quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Gaveta dos Enganos

No meu quarto há um armário repleto de gavetas. O meu quarto é uma dobra da minha casa - que é a extensão do meu quarto de quando ainda morava com minha mãe, mais evoluído, mais compartimentado. Naquele armário há uma gaveta que eu chamo de gaveta dos enganos. Certo dia, resolvi botar tudo em ordem e jogar os meus antigos enganos fora. Foi triste, deveras: tive de me desfazer de coisas que um dia me foram queridas, a despeito do desgaste perfeito pelo tempo - eu as queria eternizadas... Descobri depois que essa era uma vontade mortificante, taxônoma: categorizava e classificava aquilo que já não podia simplesmente haver.
Pois bem: inspirado no exemplo de amigos, que bem faziam propaganda da sua doutrina de jogar o velho, o desnecessário fora, ainda ouvi aqui ou ali sobre um provérbio oriental que pregava algo como "o novo só toma seu lugar quando o velho vai embora" - foram as estrelas me dizendo em símbolos. Versado que sou na arte de interpretar símbolos, passo destarte a criá-los.
Ao abrir a gaveta, comecei por desatar os nós daquela superfície empoeirada... Haja fios! Que se dane! Que vão logo todos embora! "Nada a perder a não ser os meus grilhões"? E como pude guardar comigo uma Bastilha inteira?!
Depois era a vez dos corpos de fundo, aquilo que pesava e se escondia e se amarrava aos cabos de aço que me prendiam e impediam de voar a ave livre da minha vontade. Como pude um dia amar tal objeto? É apenas um objeto - fui eu quem lhe dei qualquer valor, não há nada no mundo que valha a priori... Como pude ser condescendente com tantos erros - meus, dos outros... - Todavia, hoje eu sei: era o que eu precisava guardar, pra enternecer e moer e fazer daquilo a minha tinta com a qual eu pudesse inscrever esta nova lei na tábua da minha vontade: a medida de tudo sou eu
Como pude ser tão romântico, me apegar a tantas medicinas, ignorando aquilo que me fazia doente?! Pensava eu que poderia colorir-me tingido com tinta de chumbo? Ela não me impedia de desbotar e ainda causava doença!
Antes minha ferrugem exposta! Antes ser honesto quanto as minhas fraquezas!
Se escrevo com as mãos cheias de pedras é porque há uma lâmina d'água por sobre a qual eu quero me entreter - agora, que descanso e me recupero do mergulho.
Se floreio qualquer coisa que digo é porque assim me divirto - não creio em nada do que falo, sei que o valor de tudo sou eu quem crio: pois, logo, se floreio algo que digo é porque quero lançar lírios a um túmulo; rosas por sobre uma cama; cravos em cabelos... É porque quero lançar o meu perfume e chorar; suspirar ou sorrir. Se lanço minhas flores displicente é porque reina a minha vaidade leonina - louvando a exuberância do meu jardim. Se minhas flores murcham, não as uso para marcar páginas de um livro que eu já li: devolvo-as à natureza - como merece tudo aquilo que perece... Não permito que apodreça viciando meus olhos: que eu nunca diga, desdenhoso, "tudo é podre!". Deixo isso para os fracos de vontade, que não suportam desviar o olhar daquilo que lhes enoja e do qual acabam se afeiçoando, repetindo de tanto ver. Não posso - nem uma única vez mais! 

Haja gaveta! Quão profunda ela era e eu nem me recordara! E estive, é verdade, um tempo tomado pelo horror da visão do seu vazio: quanta poeira, quanta teia de aranha!
E fazia eu minhas caminhadas pelo bosque - distraído, lançando minhas flores e cantos ao vento, contemplando a beleza da vida - atraí com isso uma bela ninfa que primeiro segue o caminho do meu perfume. Na segunda tarde, se permite seduzir pelo meu canto, capturada pela melodia e timbre suave da minha voz. Na terceira, me presenteia com uma mecha do seu cabelo... 
E feito: estou pronto pra encher novamente a minha gaveta dos enganos!

Minha ave voa livre para a luz
Que a leitura de Nietzsche reluz

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Etimologia

Juliano Berko:

1. Juliano: Do latim "Iulianus" - O último imperador romano a tentar restaurar os cultos pré-cristãos. Referente à Julio [O Cesar]

1.1. Julio: Do latim "Iulius" - Referente à Jove [Júpiter, o deus Romano]

1.1.1. Jove: Do latim "Iovis", derivado do Proto-Indo-Europeu "dyew" ["dia", "céu", "céu (mitologico)", "deus"]. 

2. Berko: A minha variação de "Berquó", aportuguesamento do francês "Berque" [variações: Berquer, Berqué, Berquet, Berquez, Berquier, Berquiez]

2.1. Berque: Variação de "Berger" - em francês, "Pastor"; nas línguas germânicas, "Aquele que vive na montanha", "altura". 

Aquele que vivia nas montanhas e de lá desce para pastorear o seu rebanho rumo aos céus e à deus...
O imperador romântico, que luta contra a praga do cristianismo...

Já me bastariam a presunção e o orgulho que carrego de nascença! 

Que eu impere por sobre as mais vastas terras e mais variados povos dentro de mim mesmo; abolindo aí também todo o engano milenar, que fere de morte toda a força da vontade, a que se convencionou chamar de cristianismo! 
Que eu pastoreasse a mim mesmo para fora de qualquer pasto - isso foi quase tudo o que eu fizera em minha vida até aqui, era o que eu deveria fazer! -; para de volta à minha montanha - o que faço agora -; para mais perto do meu céu e ser o homem e daemon e o deus que eu sou! - o que farei, deveras, pela vida inteira.

Vogelfrei

É preciso compreender a relação entre o tipo de terreno e o instrumento de voo: 
Existe o terreno mais inóspito; há também o céu de brigadeiro; os lamaçais e lodaçais e demais locais pantanosos; existem os que caem de paraquedas - não voam, saltam ao sabor do vento... Que aprendam a voar com quem daquele o faz pista de pouso! Que o salto o force a abrir suas asas!

Há areia movediça - mórbida fortuna: quem dela escapa não o faz sem o apoio de algo exterior a si próprio.

Há, todavia, aqueles que fazem sempre o mesmo voo baixo, de eterno reconhecimento, repousando sempre no mesmo campo, ao abrigo dos perigos do devir: posta-se perto demais destas pessoas e tão logo desaprender-se-á a voar. 

Não sou de me indispor com qualquer pessoa, por qualquer motivo: meus inimigos devem estar à minha altura. Daqui de onde estou o ar é leve e puro: quem o sentir, que ouça minhas palavras, igualmente leves e puras; meus timbres suaves e penetrantes. 

Ali embaixo o ar é pesado, cheio de chumbo e outros afetos tristes. Eu mesmo tive de desanuviar meu espírito para um voo calmo; descontaminar minhas asas até então repletas de partículas plúmbeas, com as quais voara até aqui: muito desejo, nenhuma vontade. Basta! Já era hora! Tive minhas turbulências, aprendi com as tempestades.

Só posso odiar o que eu amo profundamente. Só posso desprezar aquilo de que tenho profundo asco. E ser absolutamente indiferente àquilo que ainda não me fez mostrar os dentes - para que eu possa voar mais alto - trazer à luz o que está oculto; trazer à tona o oceano mais profundo.

Na proximidade do meu natalício, lanço o meu canto ao céu claro, sob uma lua cheia:

Obrigado pela vida e pela distância;
Obrigado pela minha filha e pela distância;
Obrigado pela ferida e pela distância;
Obrigado pela paixão e pela solidão; 
Grato, pois, sei: caindo, não passo do chão! 

Vogelfrei fliegt zum Licht
Fliegt mit Lese Nietzsche

terça-feira, 30 de junho de 2015

Falando de Escravos

O melhor estímulo a favor das pessoas de má-vontade é acenar para elas de longe, a sua frente, dizendo: "vem, se conseguir!". A pior forma de exercer estímulo sobre essas mesmas pessoas é se colocando atrás delas, como o algoz com o chicote contra suas costas, dizendo: "vá que estou mandando!". Tal atitude rebaixa quem chicoteia ao nível inferior daquele que é chicoteado.

domingo, 28 de junho de 2015

"The Gay Science"

Ainda sobre a questão do reconhecimento civil de uniões homossexuais: acho uma graça que a palavra para designá-los no Brasil e no mundo seja 'gay' [do inglês derivada do latim tardio "gaio" que pode ser vertido em gaiato/a, significando na linguagem corrente "alegria", "jovialidade"]. De minha parte, invejaria um grupo que fora marcado por causa de tal símbolo..! 

Lembro da "Gaia Ciência" de Nietzsche - em inglês, "The Gay Science"; alemão, "fröhliche Wissenschaft"; que vem da expressão provençal (dialeto do sul da França) "gai saber": a saber, o conhecimento necessário para a arte da poesia, um "conhecimento alegre" da vida, como define o próprio Nietzsche no prólogo do livro.

Em todo o caso, posso apenas lamentar que essa porção da humanidade tenha perdido o privilégio de viver à margem da normatividade social - que se traduz em padronização e controle dos afetos, morte dos desejos, quase sempre e no fim das contas.

Nós, aqueles que já vivemos o pesadelo do modelo padrão de vida, sabemos muito bem que o melhor a fazer por nossas vidas, em honra de nossa felicidade, é saltar para fora dele! Com um golpe afiado na bolsa que nos contém! Com um rasgo de ponta a ponta no véu do pensamento único, da moral, para além do bem e do mal! Que cada qual faça o seu caminho, a sua lei, a sua "tábua de valores"! De minha parte, não espero nem desejo nem a louvação nem a censura por parte de ninguém quanto aos meus parâmetros de vida. Muito menos de um monstro frio e mentiroso que é o Estado.

Reiterando: boa sorte! Vamos precisar!

sábado, 27 de junho de 2015

Nem Toda Causa de Asco é Inseto

1. Algumas pessoas não caberiam na roupa dos cristãos, todavia, se utilizam de sua máscara: se aproveitam da fantasia para evitar qualquer desgaste, sublimando sua própria natureza, por puro ardil, embebidos em má-consciência. Ante estes covardes, conscienciosas palavras e distância segura!

2. Há uma espécie de doutrina de morte, lamuriosa e lamentável, que nada faz senão em consulta aos seus pares sacerdotais, afeita às falácias e discursos subjetivos e dogmáticos, sempre puxando para cada vez mais baixo qualquer força vital: o feminismo ~pára que tá feio~. É evidente: a impressão que a violência de gênero deixou nessas pessoas é de profundo relevo; uma cicatriz dilacerante que produziu uma resposta igualmente extrema do organismo: abdicam até mesmo da razão para defenderem-se a si mesmas, produzindo um machismo de pólo invertido. Arrisco dizer: muitas destas pessoas possuíram formação nas doutrinas cristãs [o que ajuda a compreender o porquê de serem tão asquerosas...], apesar de terem-na renegado: ainda vivem à sombra de um deus morto.

Símbolos

Onde houver intensa mídia, propaganda em massa - serão eriçados os pelos da minha desconfiança. Farejo o mau-cheiro, a podridão de quem manipula os fios.

Com isso, digo: não é fácil despregar-se do espírito do rebanho.
Pelo contrário: pareço, aos olhos dos outros, um monstro, o estranho.
Mas não digo "odeio ser o estraga prazeres"
Se, a bem da verdade, muito me divirto, zombeteiro, em rir dos rumos desse pisoteamento!

Pois bem: não quero - e querer é tudo o que eu posso - ver outro amigo gay levar-se ao suicídio pelo odioso envenenamento de toda uma sociedade. É lamentável que nos ocupemos, enquanto humanidade, de estabelecer um patamar civilizatório mínimo. É lamentável e sintomático do espírito de nossa era: a modernidade é um engano, estamos alimentando monstros gigantescos... Não apenas neste aspecto - quase todas as mobilizações contemporâneas são tentativas de garantir ao menos os dedos, já que a ganância dos nossos arranjos econômicos já nos levaram os anéis há tempos.

Mas daí a regozijar-se com uma decisão de uma suprema corte de uma potência imperial estrangeira e fazer disso uma duvidosa campanha de mídia social... não me prestaria a esse papel!
Depõe contra a humanidade que as parcas conquistas - se é que podem ser assim chamadas - civilizatórias dependam de tribunais constitucionais. Ainda mais sintomática a reverberação desse refinamento da sociedade norte-americana por aqui, da forma como foi feita hoje [afetos sequestrados e tutelados pelo facebook! O horror!] - sendo que o nosso STF e o CNJ já haviam nos garantido patamares jurídicos semelhantes antes.

Uns argumentam, os mais honestos, considerando o simbolismo: ora! De simbolismos nos fartamos com o presidente operário; com a presidenta; e, o maior de todos, com o tempo, que nunca volta atrás! Símbolos, desde há milênios, apenas são instrumentos de mobilização dos afetos mais fracos, mais suscetíveis. De símbolos, pululam os cadáveres nos pântanos do Tártaro...
Não vou falar de sexualidade: aí não há o que se discutir, senão o que se experimentar e se apropriar, sendo o caso. Todavia, desejo sorte aos homossexuais nessa aventura de adentrar aos padrões produtivos e de consumo da família moderna. Dela - a sorte, e nunca esse modelo de normatividade social - todos nós, seja qual a cor que nos pintemos, vamos precisar!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Uma Questão de Clima

Em um clima muito úmido, fungos e ervas diversas crescem com ferocidade, sendo um dispêndio de energia muito grande combatê-los, apesar do inconveniente que representam em nossa vida muitas vezes. Pois bem: do mesmo modo, é preciso mudar o clima dentro de nós para evitar que voltem a crescer incessantemente ervas e fungos que nos sejam inconvenientes.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Paráfrase

Pedalar tornou-se leve, muito leve, quando exigiu de mim a marcha mais pesada.

domingo, 14 de junho de 2015

Fábula

Hoje tive uma epifania observando os patinhos e gansos na lagoa do Parque da Cidade: Eles são apenas elementos amenizadores da paisagem urbana lembrando algo da natureza; não possuem função produtiva; nem sequer nos servem de alimento - necessário retomar aquele aforismo do "Humano, Demasiado Humano": gostamos de estar na natureza porque ela não nos julga... 

Como úteis, apesar de dispensáveis, tratamos de nos divertir e divertir as nossas crianças com eles, lançando-lhes nossas pipocas, pães, quaisquer coisas que eles possam agarrar famintos. Rimo-nos com a falta de traquejo na sua luta por uma migalha! Eles se bicam, se enfrentam, batem asas entre si; os mais valentes dentre eles nos vêm grasnando de peito aberto,  se sentindo fortes e com direitos sobre os nossos lanches, enfim... 

Não pude evitar de ver neles praticamente todo o nosso espectro político de esquerda - vagueando como dispensáveis utilidades, brigando entre si - cada categoria corporativista roubando a migalha que escorreria do banquete das elites para a outra; cada "seita" pregando para os seus e condenando-se entre si - e inflando o peito, simulando uma liderança de todas as subclasses, esbravejando sua pequenez e impotência em um ou outro microfone no congresso nacional;  em grupelhos estudantis que se arvoram defensores de ideais - com isso quero deixar bem claro: ingênuos falseadores da realidade, no mínimo; gigantescos hipócritas, no máximo. 

Lembrei-me de toda a esquerda cristã; de todos os insuportavelmente ególatras militantes de facebook - ainda que cumpram funções na organização de algo de verdade, só o fazem pela possibilidade de fazerem propaganda de si mesmos, asquerosos!; de todas as pessoas que conheci no PSOL [com justiça, excluindo o camarada Flávio Pompeu, que tem estatura teórica para refletir sobre si mesmo e suas proposições políticas] - espantalhos da institucionalidade burguesa, coagem todos os corvos que anseiam por moer os grãos semeados pela ordem hegemônica, canalhas eleitoreiros!; todos os pobres coitados que se agarram ao anarquismo por, talvez, medo da solidão, instinto de rebanho - não o sabem, mas vivem às sombras de um deus morto! - estes ainda podem salvarem-se a si mesmos se superarem o receio de serem a minoria dentre a minoria: a "minoria" sou eu mesmo; sem falar daquela que é a pior espécie de escravo: a que defende o seu senhor! Aqueles gansos mansos que comem na minha mão: em tudo se assemelham aos defensores destes governos deste partido de merda, o lastimável PT - que em cada ato deixa evidente que defende os interesses da grande burguesia nacional e da finança internacional - e ainda falam em "minimizar a desigualdade", em "correlação de forças", toda a ladainha dos covardes e dos canalhas que estão no poder! Com estes me divirto muito mais, talvez por isso sejam os menos dispensáveis!

O Dia do Sol

É domingo, quase oito horas da noite, acabo de chegar em casa de um dia no parque com a minha família e, agora, na minha abençoada solidão, me surge a questão: cafeína ou álcool?
O álcool me derruba como Muhamad Ali; como touro contra toureiro experiente: vou à lona - à lama - numa "vulgar rapidez", como diria Nietzsche.
A cafeína contribui para o despertar dos meus sentidos desde sempre, evita muito desgaste, muito dispêndio de energia psíquica e muitas válvulas tensas que o álcool não se envergonha de libertar numa sangria. De modo que apenas com o mais elevado conhecimento de si o álcool deveria ser utilizado, como uma espécie de bisturi, um instrumento de uso pontual para extirpar determinada sombra de nossa psique. Deveria ser de corrente estranhamento tal substância ser tão comum, tão vulgarizada ao mesmo tempo em que outras psicoativas são demonizadas e perseguidas - ainda que, provavelmente, sejam instrumentos bem mais efetivos e importantes para o fortalecimento da personalidade de alguém. Pois bem: hoje vou de cafeína.

Os anglófonos guardam mais justiça ante a história e a genealogia das mitologias: chamam este dia de "sunday" - o "dia do sol" - tais quais guardiões dos antigos cultos pagãos. Os cristãos, estes miseráveis cretinos que a tudo mancham com seus dedos e palavras podres, como não poderia deixar de ser - não poderiam proceder de outro modo - falsearam o santo dia como domingo - do latim "dominicus", o "dia de deus" - e com este lance linguístico afastaram a humanidade do sentido original deste dia de sagrado descanso: a celebração da força e de tudo o que é forte na vida, levando-a além. E tão logo foram se esconder com a sua infinita vergonha dos seus desejos mais profundos; com seu ódio indisfarçável contra a felicidade mais ingênua; embebidos de veneno europeu (que o pregado havia transformado a partir da água) cambaleantes, agressivos e depressivos, nas suas naves escuras, suas cavernas, suas igrejas - "túmulos e monumentos fúnebres de deus!". O domingo é, assim, o dia de se ajoelhar ante este deus impotente, pois, invejoso, vingativo, de um amor inseguro; um deus que, se existisse, haveria de ser combatido com a mais intensa força pelos seres potentes deste universo!

Daí facilmente se depreende todo o sentido das atuais políticas sobre drogas: tudo o que for útil ao poder será liberado e, quando faltar qualquer pudor, fartamente estimulado - como é o álcool no Brasil. Poderá vir um dia em que o poder necessite de pessoas mais dóceis e risonhas: a maconha então seria vendida ao lado das balinhas e chocolates nas padarias. Um atentado contra a cafeína: utilizá-la como chicote no lombo dos escravos: em todo lugar em que há trabalho, há café... É preciso compreender a gênese deste poder e o que ele quer que as pessoas façam: por exemplo, o álcool é hoje vendido nos postos de gasolina e não me recordo de ficar a saber de uma sociedade com tantos mortos por violência no trânsito causada por motoristas alcoolizados. Todo o arranjo político no Brasil precisa de uma sociedade brutalizada: num Estado de selvageria - isso é sabido da ciência política desde os contratualistas - como nos assemelhamos, não há o menor vulto da ideia de evolução, de progresso da associação dos indivíduos; todos se agarram aos parcos recursos que possuem (e que, por eles, são possuídos) com extrema violência. Ora, o que é o discurso político conservador brasileiro e a violência difusa em nossa sociedade (em várias formas - simbólicas e físicas) senão dois lados de uma mesma moeda? É necessário que seja assim: de outro modo, os arranjos superestruturais seriam alvo de mudanças e poderíamos ameaçar poderes maiores que o nosso - geopoliticamente falando. Nossa estupidez é maravilhosa: serve como laboratório para testes de novíssimas tecnologias de controle e disciplina; mantém uma incessante produção de trabalho escravo, enfim... poderia defender esta tese com mais profundidade, mas o café já ataca o suficiente meu fígado.

Que deus está morto nossa razão o sabe muito bem. O que me importa? O aprendizado do inverno: é o sol que nos aquece, tolos! É a força que leva a vida acima e além - não a fraqueza; a afetação; a compaixão; todos os "espíritos do peso"! Então, como superar as sombras de um deus morto? Comecemos assassinando a vergonha de nossos próprios desejos! Cuspamos para fora, tal qual o fizera Zaratustra, a inveja de uma felicidade ingênua! E cuidemos, cada qual, dos nossos caminhos.

sábado, 6 de junho de 2015

Chegando Atrasado Ao Fim dos Anos 50

Tomo por admirável aquilo em que vejo uma genuína manifestação da coragem...
O que acho mais admirável em meu pai?
Ter tido filhos com minha mãe.
O que acho mais admirável em minha mãe?
Ter se separado de meu pai.

De vez em quando me flagro, num jogo psicológico autodestrutivo, nutrido de profundo autodesprezo, imaginando como teria sido o relacionamento dos dois, ambos disputando com muito equilíbrio de forças quem teria sido mais mau-caráter e manipulador; mais covarde e agressivo; mais medroso e compassivo... 
Enfim, a luta do século [passado]!

Todo esse asco me lembrou a seguinte passagem do "Humano, Demasiado Humano":
1. "Sobrevida dos pais. - As dissonâncias não resolvidas na relação entre o caráter e a atitude dos pais ressoam na natureza da criança e constituem a história íntima de seus sofrimentos."

2. "Vindo da mãe. - Todo indivíduo traz em si uma imagem de mulher que provém da mãe: é isso que o leva a respeitar as mulheres, a menosprezá-las ou a ser indiferente a elas em geral." [Ou a ter sentimentos dúbios para com relação a elas, acrescentaria.]

3. "Corrigindo a natureza. - Quando não se tem um bom pai, convém providenciar um."

4. "Pai e filho - Os pais têm muito o que fazer, para compensar o fato de terem filhos."

[1, 2, 3 e 4: Aforismos 379, 380, 381 e 382, "Humano, Demasiado Humano", Nietzsche]

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Fundo

O que é a minha arte? O que é a minha escrita? O que é este blog?

No fundo, um belo exercício de retórica e eloquência...

Mas, quem disse que eu me importo com o fundo?! Para lá vai tudo aquilo que morre, tudo aquilo que pesa - que possui menos força que a gravidade - ou que se ampara em algo - um tanque de oxigênio, uma religião, um ídolo - para manter-se vivo...

Quero mesmo é nadar na superfície exercitando a minha força, sentido o sentido da vida! Breves mergulhos pra aumentar o meu fôlego, decerto... mas não me interessa, de modo algum, o "fundo"!

Astronomia

Existem pessoas que são como a lua cheia: brilham apenas no escuro; emulando, refletindo, tomando como sua a luz dos outros. Quando vistas ao lado daqueles que têm luz própria - de um sol -, empalidecem tal qual o céu de um dia de outono, comovendo as pessoas deste modo: "Nossa, como aquele brilharia bem na escuridão!". 

Pois bem! 

Eu sou aquele sol! Uma distância segura de mim se faz necessária: perto demais minha força faria cinzas de gente pequena; a uma distância generosa, faria bem aos que se fartam da minha luz e calor; a uma certa distância - como as coisas da memória - brilharia como uma estrela em céu noturno e talvez nem me permitisse mostrar a alguém se ainda vivo... 

No vosso outono, me afasto; vou queimar sozinho em algum outro canto, mas, deixo a vocês de presente, pois sou generoso, o conhecimento de um inverno. O meu orgulho me leva, a minha vaidade traz-me de volta, dado o vosso anseio genuíno por calor! 
 
Agora, vejam bem: existem estrelas de várias grandezas: perto de um Nietzsche, por exemplo, sei que me assemelharia a um grão de fuligem incandescente que escapa de uma gigantesca fogueira.

terça-feira, 2 de junho de 2015

De Olhos Fechados

 Estive relendo algumas postagens antigas deste blog que já está próximo de fazer oito - o infinito de pé! - anos. Na primeira postagem, em que apresento o blog, há o seguinte comentário que me suscitou algumas dúvidas...
-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Anônimo disse...
Primeiro, o desafio maior era incorporar a linguagem artística à uma obra musical acabada e irretocável como é a sua música. Fugir dos excessos, evitar o óbvio e alimentar a memória emotiva.

Era então preciso dar "corpo" ao diálogo contemporâneo com palavras cristalizadas. Você o fez. É requintado , lógico e até matemático. Um quase desacompanhado.

Só tinha de ser você.

te adoro.
 ----------------------------------------------------------------------------------------------------

Pela referência à minha obra musical, lisonjeado, com toda aquela falsa modéstia que sempre me coubera... Todavia, por curiosidade... quem fora esse comentador anônimo? Fora aquela? Ou aquela outra? Ou ela? Que importa! Há espelhos de toda espécie, que distorcem de várias formas a nossa imagem! Hoje eu sei que o único modo de enxergar alguma coisa de mim mesmo é, a priori, de olhos fechados. Toda imagem recebida de fora é um espelho retorcido, um sopro que infla uma vaidade vacilante... quem no mundo poderia lançar-me alguma imagem próxima da que eu tenho de mim mesmo?! Qual aquele que "[...] perscruta o fascínio que dele se aproxima mas está longe de lhe ir ao encontro [...]" [Nietzsche em "Ecce Homo"].
 
Assim, está é a inscrição na minha porta:

"Quem aqui entra me dá uma honra, quem não entra me dá prazer" 
["O Poeta" Nietzsche em "A Gaia Ciência"].

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Pura Vaidade

1. A quem pode interessar os motivos da minha solidão? Ora, que voem pra longe, aves de mau agouro! Se vivo só e lido com as entidades do silêncio e do escuro, somente a mim cabe questionar-me os motivos de tal forma de vida, pois que razão acha-se facilmente para tudo. Dos meus monstros, cuido eu! Vejam bem: os monstros são meus!

2. Uma pessoa pode permanecer viva por pura vaidade: já não lhe restam outros esteios, outras âncoras na vida que não a teimosia em estar, em ocupar um espaço, em apostar em um risco e, no lance de sorte, esperar ser reconhecido pelos outros como aquilo que acredita intimamente ser - isso que é o que aqui se entende por vaidade. Aqueles sapos que se enchem de ar para afetar de medo os concorrentes, de luxúria os parceiros sexuais... a isso não posso chamar de vaidade, talvez de blefe. Para naturezas mais refinadas, nobres, que possuem o seu recanto no isolamento quase absoluto, pouco importam os parâmetros médios da medida de uma pessoa. Que importam eles! A aposta, para tal estirpe, é sempre muito alta. Que assim seja! Estar vivo por vaidade! E por que motivo maior que este se poderia ainda viver?!

3. De modo que em uma tal pessoa um otimismo realista que diz "não espero nada, estou pronto pra tudo" ocupa-se de imaginar os cenários mais terríveis que o horizonte do futuro possa lhe trazer - as crises econômicas mais agudas; as relações pessoais mais afiadas que um punhal, conflitos com agentes da ordem hegemônica; viver em situação de rua ou mesmo voltar a morar com a família por uma depressão financeira; toda sorte de enfrentamentos e perigos, enfim. Navegar em mar calmo, para elas, é de pouco valor e, talvez pela sua própria natureza, pouco provável. Cabe a pergunta retórica: um raio procura a nuvem mais carregada para chegar à terra ou é dela mesma apenas uma manifestação?

4. Estas palavras estão despidas de qualquer vestígio de má-consciência? São apenas as palavras do Macaco de Zaratustra? Ora, até estas perguntas são por pura vaidade!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Anedotário II

Num gesto brusco, descuidado, já derramara café no meu teclado e mesa inteiros... hoje foi o vinho, mas, quem diria?!, do susto me sai um riso, uma ode à Dionísio, e pulou de mim um verso e termino agora a última letra que faltava do meu próximo álbum!

Este, chamar-se-á "Iñaron". O irmão dionisíaco do apolíneo "Além de Mim" (2014).

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Convalescente

- Eu ascendo aos céus novamente, sou o convalescente!

Um dos meus melhores poemas em inglês. O curioso de escrever numa língua estrangeira é como se usássemos, pois, máscaras, como fosse um elemento cênico, uma cortina ou um véu sobre o que se quer dizer. Já dizia Nietzsche (Aforismo 544 [Meio-saber], "Humano, Demasiado Humano"):

"Aquele que fala pouco uma língua estrangeira tem mais prazer nisso do que aquele que a fala bem. O prazer está com os meio-sabedores."

The Convalescent

I tried to fit in the husband shape
And ran before I couldn’t escape
I could not hide how I was scared
Despite, grateful for the time we’ve shared
I know well how affection is scarce
But I could not stand with that farce
I’m back off the rail track so now I’m free
Farewell, I’ll try to be me!

I ascend to heaven again! Oh, how lucky I am!
I descend with the sense of the Earth! Oh, I rebirth!

I went beyond my alma mater
I overcame the sun, my father
When I work with concentration and focus
I can reach nature’s magnum opus
I burnt my mouth by kissing those lips
And became full by grabbing those hips
I worship goddesses: don’t take me wrong
I’m a mess and this is not my tongue

Now that I’m nurtured I can sow my seed
Who would dare to drop my speed?
I raised my sword and cut off the curse
Knew the word and wrote the verse
Tempered with the fire of the will to power
Dressed in red to light my desire
My heart sings gently and tells me thus:
Can you see? “Alles ist im fluss”!


"Alles ist im fluss" ("Tudo está em fluxo", tudo passa, "panta rei". Nietzsche em "Assim falava Zaratustra".)

sábado, 23 de maio de 2015

Espíritos Ígneos

Quero ela como a Terra quer o Sol: pleno de anseio de vida. Ela, porém, precisa ainda enternecer. É ainda carvão verde, falta-lhe ainda estar em brasa viva e fumegar; e fumegará por muitos anos, pois que é mais encorpada que eu e, portanto, queimará mais lentamente. Eu, que sou ígneo e esguio no espírito, já estive em brasa viva, sentia-a por sobre a pele e não há muito!, e minha chama ardeu como uma explosão solar luzindo o céu e tal velocidade me causou vertigem; fui sol e agora sou estrela-anã, sei esperar e esquecer, mesmo que ainda lance aos sete ventos minha fumaça - pura vaidade ferida, cheia de orgulho! Quem sabe algum dia possamos arder juntos a chama que a faísca do nosso encontro deu a ignição, liberando todo nosso calor, úteis ao sentido da Terra! Não há garantias de que isso venha a ocorrer, todavia - e é melhor que assim seja!

"Ó, como não haveria eu de me encontrar ardendo pela eternidade e pelo nupcial anel dos anéis - o anelo do retorno!
Jamais encontrei, até agora, a mulher com a qual gostaria de ter filhos, a não ser esta mulher que eu amo: pois eu te amo, ó eternidade!
Pois eu te amo, ó eternidade!
"
["Os Sete Selos", Assim Falou Zaratustra, Nietzsche]

Aprendizado Com a Experiência

Algumas pessoas escolhem a carreira de professor pela possibilidade de reeditar sua vivência ginasial e exercitar seus gracejos e outras opressões, ora para com os alunos, ora uns com os outros. Outras, como os espíritos livres, talvez escolham justamente pelo o contrário.

Calendário Venturiventiano

Janeiro: Os dias mais bonitos; o céu mais que azul
Fevereiro: Os dias mais ensolarados; alegre conhecimento da vida
Março: Belos dias tristes: o fim das férias
Abril: Triste mudança do tempo; infecções respiratórias
Maio: Magníficos crepúsculos bronzeados, noites gélidas
Junho: Dias de tênue azul, ventos frios e secos ressecam a vista
Julho: Gélido céu estrelado, apaixonadamente e distante do sol, a Terra ainda gira
Agosto: Dias mais quentes e não menos secos, dias para piscinas e onde mais se puder nadar
Setembro: Dias quentes e névoa seca sobre toda a cidade, dias para a esperança
Outubro: Chuvas apaziguadoras, dias mais quentes do ano, a natureza verdeja, dias para parques
Novembro: Chuva em 28 dos 30 dias do mês; neblina na aurora, dias para ver a chuva da janela
Dezembro: Dois dias de sol para cada dia de chuva, quase tão belos quanto janeiro.
E, de tanto anseio por beleza, a natureza nos manda de volta para lá!

"Under a summer blue sky I decided not to die"

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um Fardo Opressor

Ser professor nas condições atuais, no nosso espaço e no nosso tempo, ao menos para os assim chamados "espíritos livres" - dentre os quais modestamente me incluo - não se configura outra coisa que não um fardo opressor. De modo que é perfeitamente verossímil a seguinte anedota:
Duas pessoas que se desconhecem acabam de ter-se uma com a outra. A primeira pergunta "o que você faz da vida?", no que a segunda responde, zombeteira, "um fardo opressor!". Pensando titubearem seus ouvidos, aquela pergunta em seguida "você é professor?". "Sim...", responde aquele, com maldosa autoironia.

domingo, 19 de abril de 2015

Anedotário

Tenho uma harmonia guardada há tempos na cabeça.
Tentei encaixar umas coisas que havia escrito, mas não consegui desenvolver.

Em mim, a música é um instrumento psicológico - às vezes com mais, outras vezes com menos consciência -, como um vaso que transborda com uma última gota, desfazendo uma tensão que, em momento oportuno, tornará a crescer: aquilo que dele verte é a minha música.

Algumas ideias germinam, crescem, acumulando força até florescer; algumas situações, experiências marcantes, profundas, que se vestem de poesia - aquela força apolínea - e celebram jubilosa união com a melodia: desta aliança é gerada a canção.

Estive há pouco brincando com o baixo e a guitarra. Dedilhei a tal harmonia e, de repente, via uma luz, uma claridade que cegava - a força criadora de imagens me tomou de assalto e escrevi em não mais que 5 minutos toda a letra. Esse fluxo torrencial é evento raro - nós, humanos, como reflexo da força artística que irrompe da própria natureza, emulamos os ciclos vitais - lembro de escrever "Pra Ser Verdade" 9 anos atrás sob este mesmo signo.

Há vida! Ainda bem que existe a música!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Resenha - "O Nascimento da Tragédia"

Terminei hoje "O Nascimento da Tragédia", o primeiro livro de Nietzsche.

Senti um Nietzsche comedido, quase envergonhado com relação às suas próprias pulsões, prestando reverências à uma romântica germanidade - Schopenhauer, Kant e Lutero... Um Nietzsche metido à besta e frouxo... Depois, na maturidade, ele apenas deixa de ser frouxo. Mas vira um puto metido à besta! Qualquer um que leia um Zaratustra não volta dele o mesmo humano de antes... ali tem um elixir, algo assim, uma química dos afetos que o bigodudo experiencia e dela se torna mestre.

Este em nada se assemelhou ao Nietzsche de "Ecce Homo", "O Anti-Cristo", "Assim Falou Zaratustra", ao prólogo de "Humano, Demasiado Humano" que li logo em seguida (e que pareceu mesmo outra pessoa, em absoluto) senão na reverência aos gregos como exemplo de uma cultura que talhou a si mesma bela pela experiência com o horror; de júbilo experimentado com a mais elevada e dolorosa tarefa de existir e "ser quem tu és", seja o preço que custar; a tragédia - o "amor-fati", o 'amor ao destino' que permeia a obra filosófica do bigodudo - como remédio contra o pessimismo, esse câncer da existência.

Apesar de sentir falta daqueles belíssimos ataques ao cristianismo - como o próprio lamenta no prólogo, escrito na maturidade -, esse engano de dois milênios, não se lhes faltam à "gentalha" burguesa e sua arte vazia e à modernidade, de modo geral - esse tempo falseador da vida...
Ainda assim, é uma obra que tem suas passagens maravilhosas, que fizeram de Nietzsche, apesar de atacado e ignorado até à loucura em vida, uma das poucas referências de dignidade das ideias que ainda será levada em conta daqui há uma dúzia de milênios. "Porque sou um destino" - ele bem sabia disso, bigodudo metido à besta!

De minha parte, recomendo sua leitura a qualquer - espírito livre -, principalmente, àqueles perturbados pelas forças dionisíacas e apolíneas da música e do teatro. É um livro que Nietzsche escreveu para mim, sinto, como canceriano besta que sou. Se você escreve música, teatro, poesia, qualquer coisa... pode ler: se não te matar, te fará fortalecido.

"O prazer que o mito trágico gera tem uma pátria idêntica à sensação prazerosa da dissonância na música. O dionisíaco, com o seu prazer primordial percebido inclusive na dor, é a matriz comum da música e do mito trágico.
[...]
Se pudéssemos imaginar uma encarnação da dissonância - e que outra coisa é o homem? - tal dissonância precisaria, a fim de poder viver, de uma ilusão magnífica que cobrisse com um véu de beleza a sua própria essência. Eis o verdadeiro desígnio de Apolo: sob o seu nome reunimos todas aquelas inumeráveis ilusões da bela aparência que, a cada instante, tornam de algum modo a existência digna de ser vivida e impelem a viver o momento seguinte."

(Nietzsche, "O Nascimento da Tragédia", aforismos 24-25.)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Punk Revisto - Parte I

Fazendo o que deveria ter feito há 10 anos atrás: ouvindo todo o punk britânico-irlandês clássico.
Nunca é tarde para fazer o que ainda se pode ser feito. Nunca é tarde para aprender a viver no tempo certo. No tempo de então, meu contato com a internet se fazia em tatear com as pontas dos dedos todo um universo de possibilidades... Com o passar do tempo, fui conhecer outras coisas, ouvir outras músicas, aprender novas técnicas e deixei latente, decantado aquele desejo por aquela estética poderosa. 

O que sempre me fascinou no punk, especialmente no britânico - os americanos a mim nunca tiveram tanta graça -, é que eles pensavam a estética e a política - que são faces da força criadora em movimento. O Punk foi, sem dúvida, o último grande gemido da voz rouca da contra-cultura (Killing Joke, "Are You Receiving"; Sex Pistols, "Problems"; The Clash, "Tommy Gun", por exemplo). 

O ~movimento~ de Seattle, E.U.A., nos anos 90 é o exato oposto do punk: um refluxo niilista despolitizado engolfado pela indústria do entretenimento. Nem vou me ater a desqualificá-lo por agora, mereço empenhar melhor meu tempo.

De volta ao punk europeu*, em relação à política, eram jovens de uma geração contra a parede na Inglaterra do neoliberalismo, uma manifestação do traumático desmonte da social-democracia nas sociedades pós-industriais. 

Em estética, o absoluto descompromisso para com a canção enquanto mercadoria. Em franca oposição, por exemplo, àquela coisa que não merece ser considerada para a história da arte e que, deveras, merece um tempo ainda maior que o dedicado à desqualificação do Grunge - pois que não lhe toca a sola dos pés - a que se convencionou chamar de "hard rock", e que foi o grande $ucesso da indústria fonográfica dos fins dos 70/início dos 80: de Aerosmith a Bon Jovi; de Van Halen a Guns & Roses. 

O Punk foi o primeiro movimento de assimilação do reggae - Clash, Killing Joke e Stiff Little Fingers gravaram reggaes nos seus primeiros discos - e da cultura da periferia, de modo geral, das cidades britânicas: dos exilados, dos imigrantes, dos marginais. Ao contrário do Eric Clapton, que ganhou muito dinheiro com a versão de "I Shot The Sheriff", do Bob Marley; que afirmou bêbado em show que a Inglaterra "devia voltar a ser dos ingleses", os punks organizaram o Rock Against Racism ("Rock Contra o Racismo") - um evento justamente para contraporem-se à expansão política da National Front - os ~cidadãos de bem~ da direita nacionalista inglesa. 

O punk foi, em larga medida, um canto romântico, lembrando a tradição operária do rock bretão - dos Beatles e do Who - lamentando a sua degenerescência. Tragédia é que o punk, ele próprio, degenerou-se talvez com ainda maior velocidade: U2, por exemplo. 
 
Mas a história, essa mãe generosa, já nos permite contemplar trajetórias genuínas daquela geração de jovens influenciados by the so called beat generation: Killing Joke, John Lydon (Sex Pistols e Public Image Ltd.), Morrisey, e daquelas bandas que ficaram pelo caminho, como Clash, Damned, etc.