, na minha autoentrevista, comentei que a estética de um texto é uma forma de revelar a personalidade daquele que escreve. Hoje, leio que já desenvolveram softwares que interpretam nossa personalidade a partir de nosso texto.

Basta um texto com mais de 100 palavras, em inglês ou espanhol, para uma análise androide. Movido por uma curiosidade incontida, colei a letra da canção "The Convalescent" e o software me analisou da seguinte forma:

"You are a bit critical, skeptical and can be perceived as indirect.
You are prone to worry: you tend to worry about things that might happen. You are susceptible to stress: you are easily overwhelmed in stressful situations. And you are reserved: you are a private person and don't let many people in.
Your choices are driven by a desire for prestige.
You consider helping others to guide a large part of what you do: you think it is important to take care of the people around you. You are relatively unconcerned with taking pleasure in life: you prefer activities with a purpose greater than just personal enjoyment."

A minha apreciação dessa análise ciborgue:

1. Discordo do "bit critical". Sou critical a lot! There's no one more critical than me, indeed.
2. Realmente, por ser sensível de natureza, minha razão se afeta mais que o comum com relação a algumas coisas, mas ela me eleva dessa forma.
3. Outro acerto: driven by a desire for prestige. E não é de qualquer reconhecimento vulgar de que falamos aqui!
4. Em cheio - está inclusive numa citação do "Gaia Ciência" na letra de além de mim: reserved; a private person and don't let many people in. Pois, "quem aqui entra me dá uma honra, quem não entra me dá prazer!"
5. Na medida da satisfação das minhas necessidades, busco auxiliar como posso quem me gravita - seja com minha luz, com meu calor ou com minha distância! 
6. Vejam bem o meu tamanho, amigos. Seria mesmo qualquer prazer vulgar aquilo em que me regalo? 

Entrevista - Iñaron

Concedo uma entrevista a mim mesmo sobre o meu novo trabalho, "Iñaron", que você DEVE conferir aqui.

Juliano Berquó (JBQ): Olá, Juliano. Como vai?

Juliano Berko (JBK): De bicicleta conjugada com o metrô. Não é por moda; por economia; por afetação avant-garde; nem mesmo por uma questão de estética, senão, e sobretudo, por uma questão de saúde. A grande saúde que, como nos ensina Nietzsche, é preciso perdê-la para tê-la. É no metrô, a caminho do trabalho, que me mantive no eixo ao longo destes últimos 9 meses, lendo até aqui metade da obra daquele. Já não sou o mesmo que era há alguns meses atrás, o que dirá há alguns anos! Corro, pedalo, testo minha força em todo exercício quando posso. "Tenho fôlego, mas dói-me o joelho". Mergulho profundo, mas a pressão faz doer meus ouvidos, por isso, nado mais na superfície do lago, fico boiando vendo o céu, de quando em quando o pôr-do-sol... É assim que vou.

JBQ: É verdade que você completou 10 anos de carreira como compositor? 

JBK: A verdade é uma mulher que não me dá mais tesão. Tenho por ela um carinho fraterno, mas quero dela distância segura pela minha saúde e pela sua felicidade. Sou um partidário da mentira. Todavia, em respeito aquela, já são pouco mais de 10 anos compondo canções que pouquíssima gente ouve. Não posso chamar isso de carreira - e ainda bem! Se e quando eu me permitisse abandonar o amador em mim, vendendo minha alma - a minha música -, aí então preferiria estar morto. Seria quase como se fosse mesmo a morte.

JBQ: Então fale um pouco sobre "Iñaron", seu novo álbum...

JBK: É uma compilação de 10 canções que representam meu espírito ao longo dos últimos 9 meses, pesadas como chumbo... E ainda fui capaz de voar com elas, dada a força que alcancei. Creio que se até fevereiro de 2016 eu vier com mais um tanto de músicas assim... não chego aos 27 anos. 
E o chumbo sabe-se ser venenoso. Foi um enorme trabalho tornar todo esse caráter plúmbeo dessas músicas em medicina: uma homeopatia invertida, uma hiperdosagem pela qual tive de tornar mais encorpado, volumoso, denso o meu sangue. Fluindo nas minhas veias, então, era remédio amargo contra um profundo autodesprezo. Se sou capaz de degradar tanto álcool, dele me abstendo posso também fazê-lo com todo o meu remorso - tenho fígado para isso - e, assim, não vou caluniar as minhas mais elevadas esperanças.

JBQ: E esse título vem de onde?

JBK: É a palavra para um determinado afeto - que nós, ocidentais, compreendemos por "raiva", "cólera", "fúria" - na cultura Tupi. Tomei contato com essa expressão no livro "Gentidades", do Darcy Ribeiro, um dos poucos intelectuais brasileiros que me interessam, em um ensaio sobre a tragédia da vida de um índio Kaapor chamado Uirá, que enfrentou até à morte a nossa sociedade para viver a sua experiência transcendente.

JBQ: E o como tem sido a recepção da crítica?

JBK: O universo dos meus ouvintes se circunscreve, praticamente, dentre os meus amigos mais próximos - e apenas os que têm bom gosto... - o que torna uma avaliação da avaliação sobre mim um exercício temerário. O professor Rudá Ricci disse que "tento escrever difícil de modo que apenas um leitor muito refinado possa entender e talvez nem ele" (não foi literalmente assim, mas fundamentalmente). O que ele, obviamente, colocou como uma crítica. Eu posso apenas tomar como elogio, claro. Taí: se eu ajudar a expandir a compreensão hodierna sobre a estética como sendo uma manifestação do caráter e da personalidade daquele que escreve, já cumpri alguma função social com meu trabalho.

JBQ: Poderia fazê-lo de modo mais objetivo? Falar sobre o disco...

JBK: Vou pontuar para ficar mais claro:
1. "Além de Mim": Mais uma das canções que escrevi pensando no interlocutor como minha filha, apesar de valer para a reflexão de qualquer um. É uma mui honesta reflexão sobre a experiência de ser pai - mas não apenas, de outras dimensões da minha vida até aqui também - e vê-la crescer, reaprendendo tanta coisa sobre mim... Foi a penúltima letra a ser finalizada, apesar de ter o arranjo todo na cabeça já há algum tempo. O título é propositalmente o mesmo do álbum anterior, para ligá-lo a este, sendo a sua consequência.

2. "Hatüey": É um ataque ao estado da moral hegemônica. Enquanto não ataquei o cristianismo, e tudo o que é podre que dele escorre, eu não pude ser honesto comigo mesmo - isso foi o que fiz durante um tempo. Logo eu, que me declaro ateu com convicção e boa-consciência desde a infância... Mas isso, claro, não poderia ter passado impune. O único momento em que baixei a guarda para esse veneno do espírito, o cristianismo, foi quando em um relacionamento breve e febril com uma certa garota lá de Goiânia... um sinal do meu próprio desequilíbrio de então. É uma valsa, mas era pra ser também uma referência à musicalidade indígena, que vocaliza dissonâncias que apavorariam um coral casto de qualquer igreja. Que assim seja! Na abertura, evoco uma imagem de uma passagem do Zaratustra; ao final, a história do lendário índio da América Central que se recusou a ir para o ~paraíso~ junto aos espanhóis, preferindo a fogueira... Estes índios orgulhosos! Bem assemelham-se me aos gregos clássicos - apenas a revolta daqueles escravos de má-consciência, apenas aqueles cristãos, que um dia ainda servirão de pesar e lamento por sobre a história da humanidade na Terra, poderiam fazê-los tombar. Que aprendamos a voar mais alto, pois!

3. "A Minha Casa": Foi uma das primeiras a serem escritas, num fluxo turbulento de letra e música, cada qual vinha a cada curva formando esse rio largo que deságua num mar de 2 minutos de barulho antes do silêncio. Tem tantas referências do Zaratustra que eu aguardo algum leitor - lanço o desafio - vir torná-las públicas! É um dos meus melhores arranjos de guitarra, melodia e lírica. Um feito e tanto de canção, do tamanho do meu orgulho.

4. "The Convalescent": Os pensamentos precisam escapar do corpo de alguma forma... Alguns segredos, incontíveis como são todos, merecem ser ditos em códigos - numa outra língua que poucos dominam, deveras! E, generoso que sou, lego à humanidade tal petardo de versos em língua inglesa. Tais foram brotando de rimas zombeteiras, que ajuntava por pura diversão, até que crescera uma árvore tenebrosa que lançou por sobre mim a sua sombra. Nela subi e cheguei aos céus; dela desci com o sentido da Terra. Não tive revisão da letra. Incorri em algum equívoco gramatical, alguma questão de ordem de coesão e coerência? Sejam generosos, amigos... se eu merecer!

5. "Do It Yourselfie": É da época do "Além de Mim" (2014). A última estrofe já estava escrita há muito tempo; tinha toda a música na cabeça, mas não me satisfazia nada do que colocava em palavras... não estava claro nem mesmo para mim o que queria ser dito. Geralmente, o tempo cumpre bem esse papel de desanuviar o céu; tornar claro o escuro; trazer à tona o abissal. É a canção mais política do álbum, a 3ª pessoa na letra não fala sobre mim, especificamente, apesar de rir-me com sua autoironia em alguns momentos, tenta captar o espírito de nossa época e apontar o caminho para transcendê-lo.

6. "Menina do Rio": Um belo exercício de estética no qual redimo Caetano por servir de experiência audiofônica aquele Estado que é um dos mais monstruosos, Israel. Quase joguei essa canção fora de última hora. Não o fiz por pura vaidade - adorei as imagens que nela lancei e a rima do refrão não se repetiria nunca em outro contexto. Sobre ele, um silêncio obsequioso. Fundo de lago é enlameado, todos sabem. Foi ali que me lancei, no lamaçal dos enganos. Em todo caso, uma ótima canção, em forma e conteúdo, pra mostrar a minha força

7. "Eu Só Sei Ser Quem Eu Sou": É a mais curta do álbum, não tem introdução - quer ser direta, objetiva, honesta consigo mesma. Ali estou me redimindo - aliás, no álbum todo. Os meus enganos, minhas recusas, minhas fraquezas... É onde coloco o verbo no imperativo, reencontro a mim mesmo na potência da minha vontade: cala-te, vaidade jocosa; ironia vulgar! Alguns poderiam se opor dizendo "eu sei ser quem eu quiser". Noves fora a desonestidade dessa falácia, o que dizem os outros, vejam bem, não me interessa.

8. "A Ponte": Uma ode a Zaratustra. Evoca novamente a mitologia grega e todo o seu universo de sentidos - absolutamente diverso da miserável moral hodierna. Nós somos mesmo um fim: o tempo, aquele rei, dá testemunho do nosso decaimento, mas não vou caluniar o sentido da Terra! Falando da música, o seu ritmo mesmo evidencia o trotar de quem avança por sobre um caminho sem volta. "Apenas navegar..."

9. "Aurora": O "batizado" lírico de minha filha. Aqui falo dela da forma mais direta. Estávamos no litoral sul da Paraíba quando os primeiros versos, já dentro dessa métrica, foram soprados pelo mar para dentro da minha cabeça enquanto via Aurora absolutamente inocente, brincando na areia... De repente, realizei a importância de um ato simbólico que, em signos, a protegesse, resguardado de toda moral mesquinha; de toda má-consciência; de todos os afetos tristes; de todo o cristianismo, enfim.

10. "Elegia": Foi a última a ser escrita, apesar de, como ocorrera com outras, ter já seu arranjo determinado. Faço uma digressão por sobre a minha própria história: voltei ao tempo em que morava na asa sul; voei de volta à asa norte; sem deixar de passar pela minha primeira experiência no Guará. São versos muito figurados, convidam a todos à reflexão, todavia, não deixo de fazer a minha própria: sobre os contextos de minha vida que me trouxeram até aqui, sobre os caminhos, curvas, desenganos... Arrisco até um verso autoral em alemão - até onde sei, não incorri em nenhum erro estrutural - com a humildade de quem quer aprender, com o orgulho de quem tem coragem de tentar. O refrão é de um aforismo que rascunhei na época em que estava a ler o "Humano, Demasiado Humano" - sugere um caminho para a autosuperação. Um áureo tempo, um sopro de um vento que vem do futuro.

E quem diria?
Aprendi a rir, amigos! Aprendi a rir!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Feminismo ~Pára Que Tá Feio~

Hoje vamos falar um pouco sobre o feminismo, essa nobre corrente de Andrômeda que pende do humanismo, filha prodígia daquele que é avô e pai do sentido histórico. Vou me furtar de comentar minucias de autoras, teorias, multiplicidade de correntes... essa mesquinharia não me cabe, é perda de tempo e, afinal, não é a forma propriamente acadêmica que me interessa aqui. 

Contudo, vamos falar não de Andrômeda, propriamente dita, mas de Medusa: aquilo que eu chamei, zombeteiro como não poderia deixar de ser, de feminismo ~pára-que-tá-feio~ ou, como algumas se intitulam, feminismo radical. Já comentei sobre essa canalhice intelectual aqui anteriormente e vou tentar desenvolver um pouco mais do meu diagnóstico e raciocínio.

Essa vertente, que busca o monopólio do debate sobre o feminismo e aparece vez ou outra em acalorados ~debates~ nas redes sociais, defende, dentre outras coisas (bandeiras históricas gerais do feminismo) e de modo geral, que 1) os homens não podem declararem-se a si como "feministas", todavia, devem apoiar as pautas feministas "desconstruindo" o machismo entre os seus pares de gênero; 2) que os homens não sofrem sob o regime do patriarcado; 3) que as mulheres não podem ser machistas, mas, em determinados contextos, pode ocorrer de agirem alienadas pela ideologia patriarcal e, por consequência, 4) as mulheres, todo o gênero, são sempre vítimas daquele regime. Vamos nos deter nestes pontos. 

1. Como está colocado por algumas visões divergentes, o feminismo não é, a priori, uma demanda específica de gênero - por pressupor uma igualdade formal, econômica, política e social entre os gêneros, ela interessa à humanidade, ou seja, é uma demanda da "espécie". O feminismo radical quer o monopólio do debate, como dito, e quando se é afrontado com argumentos - que não têm gênero, até onde eu sei - dizem que "ozumi" estão querendo "protagonismo" na luta. Noves fora a estética de extremo mau gosto dessa falácia, podemos responder à ela transpondo a sua lógica, dizendo então que só poderia ser comunista, ou de esquerda, quem é oriundo necessariamente da classe operária! O que, no rigor da história, não é verdade. Gramsci se reviraria no túmulo...
Além disso, argumentam que o papel dos homens na construção do feminismo seria... desconstruir o machismo dos seus amigos, homens do círculo social, etc. Este é um argumento muito interessante porque parte do preconceito de que, para os homens, os argumentos de outro homem têm mais força do que os de uma mulher. A visão, vejam só!, que possui a ideologia do patriarcado. É isso o que a voz gutural do patriarcado diz às mulheres que se rebelam para que elas calem à boca. Todavia, é uma falácia e não corresponde à realidade do raciocínio daquilo/daquele que quer conservar o seu poder - o machista ouviria de qualquer um, homem ou mulher, um argumento que falasse à conservação do seu status. 
Moças, se eu conseguir ser claro: um cara que se arvorasse defensor do feminismo numa roda de machistas inveterados seria, no mínimo, ridicularizado até o limite da sua paciência... Porque, reiterando, não interessa quem emite a mensagem, mas como e o que é essa mensagem. Se são homens machistas, que se regalam nos privilégios do patriarcado, não irá fazer diferença quem defenda uma visão diferente do mundo, uma reestruturação das relações! 
E o incauto que se dispor a cumprir o papel de "evangelista" do feminismo... bem, que aprenda ao menos a lançar ossos àqueles que só sabem latir. 

Uma alegoria para finalizar a digressão: 

- Evangelista da Abolição: "Olha Senhor, a escravidão é uma condição que degrada a humanidade e deve ser abolida". [Nota: um argumento racional amparado em um paradigma determinado] 
- Senhor de Escravos: "Ah, claro, que bonitinho... mas e quem vai trabalhar cortando cana... você, seu intelectual metido, que foi estudar na França?! É claro que não!" [Nota: Quem está no poder que perpetuar o seu poder...]

Poderia estabelecer o desenvolvimento desta dialética que demonstra como a "boa vontade" do evangelista funda a "escravidão" assalariada, pra satisfazer a sua vaidade de ver o fim da escravidão formal "desconstruindo" o senhor de escravos... e perpetuando o estado das coisas. Mas tenho outros pontos a comentar ainda.

2. Moças, acreditem: nós, os homens, não somos uma massa homogênea. Não possuímos nenhuma condição que nos classifique a todos de modo geral que não o Y (e olhe lá!) que carregamos no código genético. Portanto, nem todos os homens (e falo aqui apenas dos heterossexuais!) conseguem se adequar ao estereótipo do ~machão~ e às relações preconizadas pelo patriarcado. Os mais machistas, inclusive, não poderiam nunca desenvolver uma sutileza na sua sexualidade para com uma mulher... eles se regalam entre si contando sobre suas experiências sexuais - filmam as transas com as meninas e depois jogam no whatsapp pros amigos verem; não experienciam uma verdadeira e profunda troca de afetos que apenas um homem mais sensível invariavelmente é capaz de estabelecer. Um homem de sensibilidade que seria ridicularizado numa roda de conversa de machistas. Seria contraproducente relatar os inúmeros episódios de embate contra a ideologia patriarcal estabelecidos no decorrer da minha própria vida - não defendendo mulherzinhas, como queriam alguns, mas - sobretudo para poder expressar a mais genuína manifestação de mim mesmo, e isso, pessoal, é simplesmente ser honesto. Enfim, contra o argumento do suposto "feminismo radical" (se é que não confundem raiz com as pontas dos galhos!), se isso não bastar, um silêncio obsequioso. 

3. Aqui chegamos a um ponto interessante. Ninguém "é" um rótulo. Alegar isso é a mais destilada forma da estupidez. Todavia, algumas mulheres podem sim estabelecer práticas e relações machistas - entre si e na lide com os homens (vou me alongar nesse argumento no próximo ponto). Da mesma forma que o feminismo radical defende as mulheres que incorrem em "deslizes" machistas, poderia defender que os homens o fazem da mesma forma: alienados pela ideologia patriarcal. Entretanto, isso é indefensável. Eu mesmo ouvi - li, pra ser mais exato; era uma conversa pela internet - de uma moça com quem tive uma breve e febril relação afetiva, e que hoje se intitula "feminista radical", que em uma foto minha no orkut eu estava com uma "boca de chupar r***" (obs.: já comentei como essa gente é temerosa em estética?). Desnecessário me alongar nessa baixaria: o machismo é o estado natural das coisas sob o patriarcado, tanto faz o gênero em que se o observe. 

4. Este, para mim, é o mais importante. Porque vitimismo é covardia intelectual. É postura dos pusilânimes diante da vida. E, de minha parte, não tomo as mulheres, de modo geral, por covardes ou vítimas incautas de um conto de fadas. Este argumento ignora solenemente que houve um tácito acordo, um "contrato social", não entre os gêneros, mas entre personalidades afins - tanto no masculino como no feminino - na fundação do patriarcado primitivo. 

O primeiro homem de índole machista a descobrir a sua função na reprodução sexual deve ter ficado maravilhado! O seu ódio e a sua preguiça falaram assim: "Posso produzir um exército que exterminará os meus inimigos e um outro que serão meus escravos e trabalharão para mim!", ele se rejubilava! A sua vaidade quis que tivesse então o controle total sobre a reprodução da espécie humana, de modo que ele pudesse satisfazer a sua curiosidade - "como ficaria a minha mistura com aquela mulher? E com aquela outra de pele escura? E com aquela de olhos azuis?"; a sua inveja - "Com essa posso ter filhos e filhas mais atraentes. Este poderá ser precursor do meu poder; com aquela eu poderia me divertir sexualmente ou vender a um bom preço para alguém!" e o seu orgulho - "Esta mulher pode dar-me filhos mais fortes, ampliando o meu poder!".

Este monstro estabeleceu um acordo entre seus pares evidenciando que, para conservar o instituto da propriedade privada, seria preciso ter total controle sobre o trabalho e, para tal, controle sobre a reprodução da espécie. Assim, convenceu os seus colegas, mais ambiciosos que interessados no "amor" de uma mulher. 

Isso tudo não poderia se sustentar sem o apoio da outra parte. As mulheres de índole semelhante, como num conto de fadas, participaram dos mesmos pérfidos sonhos e assim se estabeleceu a fundação da divisão de poder, do contrato entre as partes: a divisão sexual do trabalho.

Como numa primitiva estratégia de marketing, às mulheres eram oferecidas a segurança contra ataques de outros homens lascivos (e tais quais os bancos que vendem seguros têm interesse que haja roubos e acidentes, os machistas de então sobrelevaram a violência física e sexual contra as mulheres, de modo que o casamento pudesse ser um bom negócio) e a estabilidade econômica (no acordo, o homem cumpre com o suprimento das necessidades materiais - o trabalho - enquanto a mulher cuida da organização do trabalho no lar, livre das intempéries, de ataques de animais, de outras tribos, etc.) como os grandes atrativos do casamento - sob o regime do patriarca, estas mulheres estariam a "salvo". 

Para que a reprodução pudesse ser controlada, o controle da sexualidade era uma cláusula pétrea: Até meados dos século passado ainda havia no ordenamento jurídico brasileiro o "crime contra a honra", em que um homem poderia matar a mulher e o seu amante absolutamente impunemente, alegando defesa da honra.

A sacerdotisa da babilônia (um arquétipo, não um indivíduo) pré-cristã, que estabelecia práticas sexuais em rituais religiosos, evocando a fertilidade da colheita, etc. & etc., com a decadência daquele antigo paradigma religioso e o posterior advento da moral judaico-cristã, segue à "castração" dentro do casamento monogâmico. Caso falhasse na gestão dos seus desejos, a morte por apedrejamento seria coisa certa. Àquelas mulheres sensuais e atraentes, que se aperceberam da oportunidade econômica, abriu-se um novo nicho: a prostituição. E, lembrando a Beauvoir, entre o casamento e a prostituição não havia - e nem há ainda - um abismo tão grande quanto se imagina...

Daí decorre toda uma sucessão de gerações, com suas evoluções tecno-políticas, inflexões, ajustes, etc. & etc. que nos trouxeram até aqui.

Novamente falo por experiência própria. Eu sei que espécie de mulher é esta que se adequou ao patriarcado. E elas são tão asquerosas quanto os homens daquelas rodas machistas. Cresci dentre elas. Correm do emprego como o diabo da cruz. Vivem para casar com alguém rico. Forçaram o quanto puderam à minha conformação ao patriarcado. Falharam miseravelmente.

Elas assinaram esse acordo - para o bem e para o mal - e aqui estamos, tentando desfazer os nós de uma corda que nos ata à civilização primitiva, à violência, à castração das vontades, à uma economia dos afetos tristes.

Quão pérfido é negar o debate destas questões! Nada há por sobre a Terra que se assemelhe mais ao machismo que essa degeneração do feminismo!

Eu, que me filio à linhagem dos grandes gregos, sou Perseu: não me vergo. Vejam-se neste espelho, Medusas! Sei bem passar ao largo de vossa monstruosidade! Que virem pedra e pereçam! É Andrômeda a mulher com quem quero ter filhos, pois, eu a amo.

domingo, 2 de agosto de 2015

Sobre A Violência da Cirurgia Cesariana Marcada

Pródromo: Tive uma noite mal dormida. Contra as minhas leis mais recentes, que determinam observação estrita da dieta e a abolição da restrição de sono, fui dormir muito tarde ontem. Mais de duas da manhã. E tive concurso hoje: o que me fez acordar mais cedo do que queria. Sob essas condições de restrição de sono passei o dia com o raciocínio lento e o humor de rápido enervamento, ainda mais do que o comum. E essa sensação que eu já conheço tão bem, essa letargia, essa vontade de não-viver... já não sei mais se por restrição de sono ou por, talvez até..., depressão
Mas o que me fez vir escrever foi o pensamento que tive - acho que estava naquele estado intermediário entre o sonho e a lucidez - quando me obriguei a levantar da cama. Detalharei-o a seguir. 
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Já viram aquela charge que roda as redes sociais sobre o despertador ser a cesárea do sono? Aquilo nos põe a pensar, sem dúvida. Essa era a primeira ideia, a mais antiga. Antes disso havia escrito, inclusive, uma estrofe de uma canção do "Iñaron" (o novo álbum, falarei dele depois): "Acordar no meio de um sonho/ Pra me arrumar e ir pro trabalho/ Acordar de um sono profundo:/ Que porra de vida é essa, caralho?". Este tema do tempo de vida e tempo de trabalho sempre me intrigou - por aí me guiam diversas leituras... Enfim, isso me deteve, deve ter circulado dentro de mim por um bom tempo até que emergisse novamente hoje cedo. 

A outra coisa foi a leitura de uma matéria assaz interessante ontem à noite, sobre a sensação da passagem do tempo na vida. Como já estou mais perto dos 30 que dos 18, a rotina, aquela velha asquerosa, aquele verme que me rói o peito, me faz pensar: poxa, como o tempo voa! Já estamos em agosto e, quem diria?, ainda estou vivo. Na tal matéria, explica-se como é a nossa régua de medir o tempo - como anteparo sempre o nosso tempo absoluto. Por exemplo, pra minha filha, um ano representa metade da sua vida - e metade de uma vida é, convenhamos, muito tempo - e deve ser assim que ela o sente. Pra mim, um ano... voa. Isso também ocorre porque na infância tudo é novidade e, assim, o nosso cérebro desacelera o tempo para apreender as experiências; já na idade adulta, quase tudo é rotina enfastiante, o que nos leva a ver o dia de trabalho - aquele monstro terrível - passar correndo...

No nível inconsciente, eu estava fazendo uma síntese ligando estas duas ideias, reflexões em que me detive conscientemente por alguns instantes ao longo destes últimos meses.

Pois bem: hoje, acordei pensando em como a cirurgia de cesariana com hora marcada, a critério da conveniência econômica da equipe médica e/ou da vaidade envenenada de alguma mãe/família (já que quase sempre a mulher não tem a sua autonomia também neste momento), é de uma violência - que nesse nível da vida se confunde entre simbólica e física - imensurável, pois, priva o bebê de perceber que está na hora de nascer. Simplesmente, porque não está. O feto talvez saia do útero dormindo e desperta com o terror de uns extrauterinos, vestidos de azul (ou branco ou verde, tanto faz: aqueles ciborgues do biopoder), que lhe põe sob uma infinidade de procedimentos invasivos - alguns devem doer tanto... -, que não lhe demonstra nenhum afeto alegre, nenhum colo quente, nenhum carinho, nenhuma voz terna... num mecanicismo, numa ofensa, num apequenamento da vida que deverá envergonhar tudo aquilo que virá à humanidade - o devir. Berrar de desespero nesse momento é, pela falta de repertório de manifestação dos afetos, até pouco pela experiência terrível de assim nascer. Sabe-se lá os efeitos dessa primeira experiência extra-uterina na formação da psiquê humana! Os médicos não o sabem, não o querem saber - estão muito ocupados cumprindo o juramento... dos hipócritas

Hoje despertei de uma "cesárea", com o despertador do celular, e fui arrastado desse meio-que-um-sonho em que eu era um feto acordando na mão de uma fria e mórbida equipe de saúde... 

O nascimento da minha filha sempre me foi muito marcante. Deveras, lembro dela nascendo assim, dormindo, incauta, nas mãos das obstetras. Não pude tê-la imediatamente comigo, dado o protocolo médico padrão, mas pude acalentá-la por todas as horas que se seguiram até que ela pudesse ter o peito, o calor e o amor da Maíra novamente e sei que essa experiência, apesar de intrinsecamente violenta, não será uma marca profunda em sua psiquê - pois, 1) eu invejo a experiência intra-uterina dela, nos divertimos e fomos pra cachoeira e pro parque e ouvimos muita música juntos! 2) e porque nela eu imprimo todos os signos da força, com o sangue da minha própria carne. Se ainda estou vivo, este um dos maiores motivos. 

A despeito disso, nascer pode ser uma passagem sutil, porém alegre, para uma vida de experiências engrandecedoras, que impregnam de sentido todos os recantos do nosso espírito. Para isso, não apenas o nascer deverá mudar, mas o modo como encaramos (e encarnamos) a totalidade do nosso viver

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Interditos

1. Quando alguma ideia, prática ou objeto cujo uso se alonga no tempo e se desprende de seus pressupostos e preceitos, muitas vezes tornam-se interditos: pensa-se, age-se e usa-se de tal modo - não se sabe muito bem os motivos e, reconhecendo-os, teme-se suscitar seu questionamento. Portanto, para recuperar o espírito científico, é preciso ser novamente uma criança destemida, que inverte o pólo de um "não!" imperativo, que a tudo põe as mãos; monta e desmonta; quebra e pergunta sempre "por que?", age sempre por descobrir por si só as causas e consequências e formas e funções, etc.

2. Assim procede com o uso corrente da 3ª pessoa na redação científica - os moralistas: "pensamos ser justa a medida para tal dado"; e os hipócritas: "acreditamos ter chegado ao esclarecimento quanto à determinada coisa" - para nós, um vulgar vício de forma, pra dizer o mínimo. Qualquer néscio pode dele utilizar-se para simular uma equiparação científica para algo sem conteúdo, fundamento, estatura. Entretanto, num contexto de produtivismo oficialista; de carreirismo oportunista, talvez o conhecimento mais imprescindível seja, justamente, fingir-se muito bem, tal qual o fazia o poeta, empurrando aquilo que se pode chamar de ciência - não sem uma boa dose de má-consciência - um passo atrás e muitos degraus abaixo. 

3. A boa ciência, o bom problema é pontual; sua descrição é minuciosa, robusta e não se permite fugir do anteparo de um largo e profundo Estado da Arte, uma piscina em que o mergulhamos, pra dizer o mínimo novamente. É preciso desmontá-lo, entender a forma e função de cada peça e tentar montar novamente o brinquedo e vê-lo girar por si a partir da corda que nós puxamos. Dito isso, deixo claro: a boa ciência é a ciência mais difícil. Ainda não a arrisco mesmo e porque, com toda a fúria da minha vaidade intelectual, faminta como um monstro guloso, justamente, não sou um carreirista. "I'll save it for my feast later", one luscious famine would say.

4. Este é o nosso problema, a ser preparado com toda atenção, afeição e concentração que merece a boa refeição: Como deve ser a melhor educação? O que nos falta, fisiologicamente falando em comparação, por exemplo, com os cães, nos sobra em faro intelectual: aí reside um bom problema! E esta é a nossa hipótese, o arranjo das peças que armamos para o nosso brinquedo, com o qual nos regalamos como orgulhosos desbravadores: a escola deve desaparecer.

sábado, 18 de julho de 2015

Das Maravilhas da Internet

Acabei de ter esta conversa no omegle... como testemunha, apenas essa segunda pessoa (Stranger) a seguir. Minha imaginação não seria capaz de idealizar uma persona tão... tão... adoravelmente limitada quanto aos atalhos de computador. 
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You're now chatting with a random stranger. Say hi!
You both speak the same language. (Select "English" from the menu in the corner to disable.)
Stranger: sai daqui, pf obrigada
Stranger: to travada
Stranger: ^^
Stranger: anda
Stranger: aff q lerdo
Stranger: sai logo
You: e se eu nao quiser?
Stranger: affff sério
Stranger: sai por favor
Stranger: vc vai sair querendo ou n
Stranger: ok
Stranger: ta n quis dizer isso
Stranger: n quis ser grossa
You: reinicia o seu pc
Stranger: kk
Stranger: mas serio
Stranger: agr serio
Stranger: sai
Stranger: afff n, demora ligar
Stranger: anda moço
Stranger: que chato vc
You: azar o seu
Stranger: credo
Stranger: aff vai procurar alguem que quer te ouvir tocar
You: pouca gente merece me ouvir tocar
Stranger: eu com certeza n mereço
Stranger: entao sai pf
Stranger: sério
Stranger: parou a graça
You: meu som ta desligado, fica de boa
You: pra mim ainda nao...
Stranger: aff n ligo, quero é sair daqui
You: se eu teclado ta funcionando usa os atalhos dele pra reiniciar a página
Stranger: mas pra mim nem começou
You: vou te ensinar ó:
Stranger: olha aqui
You: tem uma tecla chamada F5
Stranger: meu mouse travou
Stranger: se eu sair e n volto mais sem reiniciar
Stranger: entao pf
Stranger: colabora
You: aperta ela e seja feliz
Stranger: q tal vc sair assim seremos felizes
Stranger: ^^
You: eu estava feliz vendo o fluxo de gente estranha no omegle enquanto pensava na vida...
You: aí vc chegou
Stranger: afff vc é muito insuportavel, serio
Stranger: kkkk
You: é por isso q vivo só
Stranger: entao volta a ser feliz
Stranger: imagino
Stranger: mas olha se vc sair agora
Stranger: vai achar alguem chata q nem vc
Stranger: ^^
Stranger: n é legal?
Stranger: afff
You: já achei e tive uma filha com ela. Mas evolui na minha chatice... e agora nao estou desesperado em busca de companhia... então, acho q vou ficar por aqui
You: aperta o F5
Stranger: mas n sou boa companhia, entao vai achar quem seja
Stranger: se eu reiniciar a pag vai pro inicio
Stranger: e eu n clico pr entrar
Stranger: afffffffffffffffff
Stranger: já chega
Stranger: sai
You: nao viaja.
You: é só carregar de novo a página q vc vai pro omegle normalmente
Stranger: n volta pra cá
Stranger: meu deus pq vc n sai?
Stranger: kkk
Stranger: afffffff
You: ou vc ta testando aquilo a que chamam de "psicologia reversa"?
Stranger: eu to testando é minha paciencia de te aguentar aqui
Stranger: agr pode se retirar pf
You: kkk
You: ta
Stranger: ta
Stranger: entao
Stranger: sai
Stranger: aneeeem
Stranger: vc n vai sair?
You: pq eu deveria?
Stranger: n pensei nisso, aah é claro, deve ser pq eu quero que saia
Stranger: motivo justo n acha
Stranger: Ç.Ç
You: parece a argumentação do feminismo ~pára que tá feio~.
Stranger: kkkk
Stranger: afffff logico q n
Stranger: vc ta me prendendo aqui
Stranger: isso é machismo, para q ta feio
You: kkkkkkkkkkk
Stranger: estamos kits agora
You: são as armadilhas do patriarcado, querida
Stranger: entao vc deve sair
You: como o matrimônio..
Stranger: olha, sou a pessoa mais chata do omegle
Stranger: serio, vai atras de alguem legal
Stranger: e me deixe ir agr
You: pára de mentir, vai.
You: vc deve ser a pessoa mais chata do UNIVERSO
Stranger: é a mais pura vdd
Stranger: é tem razao, se n a mais chata, to na lista das 10 mais
Stranger: agr vc deve ir, ta bom?
You: agora que ficou divertido? nao mesmo
Stranger: nos conhecemos, fomos grandes amigos, agr é hora de cortar a relação
You: F5
You: sem apego
Stranger: afffff n dá eu vou ter q reiniciar
You: estou pronto pra outra
Stranger: f5 n me volta pro bate papo
Stranger: que bom entao vai lá
You: mas te manda de volta pra pagina inicial do omegle. Ai vc aguarda pacientemente ela carregar a opção do chat de novo
Stranger: ah claro, e tbm aguardo pacientemente meu mouse destravar
Stranger: deus sabe quando
Stranger: eu prefiro a ideia de vc passar
You: vc nao precisa do mouse pra quase nada no computador...
Stranger: pra entrar aqui sim
Stranger: digamos q pra quase tudo tbm
You: tem uma outra teclinha mágica, o ponto G da computação, chamada "esc"
Stranger: que tem esc?
You: vc clica nela e tcharam!
You: adeus à nossa conversa. parte pra outra
Stranger has disconnected.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Gracejos

Sempre que me são lançados gracejos carregados de uma pérfida inveja - no emprego, principalmente [emprego: que pode ser definido como o espaço e o tempo em que não se escolhe com quem convive-se. Diferente da família: dela, quem não merece minha proximidade, eu mesmo lanço-as à distância!] - lembro de vários aforismos do "Humano, Demasiado Humano", deste especialmente:

"495. O que há de revoltante num estilo de vida individual. - As pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais; elas se sentem humilhadas, reduzidas a seres ordinários, com o tratamento extraordinário que eles dispensam a si mesmos."

Algumas pessoas não superam, em estatura intelectual, a altura das solas das minhas botas - posso apenas rir de suas frustradas tentativas de me alfinetar! Outras, como sapos inchados, querem sempre, em qualquer ocasião social, aparecer - sobre minhas costas, não, anfíbio asqueroso! Mal sabem da espessura da minha pele; da textura da minha derme, do rubor da minha tez; e teriam de viver uma vida inteira com o mundo por sobre as costas para ter a minha força. Deveras, apenas me deprime vez por outra ter de estar perto desse tipo de gente... Todavia, de que outro modo poderia rir-me do seu histérico saltitar?! Como poderia rir-me da sua barriga fina e das horrorosas veias e vísceras lhe transparecendo?! A doutrina do absoluto desprezo é um exercício assaz zombeteiro! Viva aos gracejos! Que sempre me permitam rir da mediocridade alheia! Apesar de me puxarem pra baixo, não me apequenam!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sobre um Papa Simpático

Nada poderia desmoralizar mais o socialismo do que a simpatia de um Papa, o santo, o "mais próximo de Deus na terra". Nem tanto pela profunda hipocrisia da Igreja - a essa altura da história, todos deveriam saber que todo o edifício cristão erigido ao longo dos últimos (quase) 2 milênios é assentado no MAIS ABSOLUTO ENGANO, na mais absoluta subversão da doutrina daquele escravo que morreu pregado - mas, sim, pela impotência de certos grupos que se arvoram de esquerda, necessitados de uma bengala qualquer, um SANTO PADRE que seja! Apequenam a grandeza do "sentido histórico" do socialismo! "Não se fazem mais socialistas como antigamente" - um Paul Lafargue, por exemplo -, poderia dizer um romântico...

Bons tempos em que os sacerdotes editavam bulas papais condenando o socialismo! Ao menos estavam de acordo com a inversão de valores do cristianismo - seguindo a sua sina de profunda hipocrisia!

Desde que compreendo o lugar que ocupo no mundo, lamento serenamente ter que ouvir infinitas desculpas dos Papas enquanto seguem, bovinos, matando e odiando e doutrinando em nome de um Deus tão igualmente lamentável - pra dizer o mínimo. De minha parte, apenas desaparecendo da face da terra a Igreja cristã poderia ser perdoada pelos seus crimes contra a humanidade. E ainda assim, a ela deverá ser lançado um olhar de sereno pesar, de profundo desprezo, pela humanidade - forte e altiva - do devir.

Apenas se elevando à altura das suas metas - muitíssimo acima e muitíssimo além do que se vê até aqui - os socialistas; os comunistas; os anarquistas, os que rasgam o ventre do tempo, no parto da vida em comum, de um futuro de luminoso júbilo de contemplação e criação de uma nova vida em um terra que sempre foi generosa, seja qual for o nome que deem a si próprios - eu poderia respeitá-los. Para tal, deveriam sepultar no cemitério das ideias qualquer vestígio sombrio da moral ocidental que recebemos dos colonizadores.

Por que essa ânsia de conquistar a simpatia dos cristãos? Será medo de voltar pra fogueira?! Medo das masmorras?! Que o medo mova os covardes à cova! Quanto mais confusão, quanto mais asco pudermos provocar nesses afetados descontrolados, melhor! Quem sabe uma descarga de hormônios não force novas sinapses em seus neurônios!